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	<title>História &#8211; Oásis Quetzalcoatl</title>
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		<title>Aleister Crowley: Uma análise crítica</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Oásis Quetzalcoatl]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 13 Nov 2025 15:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Crítica]]></category>
		<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
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					<description><![CDATA[Vamos falar de Aleister Crowley. Sim, é isso mesmo. O tal do &#8220;Homem Mais Perverso do Mundo&#8221;. Pois é, a coisa não é simples. De um lado, você tem a imprensa sensacionalista e os grupos religiosos pintando o cara como o capeta em pessoa. Do outro, uma legião de fãs, de ocultistas a estrelas do... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/aleister-crowley-uma-analise-critica/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Vamos falar de Aleister Crowley. Sim, é isso mesmo. O tal do &#8220;Homem Mais Perverso do Mundo&#8221;.</p>



<p>Pois é, a coisa não é simples. De um lado, você tem a imprensa sensacionalista e os grupos religiosos pintando o cara como o capeta em pessoa. Do outro, uma legião de fãs, de ocultistas a estrelas do rock, tratando o sujeito como um messias da contracultura. E agora? Em quem a gente acredita?</p>



<p>A resposta, gente, é: em nenhum dos dois. A verdade, como sempre, é muito mais complicada e, sinceramente, muito mais interessante. Para entender quem diabos foi Aleister Crowley, a gente precisa deixar de lado tanto o pânico moral quanto o fã-clube. Precisamos fazer uma coisa que dá trabalho: analisar o homem, sua obra e seu legado com um olhar crítico, pragmático e sem medo de encarar as contradições. E olha que são muitas.</p>



<p>E a ideia aqui é exatamente fazer uma análise crítica. Um mergulho fundo na figura que foi, ao mesmo tempo, um gênio da sistematização ocultista e um ser humano profundamente problemático. Vamos separar o joio do trigo, a obra do autor, a filosofia da biografia.</p>



<p>Então, prepare um café, abra a mente e venha comigo desvendar essa figura que, até hoje, causa mais polêmica do que episódio final de série famosa.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Afinal, quem é esse tal de Crowley?</h2>



<p>Vamos botar as cartas na mesa. Aleister Crowley (que na verdade se chamava Edward Alexander Crowley) é uma das figuras mais complexas e polarizadoras da história recente. Tentar coloca-lo numa caixinha é perda de tempo, até porque ele passou a vida toda chutando todas as caixinhas que encontrava.</p>



<p>O cara não era só um &#8220;ocultista&#8221;. Ele foi poeta (e dos bons), romancista, provocador, um alpinista de elite que encarou o K2 e o Kanchenjunga (pense no Everest, só que pior), enxadrista de primeira, pintor, crítico literário e, talvez, até espião. Essa lista de &#8220;profissões&#8221; não é só currículo de LinkedIn vitoriano; era uma estratégia. Crowley estava deliberadamente construindo uma persona que explodia a ideia de que você tem que ser uma coisa só na vida.</p>



<p>Claro que o que pegou mesmo foi o apelido que a imprensa britânica deu pra ele: &#8220;o homem mais perverso do mundo&#8221;. Esse título grudou feito chiclete no sapato e ofuscou todo o resto. Crowley virou o pôster boy da depravação, da libertinagem e do anticristianismo. E aqui vai o primeiro segredo: ele adorou. Sabe o “falem mal, mas falem de mim”? Pois é.</p>



<p>Essa fama não foi um acidente. Foi uma mistura perfeita do pânico da sociedade vitoriana (que morria de medo de sexo, de novas ideias e do declínio da religião) com a performance calculada do próprio Crowley. Ele era um mestre do marketing pessoal numa época em que essa palavra nem existia.</p>



<p>E a prova disso é que ele abraçou a ofensa. Quando a própria mãe, numa tentativa de controle, o chamava de &#8220;A Grande Besta 666&#8221;, ele não chorou no cantinho. Ele pegou o apelido e transformou em marca registrada. Foi uma jogada de mestre de jiu-jitsu cultural: ele usou o estigma como escudo e a difamação como megafone. A polêmica não era um problema; era o motor de divulgação de Thelema. Ele sacou, muito antes de todo mundo, que numa sociedade careta, o jeito mais rápido de ficar famoso é sendo um transgressor profissional.</p>



<p>O irônico? O mesmo cara que era o vilão para os jornais de sua época virou santo para a contracultura do século XX. Ocultistas, artistas, metaleiros e até escritores famosos começaram a ver Crowley não como um depravado, mas como um profeta da liberação sexual e espiritual. O auge foi quando a fuça dele apareceu na capa do álbum &#8220;Sgt. Pepper&#8217;s Lonely Hearts Club Band&#8221; dos Beatles, em 1967. Ele estava lá, de boas, ao lado de gente como Carl Jung e Oscar Wilde.</p>



<p>Jimmy Page, do Led Zeppelin, foi além: comprou a Boleskine House, que era a antiga casa mal-assombrada do Crowley na beira do Lago Ness, e começou a publicar os livros dele. No Brasil, a dupla Raul Seixas e Paulo Coelho (sim, <em>aquele</em> Paulo Coelho, antes de virar guru de autoajuda) virou a maior garota-propaganda da Thelema, adaptando as ideias do &#8220;Carecão&#8221; para o rock brasileiro dos anos 70.</p>



<p>Essa esquizofrenia – de demônio da depravação a santo padroeiro da contracultura – mostra por que a gente precisa de um filtro. Então, para esta análise, vamos focar no que a academia diz. O roteiro desta live foi construído a partir de artigos de pesquisadores sérios, teses de mestrado e doutorado em história, antropologia e estudos de religião, e biografias escritas por gente que usa até nota de rodapé para escrever. O objetivo é te dar uma visão equilibrada, sem demonizar e sem endeusar. Deu pra sacar?</p>



<p>E, sim, é possível. Mas, para isso, a gente precisa de rigor. Estudar Crowley é como andar num campo minado. De um lado, você tem os detratores que o pintam como um vilão de desenho animado. Do outro, aqueles devotos, que a gente apelida de Crowleititas, que o tratam como um profeta que nunca errou. Ambos estão errados.</p>



<p>Para não cair em nenhuma dessas valas, nossa base aqui são fontes confiáveis. Isso inclui os trabalhos de biógrafos sérios como Lawrence Sutin, Richard Kaczynski e Tobias Churton, que passaram anos fuçando os diários, as cartas e os documentos do próprio Crowley com método de historiador, não de fã. Também vamos olhar para o que têm da dizer dele as próprias organizações por onde ele passou, como aqui a própria a Ordo Templi Orientis e a Astrum Argentum, fundada por ele. São grupos que guardam os arquivos e, hoje em dia, até promovem debates acadêmicos sobre o legado do Crowley. Tipo… isso que estamos fazendo agora.</p>



<p>É importante entender que o estudo acadêmico do esoterismo é uma coisa nova. Até pouco tempo atrás, esse era um assunto que a universidade tratava como piada. Graças a estudiosos como Antoine Faivre e Wouter Hanegraaff, o &#8220;Esoterismo Ocidental&#8221; virou um campo de pesquisa legítimo. Isso permitiu que figuras como Crowley fossem analisadas não como &#8220;magos&#8221; ou &#8220;charlatões&#8221;, mas como intelectuais complexos que dialogavam com as grandes questões do seu tempo.</p>



<p>Porque, veja bem, Crowley não era só um cara que fazia rituais esquisitos. Ele era um produto do modernismo europeu. Foi um poeta com dezenas de livros publicados, tradutor de gente como Baudelaire e do &#8220;Tao Te Ching&#8221;, um ensaísta que escrevia sobre tudo, de arte a política, e um alpinista que quebrava recordes no Himalaia.</p>



<p>Então, para entender o cara, a gente precisa de uma abordagem multidisciplinar. É preciso olhar para a Cabala que ele estudou, para os traumas de infância que ele carregava, para a sociedade vitoriana que ele tanto queria chocar e para as ideias de filósofos como Nietzsche e Schopenhauer que ele claramente leu. Só juntando todas essas peças a gente começa a montar o quebra-cabeça.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Origem da Fera</h2>



<p>Edward Alexander Crowley nasceu em 1875, no coração da Inglaterra vitoriana, uma época tão reprimida que até as pernas das mesas usavam saias. A família dele era da alta burguesia, com uma grana que vinha da cervejaria da família. O pai, também Edward, era tão rico que se aposentou cedo para se dedicar em tempo integral à sua verdadeira paixão: pregar. E não estamos falando de pregos.</p>



<p>E ele não pregava em qualquer igreja. Os Crowley eram membros da Irmandade de Plymouth (Plymouth Brethren), uma seita cristã fundamentalista que fazia a ala mais radical dos evangélicos de hoje parecer um grupo de hippies. Para eles, a Bíblia era literal, o Apocalipse estava virando a esquina, e o resto do mundo era um poço de perdição. Era um ambiente totalitário, onde cada pensamento e cada ato eram vigiados pela patrulha da moral divina.</p>



<p>Nesse &#8220;Big Brother&#8221; religioso, o pequeno Crowley foi submetido a um regime de opressão psicológica pesada. O pai o forçava a ler a Bíblia por horas, memorizar versículos e passar por interrogatórios sobre o estado de sua alma. Ironicamente, essa imersão forçada deu a ele um conhecimento enciclopédico das Escrituras, que ele usaria mais tarde para subverter o cristianismo com a precisão de um cirurgião.</p>



<p>Mas, na época, a experiência gerou uma repulsa visceral. A educação religiosa não produziu fé, produziu revolta. A negação de qualquer autonomia, a demonização do corpo e da sexualidade, a culpa constante&#8230; tudo isso foi o combustível para a rebelião que definiria sua vida.</p>



<p>O ponto de virada aconteceu em 1886, quando ele tinha onze anos. O pai morreu de câncer na língua (a ironia cósmica não perdoa, né?). Com a morte do pai, a situação piorou. Ele ficou sob a tutela de um tio, Tom Bishop, que era um sujeito muito bacana &#8211; isto é, se você considera bacana usar punições físicas e humilhação como método pedagógico. A mãe, Emily, em vez de proteger o filho, mergulhou ainda mais no fanatismo e foi quem começou a chamá-lo de “Besta do Apocalipse” sempre que ele mostrava um pingo de personalidade.</p>



<p>Do ponto de vista psicológico, é aqui que está a chave para entender tudo o que veio depois. Toda a vida e obra de Crowley podem ser vistas como uma gigantesca revolta arquetípica contra a &#8220;Lei do Pai&#8221;. Ele não estava se rebelando só contra o pai biológico, o tio abusivo ou a mãe fanática. Ele estava se rebelando contra a ideia de qualquer autoridade imposta de fora, incluindo a maior de todas: o Deus cristão.</p>



