Introdução
19 de Março. Eu fiz um esboço do ritual e realizei a invocação com pouco sucesso. Eu fiquei desconcertado, não apenas pelo meu ceticismo e pelo absurdo do ritual, mas por eu ter de realizá-lo usando túnica junto a uma janela aberta em uma rua ao meio dia. Ela me permitiu fazer a segunda tentativa à meia noite.
20 de Março. A invocação foi um sucesso surpreendente. Me foi dito que “O Equinócio dos Deuses tinha chegado”; ou seja, que uma nova época tinha começado. Eu deveria formular uma conexão entre a força solar-espiritual e a humanidade.
Aleister Crowley – O Advento do Æon de Hórus
O chamado Grande Ritual foi um rito concebido por Aleister Crowley em 1904, seguindo as orientações que Rose Kelly (Ouada) havia recebido do deus Hórus como decorrência de algumas operações mágicas simples que ele havia executado para distraí-la, mas que vieram a despertar em Rose aspectos de clarividência. Segundo ela, Crowley havia ofendido Hórus em sua briga com S. M. Mathers e, tendo este deus uma mensagem para ele, deveria invocá-lo.
O resultado final desta Invocação foi, poucas semanas depois a Escritura do Liber L vel Legis – O Livro da Lei (posteriormente, Libel AL vel Legis, após a correção do nome por C. S. Jones). Em comemoração a ela, é comum a realização deste ritual por Thelemitas durante o Equinócio de passagem solar do signo de Peixes para o de Áries (seja o Equinócio de Outono no Hemisfério Sul ou o de Primavera, no Norte). Esta passagem não apenas marca o início de uma nova estação como também uma nova jornada do Sol pelo Zodíaco, constituindo o dia de ano novo zodiacal. Assim, considera-se que o Anno Novo Thelêmico corresponde ao momento desta passagem e do Equinócio, o Equinócio dos Deuses, e é comum que, ao redor do mundo, Thelemitas celebrem esse novo Anno com a realização desta adaptação do ritual que o Profeta do Novo Eon realizou.
O Ritual
O Templo
Este ritual pode ser executado dentro de um templo fechado ou a céu aberto. Crowley o realizou em seu quarto de hotel, então recomenda-se que se for em local fechado, que o aposento tenha uma janela (preferencialmente voltada para o Norte ou para o Leste), para a qual o(a) executante estará voltado(a). Em caso de ser executado em local aberto, recomenda-se que o(a) executante volte-se em direção ao Sol naquele momento.
O ritual não demanda altar, mas o local deve estar ricamente decorado, com joias e enfeites de bom gosto.
O(a) Executante
Deve estar vestido(a) com um robe branco e descalço, portando em sua mão uma espada e na outra um colar com 44 pérolas. Se possível, usar joias com diamantes (ou correlatos, como cristais de rocha brancas, zircônias etc.). Se não for possível o uso de tais joias, ao menos deve usar em si enfeites de bom gosto e que sugiram riqueza.
O Sinal de Hórus (O Entrante)
O sinal aqui mostrado é chamado de Sinal de Hórus, ou a Postura do Entrante. Representa, entre outras coisas, o avanço daquele que o executa em direção aos mundos além do Véu. Este sinal é feito de forma dinâmica. Comece com o corpo ereto e os pés juntos, cabeça em posição ereta com o olhar para a frente. Em seguida, estenda os braços para frente, com as palmas das mãos viradas para fora. Afaste, então, as mãos, como se abrisse uma cortina. Traga as mãos para junto das laterais da cabeça e, em seguida, leve-as rapidamente para a frente, na altura da cabeça e com as palmas para baixo, esticando os braços. Ao mesmo tempo, projete o pé esquerdo para a frente, inclinando-se um pouco nesta direção.

O Sinal de Apophis-Typhon (O Tridente)
O sinal representando na figura abaixo é o de Apophis-Typhon. Ele é feito com o corpo ereto, os braços levemente flexionados erguidos com as mãos acima da cabeça, no mesmo plano que o corpo. A cabeça inclina-se levemente para trás, com o olhar voltado para cima.