<p>A busca de Crowley por um sistema onde a única lei é a sua &#8220;Verdadeira Vontade&#8221; interna é o espelho exato dessa experiência. Onde a Irmandade de Plymouth dizia &#8220;Seja feita a <em>Tua</em> vontade&#8221;, Crowley responderia &#8220;Faz o que <em>tu</em> queres&#8221;. Não foi coincidência; foi o projeto de uma vida inteira de libertação psicológica.</p>



<p>Acontece que, apesar de toda a opressão (ou talvez por causa dela), Crowley era um crânio. Foi para as melhores escolas e acabou no Trinity College, na Universidade de Cambridge. Lá, ele começou a construir deliberadamente sua persona pública: a do esteta decadente, do dândi transgressor, do provocador profissional. Pense em Oscar Wilde, mas com menos teatro e mais ocultismo.</p>



<p>Crowley mergulhou de cabeça no movimento Fin-de-siècle, explorando temas de erotismo, blasfêmia e espiritualidade alternativa. Ele se vestia de forma extravagante, tinha relações com homens e mulheres (isso numa época em que a homossexualidade podia te levar para a cadeia) e publicava poesias que fariam sua avó vitoriana desmaiar.</p>



<p>Agora, é crucial entender: isso não era só ele &#8220;sendo ele mesmo&#8221;. Era uma performance calculada, uma forma de política identitária radical. Ele usava o próprio corpo e comportamento como armas contra a hipocrisia e a normatividade da sua época.</p>



<p>Ao mesmo tempo, ele começou sua jornada no esoterismo. Em 1898, ele entrou para a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Hermetic Order of the Golden Dawn), a &#8220;Hogwarts&#8221; dos ocultistas da época. Era a maior e mais influente sociedade esotérica, uma espécie de &#8220;universidade do oculto&#8221; que misturava Cabala, alquimia, Tarot, astrologia e vestia tudo isso em uma quantidade nababesca de mitologia egípcia.</p>



<p>E lá, Crowley era um aluno prodígio. Com uma baita inteligência e memória fotográfica, ele subiu os degraus da Ordem numa velocidade assustadora, impressionando até o chefão, Samuel Liddell MacGregor Mathers.</p>



<p>Claro que isso gerou treta. Esse progresso rápido e a lealdade a Mathers criaram um baita ciúme em outros membros importantes, como o poeta William Butler Yeats (que achava Crowley um perigoso desequilibrado) e o esoterista Arthur Edward Waite (que o considerava um charlatão imoral).</p>



<p>A raiz desse conflito era filosófica. Crowley queria resultados práticos, experimentais. Ele criou seu próprio sistema de magia e chamou &#8220;Magick&#8221; (com &#8216;k&#8217; mesmo) Para ele, magia não era um hobby intelectual ou um conjunto de metáforas bonitinhas; era uma tecnologia espiritual para transformar a consciência e o mundo. E era o que ele se via fazendo O resto da galera, na visão dele, estava lá só brincando de sociedade secreta.</p>



<p>Isso tudo explodiu em 1900, num evento que ficou conhecido como o “Cisma da Golden Dawn”. A ordem se partiu, e Crowley, que ficou do lado de Mathers, acabou sendo expulso. Aliás, esse padrão – entrar num grupo, brilhar, causar um racha e sair – se repetiria por toda a sua vida.</p>



<p>Porém, o evento que mudou tudo mesmo na vida do Crowley aconteceu no Cairo, em 1904. Ele estava em lua de mel com sua primeira esposa, a Rose Edith Kelly. Ela não sabia chongas de ocultismo, mas de repente, depois de umas operações mágicas para chamar silfos que o Crowley fez e deu com os burros n’água, a Rose começou a entrar em transe, dizendo que umas entidades egípcias queriam falar com ele.</p>



<p>Crowley resolveu testar a esposa para ver se ela não estava ficando lelé da cuca. Fez um monte de perguntas sobre simbolismo egípcio e, para seu espanto, Rose, que nunca tinha aberto um livro de egiptologia, o levou até o Museu do Cairo e apontou para uma peça específica, a &#8220;Estela da Revelação&#8221;, que, por &#8220;coincidência&#8221;, tinha o número de catálogo, na época, de 666. Para Crowley, que já usava 666 como seu número mágico pessoal, aquilo foi um sinal.</p>



<p>Seguindo as instruções que Rose recebia em transe, nos dias 8, 9 e 10 de abril, sempre do meio-dia à uma da tarde, Crowley trancou-se em seu quarto e lá ele recebeu, por um tipo de ditado telepático, um texto chamado <em>Liber L vel Legis</em>, ou <em>O Livro da Lei</em>, que mais tarde teria o seu nome corrigido para <em>Liber AL vel Legis</em>.</p>



<p>A mensagem, segundo ele, veio de uma inteligência não-humana (ou praeter-humana, seja lá o que for isso) chamada Aiwass. Mais tarde, Crowley diria que Aiwass era seu próprio Sagrado Anjo Guardião – um conceito que vem da magia renascentista e que se refere a uma espécie de &#8220;Eu Superior&#8221; ou gênio pessoal. Isso é importante: a revelação não vinha de um deus externo, mas da sua própria essência mais profunda. Ao longo do tempo, Crowley mudou essa visão, indo e vindo, várias vezes, de modo que, atualmente, não dá para saber se ele realmente entendeu o que havia acontecido lá. Curiosamente, no próprio Livro da Lei, é dito que ele não entenderia completamente mesmo.</p>



<p>Para quem caiu de paraquedas aqui, esse livro é dividido em três capítulos, cada um narrado por uma divindade egípcia reinterpretada: Nuit (o infinito, o espaço), Hadit (o ponto individual, a consciência de cada um) e Hórus, uma divindade dual composta por Ra-Hoor-Khuit e Hoor-paar-kraat (a força que nasce da união de Nuit e Hadit, representando a energia de uma nova era).</p>



<p>A frase central, a big idea de Thelema, está logo no primeiro capítulo: <strong>&#8220;Faze o que tu queres será o todo da Lei.&#8221;&nbsp;</strong></p>



<p>Mas, peraí, não saia por aí fazendo o que der na telha”</p>



<p>Crowley insistia que isso não era uma licença para o hedonismo barato. A &#8220;Vontade&#8221; aqui não é seu desejo de comer um pote de sorvete às três da manhã. É a sua <strong>Verdadeira Vontade</strong>, aquela estrutura mais fundamental de quem você é quando tira todas as camadas de condicionamento social, medos e expectativas dos outros.</p>



<p>Crowley declarou que essa revelação marcava o início de uma nova era para a humanidade: o <strong>Aeon de Hórus</strong>. Na sua filosofia da história, passamos pelo Aeon de Ísis (a era da Deusa-Mãe, matriarcal), pelo Aeon de Osíris (a era do Deus-Pai, do sacrifício, das religiões como o Cristianismo) e agora estávamos entrando no Aeon de Hórus, a era da Criança Coroada, do indivíduo soberano. Sim, dá para ver aqui uma farpinha do pensamento liberal do Hayek e do Rand, mas há controvérsias quanto a isso.&nbsp;</p>



<p>E para que ninguém achasse que era só bagunça, o livro completa a Lei com um segundo preceito fundamental: <strong>&#8220;Amor é a lei, amor sob vontade.&#8221;</strong> Isso significa que a liberdade individual é absoluta, mas deve ser exercida com responsabilidade e consciência. O Amor verdadeiro, segundo Thelema, chamado de Ágape, só acontece quando cada um está alinhado com seu propósito autêntico. A harmonia social não viria de regras impostas, mas da interação de indivíduos que estão vivendo suas verdadeiras naturezas.</p>



<p>E assim nasceu Thelema. Um sistema que joga fora os dogmas e a moralidade externa e coloca a responsabilidade total no colo de cada um. O trabalho da sua vida? Descobrir essa tal de Verdadeira Vontade. E aí, Zezinho, é que a jornada começa.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Caixa de Ferramentas do Novo Aeon</h2>



<p>Ok, então Thelema é sobre encontrar e fazer sua Verdadeira Vontade. Mas como, diacho, você faz isso? A resposta de Crowley foi: com <strong>Magick</strong>. E, como eu disse, ele botou um &#8220;k&#8221; no final de propósito.</p>



<p>Primeiro, para diferenciar do ilusionismo, dos truques de cartas e de tirar coelho da cartola. Segundo, para dar uma piscadela para o conhecimento antigo (o &#8220;k&#8221; tem várias camadas de significado, incluindo referências ao grego e à Cabalá, que não são o tópico aqui).</p>



<p>A definição clássica dele é um primor de pragmatismo: <strong>&#8220;Magick é a Ciência e a Arte de causar Mudança de acordo com a Vontade.&#8221;</strong></p>



<p>Então, vamos desmontar essa frase, que é praticamente um manual de instruções:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Ciência:</strong> Crowley insistia que Magick não era superstição. Tinha que ter método. Você cria uma hipótese (ex: &#8220;se eu fizer o ritual X, vou conseguir o resultado Y&#8221;), executa o experimento, anota tudo num diário com o rigor de um cientista de laboratório, observa os resultados e ajusta a teoria. A única diferença é que o laboratório é você mesmo.</li>



<li><strong>Arte:</strong> Ao mesmo tempo, não é só seguir uma receita de bolo. Exige intuição, criatividade, timing. É a diferença entre um cozinheiro que segue a receita à risca e um chef que <em>cria</em> com os ingredientes.</li>



<li><strong>Causar Mudança de acordo com a Vontade:</strong> Aqui está o pulo do gato. Qualquer ato intencional é um ato mágico. Escrever um e-mail para conseguir um emprego é magia. Chamar alguém pra sair é magia. A diferença entre isso e um ritual cheio de velas e incenso é só o grau de foco e simbolismo. Magick, então, não é algo separado da vida; é a própria vida, vivida com intenção total &#8211; e isso faz uma baita diferença.</li>
</ul>



<p>A maior contribuição de Magick, na minha opinião, foi ter &#8220;psicologizado&#8221; a magia. Crowley estava lendo Freud, Jung, William James e toda a galera da psicologia que estava bombando na época. Ele pegou os conceitos antigos de demônios, anjos e espíritos e os reinterpretou como forças dentro da nossa própria psique. O secretário dele, Israel Regardie, era psicólogo clínico.</p>



<p>Pense assim: invocar um &#8220;demônio&#8221; num ritual pode ser entendido como trazer à tona um complexo reprimido, uma parte sombria de você mesmo, para poder olhar na cara dele, entendê-lo e integrá-lo. Não é sobre fazer pacto com o tinhoso, é sobre fazer as pazes com seu próprio porão psicológico. Essa abordagem permitiu que pessoas modernas e racionais pudessem usar essas técnicas sem ter que acreditar literalmente em um universo de fantasia medieval. Magick virou uma forma de psicologia transpessoal, décadas antes de o termo ser sequer inventado.</p>