Invocação de Hórus Segundo a Divina Visão de W., A Vidente
A ser executado diante de uma janela aberta para L. ou N., sem incenso. A sala há de ser preenchida com joias, mas apenas diamantes devem ser usados. Uma espada, não consagrada. 44 contas de pérola a serem contadas. De pé. Luz clara do dia às 12:30. Trancai as portas. Túnicas brancas. Pés descalços. Sede mui ruidosos. Sábado. Usai o Sinal de Apófis e Tifão.
O supracitado é a resposta de W. a várias questões postas por P.
Preliminar. Bani. L.B.R. Pentagrama. L.B.R. Hexagrama. Espada Flamejante. Abrahadabra. Invocai. Como antes.
[Estas são as ideias de P. para o ritual. W. replicou: “Omiti.”]
[O MS. deste Ritual traz muitas marcas internas de ter sido escrito em alvinitente fervor e deixado sem revisão, salvo talvez por um relance. Há erros de gramática e de ortografia únicos em todos os MS. de Fra. P.; o uso de maiúsculas é irregular, e a pontuação, quase ausente.]
Confissão
Impreparado e sem Te invocar, eu, οὔ μή, Fra. R. R. et A. C., aqui estou em Tua Presença — pois Tu estás em Toda a Parte, ó Senhor Hórus! — para confessar humildemente perante Ti meu desdém e meu escárnio por Ti.
Como me humilharei o bastante perante Ti? Tu és o poderoso e invicto Senhor do Universo: eu sou uma centelha de Tua inefável Radiança.
Como me aproximaria de Ti? — mas Tu estás em Toda a Parte.
Mas Tu graciosamente Te dignaste a chamar-me a Ti, a este Exorcismo de Arte, para que eu possa ser Teu Servo, Teu Adepto, ó Brilhante, ó Sol de Glória! Tu me chamaste — não deveria eu, então, apressar-me à Tua Presença?
Com mãos por lavar, portanto, venho a Ti, e lamento meu desvio de Ti — mas Tu o sabes!
Sim, eu fiz o mal!
Se alguém1 Te blasfemou, por que deveria eu, portanto, abandonar-Te? Mas Tu és o Vingador; tudo está Contigo.
Curvo minha cerviz perante Ti; e como outrora Tua espada esteve sobre ela2, assim estou eu em Tuas mãos. Fere, se quiseres; poupa, se quiseres; mas aceita-me como sou.
Minha confiança está em Ti: serei eu confundido? Este Ritual de Arte; esta Invocação Quarenta e Quádrupla; este Sacrifício de Sangue3 — a estes não compreendo.
O Equinox
Basta que eu obedeça ao Teu decreto; se teu fiat se pronunciasse por minha eterna miséria, não seria minha alegria executar Tua Sentença em mim mesmo?
E por quê? Porque Tudo está em Ti e é de Ti; basta que eu me consuma na intolerável glória de Tua presença.
Basta! Volto-me para a Tua Promessa.
Dúbias são as Palavras; Escuros são os Caminhos; mas em Tuas Palavras e em Teus Caminhos há Luz. Assim, pois, agora como sempre, adentro o Caminho das Trevas, se porventura assim eu possa alcançar a Luz.
Salve!
א I ה
Fere, fere o acorde-mestre!
Saca, saca a Espada Ardente!
Menino Coroado e Senhor Vencedor,
Hórus, vingador!
1. Ó Tu, o da Cabeça de Falcão! A Ti, a Ti, invoco! [A cada “A Ti, invoco”, por todo o ritual, fazei o Sinal de Apófis.]
A. Tu, filho unigênito de Osíris, Teu Pai, e de Ísis, Tua Mãe. Aquele que foi morto; Aquela que Te carregou em Seu ventre, fugindo do Terror da Água.