<p>O sistema mágico de Crowley parece um curso de culinária fusion. Ele pegou o que achava de melhor no misticismo oriental (Yoga, meditação budista) e no ocidental (Cabala, rituais herméticos) e cozinhou tudo junto. Para Crowley, as técnicas de meditação do Oriente eram o treinamento de base, o fortalecimento do núcleo mental para que as práticas mais dramáticas do Ocidente pudessem funcionar sem que o praticante surtasse.</p>



<p>E, no fim das contas, a ênfase é sempre na experiência direta. Não adianta ler mil livros sobre natação; uma hora você tem que pular na piscina. Para Crowley, a verdade espiritual é a mesma coisa. Você tem que experimentar por si mesmo.</p>



<p>Mas Crowley não deixou suas ideias soltas no vento. Ele as organizou em duas Ordens, que funcionam de maneiras diferentes, mas complementares. E aqui a gente faz uma pausa para falar um pouquinho dessas duas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A∴A∴ (Astrum Argentum – a Estrela de Prata)</strong></h3>



<p>Fundada em 1907, a A∴A∴ foi a resposta de Crowley à bagunça em que a Golden Dawn tinha se transformado. A missão? Nada menos que &#8220;o avanço da humanidade através da perfeição do indivíduo&#8221;. Sem pressão.</p>



<p>O sistema é um mapa detalhado para o autoconhecimento, usando a <strong>Árvore da Vida da Cabala</strong> como GPS. Cada &#8220;esfera&#8221; (Sephirah) e cada Caminho na Árvore representa um estágio de desenvolvimento psicológico e espiritual que o iniciado precisa dominar.</p>



<p>A estrutura é super individualista. Cada membro só tem contato com seu instrutor (o cara de cima) e, eventualmente, com seus alunos (a galera de baixo). Não tem reunião de condomínio, não tem presidente, não tem política interna. A ideia era evitar as disputas de ego que destruíram a Golden Dawn e manter o foco 100% no trabalho individual. É o caminho do &#8220;faça você mesmo&#8221;, mas com um mentor para tirar dúvidas.</p>



<p>As práticas são um combo de meditação, estudo de filosofia, rituais e, o mais importante, a busca pelo &#8220;Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião&#8221; – que, como vimos, é o encontro com seu Eu mais profundo, sua Verdadeira Vontade.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O.T.O. (Ordo Templi Orientis – Ordem do Templo do Oriente)</strong></h3>



<p>A O.T.O. é outra história. Crowley não a fundou, ele a &#8220;hackeou&#8221;. A ordem já existia na Alemanha, meio que como uma maçonaria alternativa com um foco em magia sexual. Quando o líder da O.T.O., Theodor Reuss, conheceu Crowley, ele reconheceu o potencial do cara e o colocou no topo da filial britânica.</p>



<p>Crowley, então, reescreveu todos os rituais e a filosofia da O.T.O. para que ela se tornasse o veículo principal de divulgação da Lei de Thelema.</p>



<p>Se a A∴A∴ é solitária e focada no trabalho interno, a O.T.O. é social e fraternal. Ela usa rituais em grupo, que funcionam como peças de teatro simbólicas, para transmitir ensinamentos e criar um senso de comunidade. É um sistema que ensina &#8220;por alegoria e símbolo&#8221;, criando experiências que um livro não consegue passar.</p>



<p>A estrutura de graus lembra a Maçonaria, mas o conteúdo é puro Thelema. E é nos graus mais altos da O.T.O. que os ensinamentos explícitos sobre Magia Sexual são transmitidos. O que nos leva ao próximo ponto&#8230;</p>



<p>Pois é, vamos falar da parte que todo mundo fica curioso. A Magia Sexual é, sem dúvida, um dos aspectos mais controversos e mal compreendidos do trabalho de Crowley. Mas também é um dos mais revolucionários.</p>



<p>Acadêmicos como Hugh Urban veem o sistema de Crowley como uma fusão de duas abordagens históricas da sexualidade: a <em>ars erotica</em> do Oriente (onde o sexo é um caminho para a iluminação) e a <em>scientia sexualis</em> do Ocidente (a tentativa moderna de classificar e analisar o sexo cientificamente). Crowley basicamente aplicou o método científico à arte erótica.</p>



<p>Pense comigo: em plena era vitoriana, um período de repressão sexual doentia, o cara estava:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Afirmando que a homossexualidade e a bissexualidade eram expressões válidas da natureza humana (enquanto a lei britânica as tratava como crime).</li>



<li>Defendendo a autonomia e o prazer sexual das mulheres.</li>



<li>Explorando práticas não-convencionais como ferramentas para atingir estados alterados de consciência.</li>



<li>Argumentando que <em>todo</em> ato sexual, se feito com consciência e alinhado à Vontade, é um ato sagrado.</li>
</ul>



<p>Ele estava décadas, talvez um século, à frente do seu tempo. A ideia de usar a energia mais potente do corpo humano – a libido, a energia sexual – como combustível para a transformação espiritual não era só sobre prazer, era sobre pragmatismo. É como usar a energia de um reator nuclear para iluminar uma cidade.</p>



<p>A O.T.O. institucionalizou isso, ensinando nos seus graus superiores como usar o sexo e o orgasmo de forma ritualizada para fins mágicos e espirituais. Essa ideia influenciou uma penca de movimentos que vieram depois, desde a Wicca (o fundador, Gerald Gardner, era membro da O.T.O.) até as comunidades modernas de tantra e sexualidade sagrada.</p>



<p>Mas, e sempre tem um mas com o Crowley, a teoria era linda, mas a prática&#8230; nem tanto. Seus escritos muitas vezes objetificam as mulheres, e sua vida pessoal era um desfile de relacionamentos abusivos e manipuladores. A libertação sexual que ele pregava no papel nem sempre se aplicava às suas parceiras na vida real. É a velha história: faça o que eu digo, não o que eu faço. E essa contradição é uma das grandes &#8220;manchas negras&#8221; em sua biografia e é preciso reconhecer isso.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Thelema no Divã da História</strong></h3>



<p>Por que uma filosofia tão esquisita e nascida na cabeça de um cara tão controverso conseguiu sobreviver e até crescer nos séculos XX e XXI? Simples: Thelema chegou na hora certa. Ela é quase que perfeitamente adaptada ao nosso mundo moderno, individualista e meio perdido.</p>



<p>Pense na nossa época: as religiões tradicionais estão em crise, as comunidades estão fragmentadas, a autoridade ruiu, e todo mundo está numa busca frenética por um &#8220;propósito&#8221;. Vide a profusão de coaches que tem por aí. E aí chega uma filosofia que te diz: &#8220;Pare de procurar lá fora. A resposta está aí dentro. Você não é um pecador miserável precisando de salvação. Você é, em essência, uma estrela, um deus. Sua missão é descobrir isso e viver de acordo.&#8221;</p>



<p>É um marketing espiritual genial.</p>



<p>Crowley, que tinha lido Nietzsche e entendeu o recado, estava oferecendo uma alternativa direta ao que ele chamava de &#8220;fórmula do estado servil&#8221; do Cristianismo. Onde a religião tradicional prega humildade, obediência e culpa, Thelema prega soberania, autoconhecimento e responsabilidade radical. A ideia de uma &#8220;aristocracia espiritual&#8221;, onde cada um é rei ou rainha do seu próprio universo, é um antídoto avassalador para a sensação de impotência que muita gente sente hoje.</p>



<p>Já do ponto de vista da psicologia, Thelema é um manual de &#8220;autoatualização&#8221;, para usar o termo de Maslow. É sobre realizar seu potencial máximo. E a estrutura das ordens como a A∴A∴ e a O.T.O. oferece algo que a sociedade moderna tirou de nós: um caminho claro de desenvolvimento, com ritos de passagem, troca honesta de informação e um senso de comunidade. Numa era sem rituais, as iniciações esotéricas preenchem um vazio psicológico enorme.</p>



<p>Aqui temos uma das maiores ironias da vida de Crowley. Ele dizia que queria democratizar o conhecimento esotérico, tirar das mãos de uma elite e tornar acessível a todos. Belo objetivo, não é? O problema é que o diacho do homem escrevia de um jeito quase impossível de entender.</p>



<p>Os textos que ele deixou são complexos, cheios de alusões a coisas que ninguém conhece, com uma linguagem dramática e um milhão de referências à Cabala, astrologia e mitologia. Para um leigo, ler Crowley é como tentar montar um armário com o manual de instruções em aramaico antigo: um tanto quanto&nbsp; frustrante.</p>



<p>Esse estilo acabou reforçando a imagem dele como um megalomaníaco que se achava o novo messias. A complexidade que deveria dar um ar de profundidade acabou criando uma barreira.</p>



<p>Ele mesmo parece ter percebido essa falha no fim da vida. Quando já estava velho, doente e quebrado, vivendo numa pensão, ele escreveu <em>Magick Without Tears</em> (Magia Sem Lágrimas). Esse livro é uma série de cartas respondendo a dúvidas de discípulos, e nele Crowley finalmente tenta ser claro, direto e didático. É talvez a melhor porta de entrada para seu pensamento, justamente porque ele deixou a pose de profeta de lado e falou como um professor. Pena que chegou tarde demais para consertar décadas de textos obscuros.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O Balanço Final – Gênio ou Babaca?</h2>



<p>A resposta honesta é: os dois. Qualquer análise séria de Crowley exige colocar na balança suas contribuições inegáveis e suas falhas de caráter monumentais. Vamos fazer isso de forma organizada.</p>



<p>Crowley não foi só um provocador. Ele foi um dos maiores sistematizadores do esoterismo ocidental. Ele pegou um monte de tradições fragmentadas e obscuras e as transformou em um sistema coerente e praticável para o público moderno.</p>



<ol class="wp-block-list">
<li><strong>Doutrina Pragmática:</strong> A Lei de Thelema, com seu foco na Verdadeira Vontade e no &#8220;amor sob vontade&#8221;, é uma estrutura ética poderosa. Ela oferece uma alternativa tanto à moralidade de rebanho das religiões quanto ao niilismo do &#8220;vale tudo&#8221;. Ela te dá um norte moral (sua Vontade), mas diz que a bússola para encontrá-lo está dentro de você. Isso é radicalmente contemporâneo.</li>



<li><strong>Epistemologia Mágica:</strong> Ao tratar a magia como um método experimental, ele a salvou de virar mera superstição. Essa abordagem influenciou tudo o que veio depois, de Wicca a Magia do Caos e Satanismo, e abriu caminho para toda uma série de práticas esotéricas compatíveis com uma mente cética e científica.</li>



<li><strong>A Ponte Oriente-Ocidente:</strong> A fusão de Crowley de Yoga e meditação com Cabala e magia cerimonial foi pioneira. Ele antecipou em décadas a explosão do interesse ocidental pelas práticas orientais e criou um modelo para espiritualidades globais.</li>