A Ti, a Ti, invoco!
2. Ó Tu, cujo Avental é de um branco fulgurante, mais alvo que a Fronte da Manhã!
A Ti, a Ti, invoco!
B. Ó Tu, que formulaste Teu Pai e tornaste fértil Tua Mãe!
A Ti, a Ti, invoco!
3. Ó Tu, cuja veste é de glória dourada, com as barras azúreas do céu!
A Ti, a Ti, invoco!
C. Tu que vingaste o Horror da Morte; Tu, o matador de Tifão! Tu que ergueste Teus braços, e os Dragões da Morte se fizeram pó; Tu que levantaste Tua Cabeça, e o Crocodilo do Nilo foi humilhado perante Ti!
A Ti, a Ti, invoco!
4. Ó Tu, cujo Nêmes oculta o Universo com a noite, o Azul impermeável!
A Ti, a Ti, invoco!
D. Tu que viajas na Barca de Rá, permanecendo ao Leme da barca Aftet e da barca Sektet!
A Ti, a Ti, invoco!
5. Tu que portas a Vara do Duplo Poder!
A Ti, a Ti, invoco!
E. Tu, em cuja presença se derrama a escuridão da Luz Azul, a glória insondável do Éter longínquo, a imensidão não percorrida, impensável do Espaço. Tu que concentras todos os Trinta Éteres numa única esfera sombria de Fogo!
A Ti, a Ti, invoco!
6. Ó Tu que portas a Rosa e a Cruz da Vida e da Luz!
A Ti, a Ti, invoco!
A Voz dos Cinco.
A Voz dos Seis.
Onze são as Vozes.
Abrahadabra!
Fere, fere o acorde-mestre!
Saca, saca a Espada Ardente!
Menino Coroado e Senhor Vencedor,
Hórus, vingador!
1. Pelo teu nome de Rá eu Te invoco, Falcão do Sol, o glorioso!
2. Pelo teu nome Harmachis, jovem da Manhã Brilhante, eu Te invoco!
3. Pelo teu nome Mau, eu Te invoco, Leão do Sol do Meio-dia.
4. Pelo teu nome Tum, Falcão do Crepúsculo, esplendor carmesim do Ocaso, eu Te invoco!
5. Pelo teu nome Khep-Ra eu Te invoco, ó Escaravelho da Mestria oculta da Meia-noite!
A. Pelo teu nome Heru-pa-Kraat, Senhor do Silêncio, Belo Menino que te pões sobre os Dragões do Abismo, eu Te invoco!
B. Pelo teu nome de Apolo, eu Te invoco, ó homem de força e esplendor, ó poeta, ó pai!
C. Pelo teu nome de Febo, que conduzes tua quadriga através do Céu de Zeus, eu Te invoco!
D. Pelo teu nome de Odin eu Te invoco, ó guerreiro do Norte, ó Renome das Sagas!
E. Pelo teu nome de Jeheshua, ó filho da Estrela Flamejante, eu Te invoco!
F. Pelo Teu próprio, Teu secreto nome Hoori, a Ti eu invoco!
Os Nomes são Cinco.
Os Nomes são Seis.
Onze são os Nomes!
Abrahadabra!
Eis-me! Posto estou no meio. Meu é o símbolo de Osíris; para Ti meus olhos estão sempre voltados. Para o esplendor de Geburah, a Magnificência de Chesed, o mistério de Daath, para lá ergo meus olhos. Isto busquei, e busquei a Unidade: ouve-me Tu!
γ III ג
1. Minha é a Cabeça do Homem, e minha visão é arguta como a do Falcão.
Pela minha Cabeça eu Te invoco!
A. Eu sou o filho unigênito de meu Pai e minha Mãe.
Pelo meu Corpo eu Te invoco!
2. Ao meu redor brilham os Diamantes de Radiança, brancos e puros.
Pelo seu brilho eu Te invoco!