<li><strong>O Tarot de Thoth:</strong> O baralho de Tarot que ele criou com a artista Lady Frieda Harris é considerado uma obra-prima. É mais do que um oráculo; é um compêndio visual de todo o sistema mágico, religioso e filosófico thelêmico, é um &#8220;dicionário de símbolos&#8221; de uma densidade e beleza impressionantes.</li>



<li><strong>Vanguarda Sexual:</strong> A defesa de Crowley da libertação sexual numa época de repressão total foi histórica. Embora sua prática pessoal fosse um desastre (já chegamos lá), só as suas ideias já teóricas ajudaram a pavimentar o caminho para a revolução sexual que viria décadas depois.</li>



<li><strong>Ícone Pop:</strong> Queiramos ou não, Crowley se tornou um ícone cultural. Dos Beatles a Raul Seixas, passando por Jimmy Page e Ozzy Osbourne, sua imagem e suas ideias permearam a cultura popular, tornando-se um símbolo duradouro de rebelião e individualismo.</li>
</ol>



<p>O legado de Crowley acaba sendo vasto e multifacetado, com um baita impacto em diversas áreas do pensamento moderno e da espiritualidade ocidental. Mas agora, precisamos falar do lado sombrio. E não, não é sobre pactos com o demônio. É sobre coisas bem mais mundanas e, por isso mesmo, piores.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Caráter Nível &#8220;Tóxico&#8221;</strong></h3>



<p>Fora isso, múltiplas fontes, incluindo gente próxima a ele, descrevem Crowley como um &#8220;valentão e um bastardo&#8221;. Ele era manipulador, egocêntrico a um nível patológico e explorava financeiramente seus seguidores. Ele ensinava a transcendência do ego, mas seu próprio ego era do tamanho de um planeta.</p>



<p>Além do mais, suas relações com as mulheres eram um show de horrores. Ele as tratava como objetos para seus experimentos mágicos e as descartava com uma frieza assustadora. Várias de suas parceiras tiveram colapsos nervosos, e uma de suas esposas, a Rose Kelley, quase morreu num hospício. É a contradição suprema: um profeta da libertação que, na prática, escravizava emocionalmente as pessoas ao seu redor.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O Desastre da Abadia de Thelema</strong></h3>



<p>A &#8220;Abadia de Thelema&#8221;, uma comuna que ele fundou na Sicília em 1920, era para ser uma utopia. Virou o &#8220;Fyre Festival&#8221; do ocultismo. O lugar era imundo, as drogas corriam soltas e a dinâmica era de um culto tóxico centrado na figura do líder.</p>



<p>A tragédia aconteceu em 1923, quando um sujeito que vivia lá, Raoul Loveday, morreu de uma infecção contraída ao beber água contaminada de um riacho. Crowley, que desconfiava da medicina, não procurou ajuda adequada. A esposa de Loveday, Betty May, voltou para Londres e contou histórias cabeludas (e provavelmente exageradas) para os tabloides, incluindo sacrifícios de gatos e rituais de sangue.</p>



<p>O escândalo foi tão grande que o governo fascista de Mussolini o expulsou da Itália (pense nisso: os fascistas acharam Crowley extremo demais). Foi esse episódio que cimentou sua reputação de &#8220;homem mais perverso do mundo&#8221; e revelou um fracasso ético fundamental: na hora do &#8220;vamos ver&#8221;, seu ego e seus experimentos vinham sempre antes do bem-estar de seus seguidores. A negligência que levou à morte de Loveday não foi um acidente, foi o resultado de uma arrogância colossal.</p>



<h2 class="wp-block-heading">E Agora? O que a gente faz com esse legado?</h2>



<p>Mais de 70 anos depois de sua morte, Aleister Crowley continua sendo um enigma. Ele não foi só gênio nem só farsante. Foi um iconoclasta brilhante e um ser humano profundamente falho. Mas suas realizações intelectuais sobreviveram às controvérsias de sua vida pessoal, o que é notável.</p>



<p>O legado de Thelema persiste porque ele ressoa com a nossa época. Sua adaptabilidade (é tipo um &#8220;Android&#8221; do esoterismo, você pode instalar diferentes &#8220;apps&#8221;), sua promessa de empoderamento individual e sua abordagem psicológica da magia tornam Thelema atraente para a mente pós-moderna. As ordens que ele liderou, a A∴A∴ e a O.T.O., continuam ativas no mundo todo, inclusive no Brasil. Oi! Estamos aqui!</p>



<p>No fim das contas, o que realmente dura não é a figura caricata da &#8220;Besta 666&#8221;. Isso sempre foi mais marketing do que filosofia. O que dura é a questão central que ele colocou na mesa: a busca pela Verdadeira Vontade.</p>



<p>A pergunta que Thelema nos deixa não é se Crowley era o anticristo. A pergunta de verdade é: é possível que a gente viva nossa Vontade mais autêntica com responsabilidade e amor? É possível sermos reis e rainhas de nós mesmos sem nos tornarmos tiranos egoístas e indiferentes ao sofrimento dos outros?</p>



<p>Essa questão, gente, continua aberta. E a resposta não está num livro ditado no Cairo há mais de cem anos. Está nas escolhas que cada um de nós faz, todos os dias.</p>



<p>A tensão entre as ideias geniais de Crowley e seu comportamento deplorável nos joga no meio de um debate filosófico quentíssimo: dá pra separar a obra do autor? A resposta curta é: sim, e é a única forma inteligente de lidar com isso. Vamos usar três ferramentas conceituais para entender como.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Roland Barthes e a &#8220;Morte do Autor&#8221;</strong></h3>



<p>Começamos com o crítico francês Roland Barthes, que disse que, para entender um texto, a gente precisa &#8220;matar o autor&#8221;. Calma, não é pra sair caçando escritores. A ideia é que, uma vez que uma obra é publicada, ela não pertence mais a quem a escreveu. Ela pertence ao leitor.</p>



<p>Tentar entender um livro fuçando a biografia do autor é, para Barthes, uma perda de tempo. O que importa é o que o texto provoca <em>em você</em>. O sistema da Árvore da Vida que Crowley organizou funciona ou não funciona como um mapa para a mente, independentemente do fato de ele ser um narcisista. As técnicas de meditação que ele compilou são eficazes ou não, independentemente de ele ter sido um péssimo marido. A obra ganha vida própria. Isso não é passar pano para as falhas dele; é dar autonomia à ideia.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Michel Foucault e a &#8220;Função-Autor&#8221;</strong></h3>



<p>Já Michel Foucault nos convida a pensar no nome &#8220;Aleister Crowley&#8221; não como uma pessoa, mas como uma etiqueta, uma &#8220;hashtag&#8221; (#Crowley) que organiza um monte de textos, ideias e práticas. O Foucault chamava isso de “função-autor”, o que nos ajuda a agrupar o material.</p>



<p>Podemos, ao mesmo tempo, estudar o homem Crowley, com todas as suas falhas, como um objeto de análise histórica, de estudo biográfico.. E, em paralelo, podemos usar as ferramentas do &#8220;arquivo Thelêmico&#8221; que ele organizou, adaptando, reinterpretando e até mesmo criticando o material original. Uma coisa não anula a outra. Foucault também diria que Crowley foi um &#8220;fundador de discursividade&#8221;: ele não só escreveu suas obras, mas criou um campo inteiro (Thelema) onde outras pessoas podem continuar a criar e debater. A tradição está viva e pertence aos praticantes, não ao fundador morto.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A Escola do New Criticism e o Foco no Texto</strong></h3>



<p>Essa escola de crítica literária, popular na metade do século XX, era ainda mais radical. Para eles, a única coisa que importa é o texto, e ponto final. A biografia, as intenções do autor, o contexto histórico? Tudo isso é irrelevante, são &#8220;falácias&#8221; que nos distraem.</p>



<p>A analogia aqui é boa: pense numa obra como o motor de um carro. Para saber se o motor é bom, eu não preciso saber se o engenheiro que o projetou era um santo ou um canalha. Eu analiso o motor: sua performance, seu design, sua eficiência. Da mesma forma, um sistema filosófico ou mágico deve ser julgado por seus próprios méritos: sua coerência, sua profundidade, sua utilidade. Confundir o criador com a criação é um erro de categoria.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Síntese Pragmática</strong></h3>



<p>Essas três ideias nos dão uma saída sofisticada para o dilema. Podemos – e devemos – fazer as duas coisas:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li><strong>Criticar o homem:</strong> Reconhecer, documentar e condenar as falhas éticas de Crowley. Sua crueldade, seu egoísmo, sua negligência. Isso é honestidade histórica.</li>



<li><strong>Analisar a obra:</strong> Estudar, e até usar, as contribuições intelectuais que ele deixou. Sua filosofia, seus métodos, seus sistemas simbólicos. Isso é rigor intelectual.</li>
</ul>



<p>Essa distinção é crucial. Ela permite que um thelemita de hoje confronte o legado sombrio do fundador sem ter que jogar fora toda a tradição. Permite que um acadêmico estude Crowley seriamente sem ser acusado de endossar seu comportamento. Permite que qualquer um de nós aprenda algo com um sistema complexo sem ter que venerar uma figura moralmente falha.</p>



<p>No fim, o legado de Crowley é exatamente como ele: complexo, provocador e cheio de contradições. E talvez seja exatamente por isso que ele continua tão fascinante. Thelema não nos dá respostas fáceis. Thelema nos deixa com perguntas difíceis. E isso, pessoal, é a marca de um pensador que vale a pena levar a sério, mesmo quando o homem por trás do pensamento era, muitas vezes, difícil de engolir.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Conclusão</h2>



<p>Uma coisa que volta e meia se pergunta é: se Crowley foi assim alguém tão ruim, por que diabos alguém seria thelemita? Por que seguir um sujeito misógino, egocêntrico, manipulador e tão notavelmente tóxico.</p>



<p>Primeiro, porque reduzir Crowley apenas a seus aspectos negativos é simplificar a coisa de forma meio infantil. No fim das contas, ele apenas se junta a um clube que inclui nomes como, por exemplo, Albert Einstein. Se a sua visão de Einstein é a do tiozinho com a língua para fora, dê uma lida nos diários dele de sua viagem ao Brasil que essa visão vai mudar rapidinho. Ou pesquise como ele apagou a contribuição da própria esposa no trabalho dele. Sim, ele era outro grandíssimo babaca.</p>



<p>Mas, e aí? Vamos jogar fora a teoria da relatividade também? Ou a da gravitação (porque Isaac Newton era outro). Vamos queimar os quadros de Pablo Picasso, deixar de ouvir Richard Wagner, queimar os livros de Charles Dickens e os filmes de Alfred Hitchcock? E não esqueça de jogar fora o seu iPhone porque o Steve Jobs não era nenhum santo. Ah, sim, por falar em “santos”, pare de colocar frases de Mahatma Gandhi no seu Instagram. Todos eles (e muitos outros) foram seres humanos que apresentaram características de personalidade no mínimo execráveis. Mas cujos gênios inegavelmente trouxeram contribuições relevantes à humanidade como um todo.</p>



<p>Crowley era um deles. Um ser humano complexo, contraditório, falho. E também um gênio, visionário, que mudou e moldou muito do que entendemos hoje do mundo. Alguém que reescreveu os parâmetros da magia e da sociedade para uma realidade muito mais adaptada à nossa atual do que àquela em que ele vivia. Mas que, por outro lado, parece que não soube viver por esses mesmos parâmetros que havia estabelecido.</p>



<p>Essa é a importância de separar a obra do autor: não jogar fora o bebê com a água do banho.</p>



<p>É importante termos uma visão crítica dos seres humanos por detrás das obras, lembrando que eles são exatamente isto: seres humanos &#8211; com falhas e acertos -, não figuras a serem cultuadas e divinizadas.</p>



<p>Ser um thelemita é ser alguém que está em busca de si mesmo, de encontrar e realizar seu propósito de vida pelo entendimento de si e da forma como se relaciona com o mundo. É buscar um objetivo mais elevado do que a mesquinharia de nosso dia a dia, respeitando a si e ao outro. Ser um thelemita não significa imitar Crowley ou sequer endossar seus comportamentos tóxicos. Você não precisa gostar do ser humano Edward Alexander Crowley para admirar a obra do Profeta Aleister Crowley.</p>



<p>Fora isso, é importante lembrar que Thelema hoje não é igual à Thelema de 100 anos atrás. É um pensamento, uma religiosidade que evoluiu, adaptou-se, encontrou novos caminhos através do trabalho de outros autores que vieram depois de Crowley.</p>



<p>Thelemitas não são seguidores. Thelemitas encontram seu próprio caminho no mundo. E é por isso que Thelema não pertence a Crowley. Nunca pertenceu. Thelema pertence a você.</p>



<p>E você não precisa ser babaca para ser thelemita.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Fontes de Referência</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>Perdurabo, Revised and Expanded Edition, 2002 &#8211; Richard Kaczynski</li>



<li>Manon Hedenborg White: Proximal authority the changing role of Leah Hirsig in Aleister Crowley’s Thelema, 1930. Aries – Journal for the Study of Western Esotericism 21 (2021), 69-93</li>



<li>Varieties of Magical Experience: Aleister Crowley&#8217;s Views on Occult Practice, 2011 &#8211; Marco Pasi</li>



<li>Aleister Crowley, um mago na tradução, 2017 &#8211; Jornal Opção (Goiás)</li>



<li>Magia(k) em Teoria e Prática, de Aleister Crowley: tradução direta do original britânico, organização, introdução, estudo preliminar, edição e notas, 2017 &#8211; Luana Camila de Souza Lima (UEAM, AM)</li>



<li>Thelema em Aleister Crowley: Magick e Ciência em Religião, 2018 &#8211; Humberto Miranda de Campos (UFJF, MG)</li>



<li>Aleister Crowley: The Biography, 2011 &#8211; Tobias Churton</li>



<li>The Cambridge Handbook of Western Mysticism and Esotericism, 2016 &#8211; Woulter Hanegraaf</li>



<li>The Magicians of the Golden Dawn: A documentary history of a magical order, 1972 &#8211; Ellic Howe</li>



<li>Aleister Crowley: Magick, rock and roll and the wickedest man in the world, 2014 &#8211; Gary Lachman</li>



<li>A History of the Plymouth Brethren, 1901 &#8211; Willian Neatby</li>



<li>Magia Sexual de Aleister Crowley: Interfaces entre a ars erotica e a scientia sexualis, 2016 &#8211; Emmanuel Ramalho &#8211; Revista Último Andar 28</li>



<li>A Morte do Autor, 1967 &#8211; Roland Barthes</li>



<li>Arqueologia do Conhecimento, 2002 &#8211; Michel Foucault</li>
</ul>



<p></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Babalon e a Nova Prostituta Sagrada</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/babalon-e-a-nova-prostituta-sagrada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Aug 2025 14:52:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminino]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
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					<description><![CDATA[Resumo Este artigo examina Babalon, uma das figuras mais intrigantes (e controversas) do sistema thelêmico de Aleister Crowley. Longe de ser apenas mais uma deusa esotérica, Babalon representa um fascinante paradoxo: ela é simultaneamente a &#8220;Grande Mãe&#8221; acolhedora e a &#8220;Grande Prostituta&#8221; transgressora. Este estudo explora como essa figura aparentemente contraditória funciona como um poderoso... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/babalon-e-a-nova-prostituta-sagrada/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading">Resumo</h2>



<p>Este artigo examina Babalon, uma das figuras mais intrigantes (e controversas) do sistema thelêmico de Aleister Crowley. Longe de ser apenas mais uma deusa esotérica, Babalon representa um fascinante paradoxo: ela é simultaneamente a &#8220;Grande Mãe&#8221; acolhedora e a &#8220;Grande Prostituta&#8221; transgressora. Este estudo explora como essa figura aparentemente contraditória funciona como um poderoso símbolo de transformação espiritual, desde suas origens na rebelião adolescente de Crowley contra sua mãe religiosa até suas ressignificações contemporâneas por comunidades feministas e LGBTQIA+ que descobriram nela uma aliada inesperada na luta contra o patriarcado.</p>



<h2 class="wp-block-heading">As Origens: De vilã bíblica a heroína thelêmica</h2>



<h3 class="wp-block-heading">A Grande Transformação Simbólica</h3>



<p>Para entender Babalon, precisamos primeiro conhecer sua &#8220;versão original&#8221; &#8211; a Prostituta da Babilônia do Apocalipse. No texto bíblico, ela aparece montada numa besta de sete cabeças, vestida de púrpura e escarlate, segurando uma taça dourada cheia de&#8230; bem, coisas que fariam até um marinheiro corar. Tradicionalmente, essa figura representava tudo o que estava errado com o mundo: corrupção, luxúria, idolatria.</p>



<p>Crowley olhou para isso e pensou: &#8220;Espera aí, por que ela tem que ser a vilã? E se ela for na verdade a grande heroína da história?&#8221; Foi uma inversão brilhante. Em vez de destruir santos, Babalon os liberta. Em vez de representar corrupção, ela representa a coragem de transcender limitações morais artificiais. A Besta que ela monta não é mais sua inimiga, mas seu parceiro de dança cósmico.</p>



<p>É como se Crowley tivesse reescrito Star Wars fazendo Darth Vader ser o verdadeiro herói que estava tentando libertar a galáxia do puritanismo dos Jedi (ok, reconheço não ser o autor dessa ideia). Uma mudança de perspectiva completa que transforma todo o significado da história.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O Contexto Psicológico: Terapia Através da Teologia</h3>



<p>A história pessoal de Crowley ajuda muito a entender essa transformação. Quando ele tinha 11 anos, seu pai morreu, deixando-o sozinho com uma mãe que se tornou ainda mais rígida e controladora. Emily Crowley não era exatamente o tipo de mãe que você gostaria de levar para conhecer seus amigos &#8211; especialmente se esses amigos fossem demônios.</p>



<p>Imagine a seguinte cena: você é um adolescente questionador em uma família vitoriana ultra-religiosa. Sua mãe, furiosa com suas perguntas &#8220;impertinentes&#8221; sobre a Bíblia e comportamentos pouco convencionais, aponta o dedo para você e declara: &#8220;Você é a Besta do Apocalipse!&#8221; A maioria das crianças teria corrido para o quarto chorando. Crowley correu para o quarto pesquisando.</p>



<p>Claro, um historiador estaria tendo convulsões com essa visão um tanto quanto colorida da juventude de Crowley. Mas serve para ilustrar como é que a coisa se passava na cabeça dele.</p>



<p>Porque, de um ponto de vista psocológico, foi dos traumas de Crowley por ter nascido em uma comunidade um tanto quanto fanática religiosa e, ainda por cima, sendo criado por uma mãe um tanto cruel que muito do que viria a, anos mais tarde, ser Babalon, nasceu &#8211; não de uma revelação mística pura, mas de um dos casos mais épicos de &#8220;eu vou mostrar para vocês&#8221; da história do ocultismo. Crowley pegou a Prostituta da Babilônia, o símbolo máximo da depravação na tradição cristã, e disse: &#8220;Esta é minha deusa&#8221;. Foi como transformar o maior insulto de sua mãe em seu maior poder mágico.</p>



<h3 class="wp-block-heading">As Visões Enochianas: Quando o Simbolismo Ganha Vida</h3>



<p>A revelação completa de Babalon não veio de uma única experiência, mas através de uma série de visões obtidas usando o sistema mágico Enochiano &#8211; uma espécie de &#8220;telefone divino&#8221; desenvolvido no século XVI pelo Dr. John Dee (que também era matemático e espião da rainha Elizabeth I, porque aparentemente naquela época você não podia ter apenas um emprego). E nesse trabalho já se antevê a figura de Babalon, mas ainda como a Prostituta da Babilônia bíblica, não ainda como a deusa que hoje conhecemos.</p>



<p>Claro que o sistema de Dee não tinha nada a ver com Thelema, na verdade, refletia toda uma cosmovisão cristã (até porque na época e lugar, não tinha outra). Crowley pegou esse sistema, deu uma banana para a cosmovisão cristã e enfiou a thelêmica nele no lugar. Ao invés de usár o Enochiano para saber qual a opinião de um bando de anjos sobre como eram as coisas, usou para explorar os 30 Æthyrs ou &#8220;paraísos&#8221;, como se estivesse subindo níveis em um videogame espiritual, em um processo de iluminação contínuo e progressivo. A grande diferença é que em vez de coletar moedas de ouro, ele estava coletando insights sobre a natureza da realidade e encontrando deusas transformadoras.</p>



<p>A revelação de Babalon manifestou-se progressivamente através dos Æthyrs. No 14º Æthyr (LIK), foi revelada a grafia precisa &#8220;Babalon&#8221; (distinguindo-a da &#8220;Babilônia&#8221; bíblica). No 12º Æthyr (ZOM), Crowley visualiza-a como Guardiã do Abismo, &#8220;mulher&#8221; que é tanto portal para iluminação quanto Mãe das Abominações. A visão detalha o &#8220;mistério de suas prostituições&#8221;, onde ela &#8220;cedeu a si mesma a tudo o que vive&#8221;, tornando-se &#8220;Senhora de Todos&#8221; através de sua &#8220;servidão a cada um&#8221;.</p>



<p>No 9º Æthyr (ZIM), surge a Filha de Babalon, descrita como Virgem do Eterno, representando nova consciência nascida da dissolução do ego. Esta progressão transforma a travessia do Abismo de experiência singular em ato de cosmogonia, onde o adepto se torna participante ativo unindo-se à deusa para manifestar novo universo.</p>