B. Meu é o Triângulo Vermelho Invertido, o Sinal4 dado por ninguém, salvo se for por Ti, ó Senhor!
Pelo Lamen eu Te invoco!
3. Minha é a veste de branco cosida a ouro, o abbai fulgurante que visto.
Pela minha túnica eu Te invoco!
C. Meu é o sinal de Apófis e Tifão!
Pelo sinal eu Te invoco!
4. Meu é o turbante de branco e ouro, e meu o vigor azul do ar íntimo!
Pela minha coroa eu Te invoco!
D. Meus dedos percorrem as Contas de Pérola: assim corro eu atrás de Ti em teu carro de glória.
Pelos meus dedos eu Te invoco!
[No Sábado, o colar de pérolas partiu-se; assim mudei a invocação para “Meus sigilos místicos viajam na Barca do Akasha, etc. Pelos feitiços eu Te invoco!” — P.]
5. Porto a Palavra do Duplo Poder na Voz do Mestre — Abrahadabra!
Pela Palavra eu Te invoco!
E. Minhas são as vagas azul-escuras da música na canção que outrora fiz para invocar-te —
Fere, fere o acorde-mestre!
Saca, saca a Espada Ardente!
Menino Coroado e Senhor Vencedor,
Hórus, vingador!
Pela Canção eu Te invoco!
6. Em minha mão está tua Espada de Vingança; que ela fira ao Teu Mandado!
Pela Espada eu Te invoco!
A Voz dos Cinco.
A Voz dos Seis.
Onze são as Vozes.
Abrahadabra!
δ IV ד
[Esta seção meramente repete א I ה na primeira pessoa. Assim começa:]
1. “Minha é a Cabeça de Falcão! Abrahadabra!”, e termina:
6. “Porto a Rosa e a Cruz da Vida e da Luz! Abrahadabra!”, fazendo o Sinal a cada Abrahadabra. Permanecendo no Sinal, a invocação conclui:]
Portanto, digo-te: Vem, pois, e habita em mim; de modo que todo o meu Espírito, seja do Firmamento, ou do Éter, da Terra ou de sob a Terra; em terra seca ou na Água, ou no Ar Ressoante ou no fogo impetuoso; e todo feitiço e flagelo de Deus, o Vasto, possa ser TU. Abrahadabra!
A Adoração — de improviso.
Encerrai com o banimento. [Creio que isto foi omitido por ordem de W. —P.]
Durante o período de 23 de Março a 8 de Abril, o que quer que mais tenha acontecido, é pelo menos certo que o trabalho continuou em certa medida, que as inscrições da estela foram traduzidas para Fra. P., e que ele parafraseou esta última em verso. Pois o encontramos usando, ou preparado para usar, o mesmo texto no Liber Legis.
Talvez então, talvez mais tarde, ele tenha deduzido as “coincidências onomásticas da Cabala” para as quais devemos agora dirigir a atenção do leitor.
O MS. não passa de um esboço fragmentário.
Ch = 8 = Ch I Th = 418 = Abrahadabra = RA-HVVR (Ra-Hoor).
Também 8 é o grande símbolo que adoro.
(Isto pode ser por sua semelhança com ∞ ou por sua (antiga G∴ D∴) atribuição a Daath, sendo P. então um racionalista; ou por alguma outra razão.)
- Sem dúvida uma referência a S.R.M.D., que era muito obcecado por Marte. P. viu Hórus a princípio como Geburah; mais tarde como um aspecto de Tiphereth, incluindo Chesed e Geburah (o Triângulo vermelho invertido), um aspecto oposto a Osíris. [^]
- Vede G∴ D∴ Cerimônia de Neófito, a Obrigação. [^]
- Apenas, supomos, que 44 = DM, sangue. Possivelmente uma taça de sangue foi usada. P. pensa que foi em alguns dos trabalhos desta época, mas não tem certeza se foi neste. [^]
- Este sinal fora previamente comunicado por W. Era inteiramente novo para P. [^]