<p>Imaginem receber essa visão: uma deusa que abraça literalmente tudo &#8211; o bom, o mau, o feio, o bonito, o santo, o profano. Ela não discrimina, não julga, simplesmente aceita. Para alguém criado em uma religião obcecada com pureza e condenação, isso deve ter sido como encontrar água no deserto. E esta se tornou a questão da Grande Prostituta: não uma figura de depravação, de sexo selvagem em roupa de couro, mas do mais puro, completo e absoluto Amor, um Amor que transforma o ego de quem a alcança e a ela se entrega na mesma plenitude em um novo ser, um Bebê cósmico que renasce em seu útero.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Questão da &#8220;Prostituta Sagrada&#8221;: Desmascarando um mito antigo</h2>



<h3 class="wp-block-heading">O Problema com as Fontes Históricas</h3>



<p>Antes de mergulharmos mais fundo na teologia de Babalon, precisamos falar sobre um elefante na sala: a ideia da &#8220;prostituta sagrada&#8221; na antiguidade. Por muito tempo, acreditamos que civilizações antigas tinham mulheres que se prostituíam nos templos como parte de rituais religiosos. Era uma história fascinante que aparecia em todos os livros sobre religião antiga.</p>



<p>Há apenas um problema: provavelmente nunca existiu.</p>



<p>Pesquisadores como Stephanie Budin e Julia Assante passaram décadas examinando evidências e chegaram a uma conclusão surpreendente: a &#8220;prostituição sagrada&#8221; é basicamente um mito urbano antigo que começou com Heródoto (que, convenhamos, às vezes era mais interessado em uma boa história do que em fatos verificados) e foi sendo perpetuado por 2.000 anos de má interpretação e wishful thinking.</p>



<p>É como aquela história que todo mundo &#8220;conhece&#8221; sobre como os vikings usavam capacetes com chifres &#8211; todo mundo acredita, aparece em todos os filmes, mas na verdade não há evidência arqueológica de que isso tenha acontecido (em tempo: capacetes com chifres vieram de óperas do século XIX, não de campos de batalha medievais).</p>



<h3 class="wp-block-heading">O Que Realmente Existia: O <em>Hieros Gamos</em></h3>



<p>O que realmente existia na antiguidade era algo chamado <em>hieros gamos</em> &#8211; &#8220;casamento sagrado&#8221;. Mas isso era bem diferente da prostituição. Imagine mais como uma peça teatral cósmica onde um sacerdote-rei e uma sacerdotisa-rainha representavam a união de divindades como Inanna e Dumuzid.</p>



<p>O objetivo não era sexual, mas simbólico: garantir que a terra fosse fértil, as colheitas abundantes e a comunidade próspera. Era como um ritual de boa sorte em escala civilizacional. Nada de dinheiro trocando de mãos, nada de prostituição &#8211; apenas uma encenação sagrada para manter o cosmos funcionando adequadamente. Mas, principalmente, nada da ideia da submissão de uma mulher a um homem para que este tivesse algum tipo de experiência divina.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Babalon: Uma &#8220;Prostituta&#8221; Diferente</h3>



<p>Então, se a prostituição sagrada histórica provavelmente não existiu, o que faz de Babalon uma &#8220;prostituta sagrada&#8221;? A resposta é que ela redefine completamente o conceito.</p>



<p>Babalon é &#8220;prostituta&#8221; não porque entrega seu corpo a um barbudo, mas porque se entrega completamente a tudo que existe. Ela não discrimina &#8211; aceita santos e pecadores, heróis e vilões, homens e mulheres, o sublime e o ridículo. É uma receptividade universal sem julgamentos.</p>



<p>Mas &#8211; e este é um &#8220;mas&#8221; importante &#8211; ela cobra um preço muito específico por essa união: seu sangue. Não sangue literal (embora alguns praticantes tenham interpretado assim), mas o &#8220;sangue&#8221; simbólico que representa seu ego, sua identidade, tudo que você pensa que é.</p>



<p>É como se ela dissesse: &#8220;Quer minha aceitação total? Quer experimentar o amor incondicional? Perfeito. Mas você vai ter que deixar para trás tudo que pensa que sabe sobre si mesmo.&#8221; Não é exatamente uma transação comercial tradicional.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Jornada do Adepto: Como se tornar Ninguém para se tornar Tudo</h2>



<h3 class="wp-block-heading">O Cálice Flamejante: Mais que uma Metáfora</h3>



<p>O símbolo central de Babalon é seu cálice dourado &#8211; não uma simples taça, mas um verdadeiro Graal que ela ergue em chamas de amor e morte. Este cálice representa uma das ideias mais radicais em todo o esoterismo: que a verdadeira transformação espiritual requer a completa dissolução do ego.</p>



<p>Pense nisso como um alquimia psicológica extrema. Na alquimia tradicional, você pega chumbo (matéria bruta) e o transforma em ouro através de vários processos, incluindo a <em>nigredo</em> &#8211; literalmente &#8220;enegrecimento&#8221; ou putrefação. O Cálice de Babalon funciona da mesma forma: você &#8220;despeja&#8221; seu ego nele, ele passa pela dissolução completa. Não é que o ego deixe de existir, mas o que emerge é algo completamente transformado. </p>



<p>A parte mais interessante? Babalon não força ninguém a sacrificar o ego seu Cálice. Ela simplesmente existe no Abismo &#8211; aquele vazio existencial que separa a consciência comum da iluminação &#8211; oferecendo a opção. É como se ela dissesse: &#8220;Aqui está o caminho. Se quiser atravessar, você sabe o preço.&#8221;</p>



<h3 class="wp-block-heading">O Bebê do Abismo: Renascimento Cósmico</h3>



<p>O que acontece depois que você &#8220;morre&#8221; no Cálice de Babalon é onde as coisas ficam realmente interessantes. Você não simplesmente desaparece &#8211; você renasce como o &#8220;Bebê do Abismo.&#8221; É como respawnar em um videogame, exceto que agora você tem um avatar completamente diferente.</p>



<p>Este &#8220;bebê&#8221; não é uma criança literal, mas um novo tipo de consciência que transcendeu a dualidade e a identidade individual. É você, mas não é você. É como se a pessoa que você era fosse um personagem em uma peça, e agora você descobriu que é na verdade o ator que estava interpretando o personagem o tempo todo.</p>



<p>A metáfora do &#8220;útero&#8221; de Babalon é perfeita aqui. Assim como um bebê precisa do útero materno para se desenvolver, esta nova consciência precisa do &#8220;útero&#8221; da deusa para crescer até estar pronta para emergir completamente transformada.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A Cidade das Pirâmides: Destino Final dos Transformados</h3>



<p>O destino final desta jornada é a &#8220;Cidade das Pirâmides&#8221; &#8211; que soa como algo de um filme de fantasia, mas na verdade representa um estado de consciência onde todos os adeptos que passaram por essa transformação residem coletivamente.</p>



<p>As pirâmides são símbolos perfeitos aqui porque representam tanto estabilidade (essas estruturas duram milênios) quanto transformação (elas eram, afinal, construídas para facilitar a jornada dos mortos para uma nova vida). A &#8220;cidade&#8221; sugere que a iluminação não é uma experiência solitária, mas algo que conecta você a uma comunidade de consciências transformadas. Um grupo de homens, mulheres, pessoas não binárias, seja o que for, que passou a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva.</p>



<p>É como se depois de passar pelo processo mais individual e solitário imaginável &#8211; a dissolução completa do seu ego &#8211; você descobrisse que não está sozinho, mas faz parte de algo muito maior.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Babalon no Tarô: Um mapa visual da transformação</h2>



<h3 class="wp-block-heading">A Sequência Iniciática nas Cartas</h3>



<p>Crowley e Lady Frieda Harris criaram o Tarô de Thoth não apenas como um baralho divinatório, mas como um mapa visual completo da jornada espiritual thelêmica. Quatro cartas específicas contam a história da aproximação e união com Babalon de forma quase cinematográfica.</p>



<p><strong>A Alta Sacerdotisa (II)</strong>: Nossa história começa aqui, com a necessidade de olhar para dentro. É como o primeiro ato de um filme onde o protagonista percebe que há algo mais na vida além da rotina diária. A Sacerdotisa representa aquele momento de &#8220;espera, há algo que não estou vendo aqui?&#8221;</p>



<p><strong>A Imperatriz (III)</strong>: Esta é a &#8220;porta&#8221; &#8211; literalmente, já que a carta corresponde à letra hebraica Daleth. É quando você começa a entender que existe um princípio criativo feminino poderoso no universo, algo bem diferente das imagens limitadas da feminilidade que a sociedade nos oferece.</p>



<p><strong>O Carro (VII)</strong>: Aqui as coisas ficam sérias. Esta carta representa o momento em que você desenvolve disciplina e vontade suficientes para enfrentar o Abismo. Note que o auriga no Tarô de Thoth (que é uma representação de Hórus, a divindade representativa do novo Eon) não tem rédeas &#8211; ele controla as esfinges opostas apenas com a força de sua Vontade. </p>



<p><strong>Luxúria (XI)</strong>: A grande final. Esta é Babalon em toda sua glória, montando a Besta e segurando o cálice flamejante. Mas preste atenção na expressão corporal dela &#8211; não é lasciva ou maliciosa. É radiante, alegre, quase brincalhona. Ela não está forçando ninguém; está simplesmente oferecendo a transformação final com um sorriso.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A Inversão das Expectativas</h3>



<p>O que é brilhante nesta sequência é como ela inverte completamente nossas expectativas sobre poder e feminilidade. A jornada começa com introspecção passiva (Sacerdotisa) e termina com uma figura feminina ativa e poderosa (Luxúria/Babalon) que oferece a transformação mais radical possível.</p>



<p>E note que em nenhum momento Babalon é apresentada como vítima ou como servindo aos propósitos de outra pessoa. Ela é claramente a figura no comando, aquela que detém as chaves para a transcendência. É uma inversão completa do arquétipo da &#8220;donzela em perigo&#8221; que domina tantas tradições espirituais.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Era Moderna: Quando Babalon encontra o Século XX</h2>



<h3 class="wp-block-heading">Jack Parsons e o Perigo do Literalismo</h3>



<p>A história de Babalon no século XX tem alguns capítulos fascinantes, incluindo um que serve como excelente exemplo de &#8220;como não fazer magia&#8221;. Jack Parsons, cientista de foguetes e praticante thelêmico, decidiu que queria literalmente invocar Babalon para a Terra física. Não como experiência interior, não como trabalho psicológico, mas como uma mulher real que seria a encarnação da deusa.</p>



<p>O resultado foi a &#8220;Operação de Babalon&#8221; &#8211; um ritual elaborado que incluiu música de Prokofiev, magia Enochiana e uma viagem ao deserto de Mojave. Parsons acreditava ter sucesso quando conheceu Marjorie Cameron, uma artista que ele imediatamente declarou ser a manifestação de Babalon.</p>



<p>O problema? Cameron não sabia de nada disso. Ela foi essencialmente tratada como um &#8220;elemento&#8221; a ser invocado, não como uma pessoa com agência própria. Parsons transformou um arquétipo de empoderamento feminino em um objeto de fantasia masculina. Foi como tentar usar uma Ferrari como carrinho de mão &#8211; tecnicamente você pode tentar, mas vai perder completamente o ponto.</p>



<p>A falha de Parsons é instrutiva porque mostra o que acontece quando você perde de vista a natureza simbólica e psicológica dos arquétipos espirituais. Babalon não é uma mulher para ser encontrada &#8220;lá fora&#8221; &#8211; ela é uma força transformadora para ser encontrada dentro da própria consciência.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A Revolução Feminista: Babalon Se Liberta de Seus Criadores</h3>



<p>Aqui é onde a história fica realmente interessante. A partir dos anos 1990, algo notável aconteceu: mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIA+ começaram a reivindicar Babalon para si mesmas, transformando-a de uma fantasia masculina em um símbolo genuíno de empoderamento.</p>



<p>A pesquisadora Manon Hedenborg White documentou esta transformação em seu trabalho etnográfico. O que ela descobriu foi fascinante: praticantes femininas estavam ativamente reescrevendo o significado de Babalon, desafiando interpretações históricas e criando novas formas de se relacionar com o arquétipo.</p>



<p>O &#8220;ofício&#8221; da Mulher Escarlate &#8211; que na visão de Crowley era um cargo nomeado por uma figura masculina &#8211; tornou-se algo &#8220;auto-nomeado.&#8221; Mulheres não esperavam mais que algum homem as declarasse &#8220;Mulher Escarlate&#8221;; elas simplesmente assumiam o título baseadas em sua própria experiência e autoridade.</p>



<p>É como se Babalon tivesse finalmente escapado das limitações de seus criadores originais e encontrado sua voz autêntica. A deusa que sempre foi sobre transcender limitações finalmente transcendeu as limitações de sua própria tradição.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Babalon e a Comunidade Queer: Transcendendo Binários</h3>



<p>Para a comunidade LGBTQIA+, Babalon oferece algo especialmente poderoso: um arquétipo divino que não se encaixa em categorias binárias tradicionais. Ela não é nem &#8220;donzela&#8221; nem &#8220;puta&#8221; no sentido convencional &#8211; ela transcende completamente essa dualidade artificial.</p>



<p>A jornada iniciática de dissolução no Cálice de Babalon ressoa fortemente com experiências de transição e fluidez de gênero. A ideia de &#8220;morrer&#8221; para uma identidade antiga e renascer como algo novo é uma metáfora poderosa para qualquer pessoa que tenha questionado ou transcendido as categorias de gênero que lhe foram atribuídas no nascimento.</p>



<p>Além disso, a receptividade universal de Babalon &#8211; sua aceitação de tudo que existe sem julgamento &#8211; oferece uma alternativa refrescante às tradições religiosas que historicamente marginalizaram pessoas queer. Aqui está uma deusa que literalmente abraça tudo, incluindo aspectos da sexualidade e identidade que outras tradições consideram &#8220;abominações.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading">As Contradições Produtivas de Babalon</h2>



<h3 class="wp-block-heading">O Paradoxo do Poder Feminino</h3>



<p>Uma das tensões mais interessantes em Babalon é como ela simultaneamente serve e domina. Na narrativa thelêmica tradicional, seu papel parece ser facilitar a jornada do adepto (implicitamente masculino). Mas olhando mais de perto, ela é claramente quem tem o poder na relação.</p>



<p>Pense nisso: ela é quem estabelece os termos da transformação. Ela é quem possui a chave para a transcendência. O adepto pode escolher se aproximar dela, mas não pode ditar as condições da união. É como se ela fosse uma professora de arte marciais extremamente poderosa &#8211; ela vai te ensinar, mas apenas se você estiver disposto a seguir completamente as regras dela.</p>



<p>Esta dinâmica inverte completamente as expectativas tradicionais sobre poder e gênero. Em vez do típico &#8220;herói masculino salva donzela passiva,&#8221; temos &#8220;figura feminina poderosa oferece transformação ao ego masculino disposto a se submeter completamente.&#8221;</p>



<h3 class="wp-block-heading">Libertação Através da Rendição</h3>



<p>Outro paradoxo fascinante é como Babalon oferece libertação através da rendição total. Ela não liberta você dando-lhe mais poder sobre sua vida; ela o liberta destruindo completamente sua identificação com qualquer vida particular.</p>



<p>É como se ela dissesse: &#8220;Quer ser livre? Perfeito. Primeiro você vai ter que desistir de tudo que pensa que quer libertar.&#8221; É uma forma muito radical de terapia &#8211; em vez de fortalecer o ego, ela oferece transcendê-lo completamente.</p>



<p>Esta abordagem ressoa com tradições místicas ao redor do mundo que enfatizam a rendição do ego como caminho para a iluminação. Mas Babalon adiciona uma dimensão única: ela torna este processo sensual, celebratório, até mesmo divertido. Não é uma renúncia sombria, mas uma festa cósmica da transformação.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Conclusão: O Fogo Escarlate continua queimando</h2>



<p>Em sua jornada de transformação, Babalon apresenta uma das mais belas e importantes características de Thelema: a capacidade de se auto-analisar, se transformar e de readequar a um novo olhar sobre o mundo. E olha como ela mostra que esta jornada se faz na pessoa, na divindade ou mesmo no pensamento thelêmico como um todo!</p>



<p>Babalon começou como a solução criativa de um adolescente rebelde para um problema familiar complicado. Aleister Crowley transformou o maior insulto de sua mãe puritana em sua maior fonte de poder mágico, criando uma deusa que desafiava tudo que sua educação religiosa representava.</p>



<p>Mas arquétipos poderosos têm vida própria. Babalon cresceu além das intenções de seu criador, tornou-se maior que suas origens psicológicas, transcendeu até mesmo as limitações de sua própria tradição. Ela provou que símbolos genuinamente transformadores não ficam presos às circunstâncias de sua criação.</p>



<p>Hoje, Babalon continua sendo uma força subversiva &#8211; não mais apenas contra o cristianismo vitoriano, mas contra qualquer sistema que tente limitar a expressão autêntica da sexualidade, espiritualidade ou identidade. Ela se tornou uma aliada para qualquer pessoa disposta a questionar autoridades artificiais e abraçar sua própria transformação radical.</p>



<p>O Fogo Escarlate de Babalon queima mais brilhante que nunca, iluminando caminhos para tipos de liberdade que nem mesmo Crowley poderia ter imaginado. E talvez isso seja exatamente o que toda boa deusa deveria fazer &#8211; superar constantemente as expectativas de seus devotos e continuar oferecendo possibilidades de transcendência que ainda não conseguimos nem sonhar.</p>



<p>Afinal, que tipo de deusa seria se pudéssemos controlá-la completamente? Babalon permanece perigosa, impredizível e transformadora &#8211; exatamente como deveria ser. O Abismo ainda está lá, o Cálice ainda está flamejante, e o convite para a dissolução e renascimento continua aberto para qualquer um corajoso o suficiente para aceitar.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading">Bibliografia</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>BATISTA, K.F. O Debate Historiográfico Acerca da Ideia de &#8220;Prostituição Sagrada&#8221; no Antigo Crescente Fértil. <em>Revista Vernáculo</em>, nº 28. UFPA, 2011.</li>



<li>CROWLEY, A. <em>O Livro da Lei</em>. Oásis Quetzalcoatl, 2025.</li>



<li>CROWLEY, A. <em>A Visão e a Voz</em>. Red Wheel/Weiser, 1999.</li>



<li>CROWLEY, A. <em>O Livro de Thoth</em>. Red Wheel, 1981.</li>



<li>MONTALVÃO, S.A. O Mito Da Prostituição Na Antiga Mesopotâmia: uma dissociação de seus respectivos &#8220;papéis&#8221; da sexualização. <em>Caminhos</em>, v. 18, nº 2. PUC-GO, 2020.</li>



<li>PARSONS, J.W. <em>Liber 49</em>. Thelema, 1949.</li>



<li>QUALLS-CORBETT, N. <em>A Prostituta Sagrada: a Face Eterna do Feminino</em>. Paulus Editora, 1997.</li>



<li>WHITE, M.H. <em>O Sangue Eloquente: A deusa Babalon e a construção das feminilidades no esoterismo ocidental</em>. Academic, 2019.</li>
</ul>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<item>
		<title>Gnósticos: Os Heréticos da &#8220;Santa Madre Igreja&#8221;</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/gnosticos-os-hereticos-da-santa-madre-igreja/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Soror Shaitara]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 25 Jan 2025 15:48:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Gnosticismo]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
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					<description><![CDATA[Pois todo aquele que não admite que Jesus nos apareceu em carne e osso é um Anticristo, [&#8230;] é servo do demônio, [&#8230;] é o primogênito de Satanás. São Policarpo Introdução Heresia, segundo os modernos conceitos da língua portuguesa, é uma doutrina contrária aos dogmas estabelecidos pela Igreja. Em tempos mais remotos a palavra heresia,... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/gnosticos-os-hereticos-da-santa-madre-igreja/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right">Pois todo aquele que não admite que Jesus nos apareceu em carne e osso é um Anticristo, [&#8230;] é servo do demônio, [&#8230;] é o primogênito de Satanás.</p>



<p class="has-text-align-right">São Policarpo</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Introdução</strong></h2>



<p>Heresia, segundo os modernos conceitos da língua portuguesa, é uma doutrina contrária aos dogmas estabelecidos pela Igreja. Em tempos mais remotos a palavra heresia, longe de apontar uma aberração religiosa, como gostaria de nos fazer parecer aquela que a exemplo da humildade que promulga se autoestimula Madre e Santa, apontava &#8220;um ato de escolha&#8221;, tendo evoluído este significado através dos tempos para &#8220;escolha de princípios filosóficos&#8221; e mais tarde para &#8220;uma escola ou seita&#8221;. Foi somente no séc. IV e.v., quando a formulação doutrinária da Igreja Católica Apostólica Romana passa a gerar sérias controvérsias em seu seio que o termo adquire um sentido pejorativo, passando a palavra heresia a designar &#8220;uma doutrina mantida dentro da Igreja, mas perturbadora de sua unidade&#8221;, uma verdadeira ofensa contra os ditames divinos, uma ameaça ao reino de Jesus, o qual, aliás, já havia dito que seu reino não era deste mundo.</p>



<p>Bem, talvez o dele, mas não o do clero como podemos vivenciar até mesmo nos nossos dias&#8230; A grande ameaça no séc. II e.v. ao reino da Igreja era chamada de gnosticismo e seus adeptos, os gnósticos, se diziam detentores de conhecimentos sublimes sobre a natureza e os atributos divinos. Conhecimentos estes que apenas eram revelados aos perfeitos e sempre através de um sistema iniciatório. Considerados pelos ortodoxos da Igreja como loucos e perigosos representantes do demônio, os gnósticos marcaram profundamente a história religiosa humana e, ironicamente, chegam ao nosso conhecimento através do relato de seus algozes, os quais, na tentativa de acabar com o poderoso magnetismo por eles exercido sobre a massa de fiéis, fazem relatos de suas práticas e crenças de forma a contrapor-lhes a &#8220;lógica&#8221; e a &#8220;sensatez&#8221; da ortodoxia. Desta forma, agradecemos aqui ao trabalho incansável de Ignácio de Antióquia, Irineu de Lion, Hipólito, Clemente de Alexandria e tantos outros bispos da Madre Igreja que na tentativa de expurgar o gnosticismo do seio cristão acabaram por torná-lo imortal através de suas depreciações, deixando entrever, no meio a tantas censuras, o fio que levou os estudiosos do século atual até ao pensamento gnóstico. Deus escreve certo por linhas tortas!</p>



<p>Outra grande fonte de informações a respeito dos gnósticos e que vem elucidando muitas questões é a biblioteca de Nag Hammadi, descoberta em 1945. Esta biblioteca é composta de um grande número de textos gnósticos, os quais, foram cuidadosamente escondidos numa vasilha e enterrados com o objetivo de preservá-los das mãos destruidoras da Igreja, evitando assim que o conhecimento estivesse definitivamente perdido para as gerações futuras. Nossos agradecimentos a estes seres desconhecidos que com sua ação nos permitiram acesso a esta parte de nossa própria história.</p>



<p>O objetivo deste artigo é fornecer ao leitor um conhecimento geral sobre o Gnosticismo e suas diferentes seitas, em especial as cristãs, levando-o, quem sabe, a refletir sobre a grandeza de um passado que ainda está presente no coração de muitos e é futuro no espírito de outros tantos&#8230;&nbsp;</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>De volta ao passado</strong></h2>



<p>No séc. II e.v. o contexto religioso era composto pelo declínio da religião oficial do Império Romano, o paganismo, e a ascensão progressiva de religiões e seitas inspiradas nos ensinamentos orientais. As guerras civis eram frequentes, sendo consideradas um prenúncio da queda do Império de Roma. Esta velha obsessão em relação a queda do império, que era a esperança dos povos dominados e o temor do povo dominante, retratava-se nos Oráculos da época, que anunciavam o apocalipse com a queda da Urbe. A magia e a astrologia passam a fascinar tanto as classes populares quanto as elites, incluindo aqui não só os abastados em dinheiro e posses como também aqueles doutos em filosofia.</p>



<p>Todas estas confusões ideológicas e sociais tiveram uma trégua no reinado de Augusto, quando este, fundando novamente Roma, faz surgir a era da <em>pax aeterna</em>, atestada pela transição da idade do ferro para a idade do ouro, que ocorre sem a tão decantada catástrofe cósmica prevista pelos oráculos orientais. Acabam-se os temores e Roma passa a ser novamente considerada invicta, a <em>urbis aeterna</em>, sendo Augusto considerado o segundo fundador da Urbe. A sua data natalícia, 23 de setembro, foi considerada &#8220;o ponto de partida do universo&#8221;, o qual o imperador havia salvo do apocalipse total. Augusto mostra-se um verdadeiro romano e adota a religião pagã como a oficial, presta homenagens aos antigos deuses, manda reformar os velhos templos e erigir outros, respeita os sonhos como avisos e consulta oráculos em busca de diretrizes para o futuro. A <em>pax </em>realmente torna-se um fato, mas a história infelizmente atesta que ela não era <em>aeterna</em>. Com a morte de Augusto retornam a Roma as guerras civis e o Império volta a declinar.</p>



<p>O culto à persona do imperador torna-se mais popular após as glórias de Augusto e o velho hábito de deificar o imperador após a sua morte toma o espírito religioso popular com grande intensidade. No séc. II e.v., a recusa em celebrar o culto do imperador foi a principal causa de perseguição aos cristãos. Esta perseguição tinha o apoio da opinião pública que odiava a religião emergente considerando-a excêntrica e pessimista, visto que, estimulava a esperança no pós-morte. O cristianismo era uma religião clandestina, sujeitando aqueles que a praticavam às punições oficiais. Acreditava-se que ele estimulava o incesto, o infanticídio e a antropofagia, além de cometer o crime de lesa-majestade e de ser eminentemente ateísta. Ser cristão era ser um fora-da-lei! Realizam-se perseguições sangrentas às seitas cristãs, sendo a última delas levada a cabo por Diocleciano, considerada também a mais longa e a mais violenta.</p>



<p>Façamos porém um parênteses em favor de Diocleciano que longe de ser o imperador cruel e maligno divulgado pela cristandade, foi um governante primoroso que conseguiu restabelecer a paz no império, eliminando o direito ao trono por herança e instituindo o sistema de corregências. É fato realmente curioso que Diocleciano, &#8220;aquele que odiava os cristãos&#8221;, tivesse permitido que sua própria esposa e filha se tornassem adeptas desta nova religião e abandonassem de vez as adorações aos deuses pagãos de quem ele era fervoroso devoto. Curioso é também o fato de que em seu império os cristãos alcançaram grande prestígio como doutores, professores e até mesmo frequentassem o seu palácio para prestar serviços como escribas, tesoureiros etc. Nos relatos de historiadores menos influenciados por paixões religiosas encontramos descrições do interesse político dos cristãos em converter o imperador que, apesar das tentativas, se mantinha fiel às suas raízes. Surgem então, após vários tipos de pressões políticas e sociais, a visível ameaça cristã ao Império, o incêndio do palácio de Diocleciano, considerado por muitos um ato criminoso contra a vida do chefe do estado praticado por adeptos do cristianismo.</p>



<p>Diante da constatação de que a nova religião poderia constituir uma ameaça ao império Diocleciano inicia a sangrenta perseguição. Porém o cristianismo tinha uma grande arma, seus mártires, que se ofereciam à morte pela espada do inimigo com a mesma sede que estes desciam a espada sobre seus pescoços. Como salvaguardar uma boa imagem diante de tamanha abnegação e sacrifício? Os cristãos seriam para sempre os pobres carneiros devorados pelo lobo mau&#8230; Embora para a missão cristã as perseguições constituíssem um grande risco, estas não eram o único perigo que ameaçava a Igreja. Os mistérios de Isis e Mithra, o culto do Sol Invicto e outros tantos cultos representavam também uma ameaça real à sua propagação, pois contavam para a sua divulgação com a proteção oficial. Além disso, havia um perigo muito maior que era acalentado em seu próprio ventre, ameaçando implodi-la: o Gnosticismo.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Gnosticismo: suas origens</strong></h2>



<p>A origem do gnosticismo parece ser um ponto altamente polêmico entre os estudiosos do assunto. Alguns julgam que este tenha surgido com os povos árabes, outros atestam a sua origem nas filosofias orientais, outros acreditam que ele tenha tido sua origem no judaísmo, mas a grande maioria é categórico em afirmar que ele é anterior ao cristianismo. O movimento gnóstico original era um fenômeno independente do movimento cristão que, acrescido de alguns conceitos deste último, acabou por formar o que hoje é conhecido por seitas gnósticas cristãs. Esta simbiose entre os dois movimentos parece ter sido, a princípio, benéfica para as seitas gnósticas que alcançaram uma grande expansão. No entanto, este benefício carregava em si a semente da destruição, se é que se pode falar de destruição em relação a um movimento que promulga um processo de evolução individual e totalmente desprovido de uma estrutura mãe organizadora.</p>



<p>A grande confusão em relação às origens do movimento gnóstico talvez se deva à difícil diferenciação entre gnose e gnosticismo. Na tentativa de esclarecer esta questão renomados investigadores da antiguidade se reuniram no ano de 1966 e.v. e chegaram à conclusão de que a palavra gnose denota um sentido muito mais abrangente do que a palavra gnosticismo. Assim, se preconizou que gnose é sinônimo de &#8220;conhecimento dos mistérios divinos reservado a uma elite&#8221;, um processo de auto iluminação que não está subordinado a esta ou àquela corrente filosófica ou religiosa, não está delimitado a nenhum momento histórico em especial e está contido em todas as filosofias e religiões, sendo o conjunto de suas práticas e princípios dependente da criatividade do fundador de cada doutrina em questão. Deste modo, temos gnose no Budismo, no Hinduísmo, no Judaísmo, no Cristianismo e nos diversos sistemas de crenças que povoam o nosso planeta, quiçá o nosso universo&#8230;</p>



<p>Sutilmente diferente do significado acima descrito, gnosticismo é um termo utilizado para denominar um sistema de crenças e práticas que teve o seu apogeu num espaço de tempo compreendido entre o início do séc. II e.v. e a segunda metade do séc. III e.v. O tipo de gnose que compreende o gnosticismo está condicionada por um certo número de fundamentos ontológicos, teológicos e antropológicos que caracterizam este sistema diferenciando-o dos demais. A linha que permite a diferenciação entre gnose e gnosticismo é muito tênue, pois que o gnosticismo é gnose, mas nem toda gnose é gnosticismo.</p>



<p>A conclusão sobre as origens do sistema gnóstico é consecução que por enquanto dificilmente será alcançada, pois as únicas fontes que temos a respeito deste sistema sãos textos escritos em língua copta que falam sobre as suas crenças e parecem ter conexão com as diversas gnoses da antiguidade. O gnóstico acreditava que toda religião continha uma verdade que poderia levar ao plano divino, por isso, recolhia de cada uma aquilo que considerava mais precioso. A sua inserção no contexto cristão foi estimulada por este pensamento, buscando nos ensinamentos de Jesus aquilo que considerava indispensável ao aperfeiçoamento de uma filosofia que o levaria a seu objetivo final: a Libertação.&nbsp;</p>



<p><strong>Gnosticismo: sua filosofia</strong></p>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Quem sou, de onde vim e para onde vou.</p>
</blockquote>



<p>O gnóstico acredita que a salvação só pode ser alcançada através do conhecimento que desvenda a compreensão da origem da alma, bem como da sua condição neste mundo e da sua saída desta condição. Este conhecimento não pode ser apenas intelectual, mas precisa passar pelo sentir, sendo antes de mais nada o conhecimento do Eu, de sua natureza e de seu destino. A compreensão da origem da alma, assim como da sua condição neste mundo, servem de base à tomada de consciência que traz a gnose superior em relação aquilo do qual o homem é legítimo representante, despertando no adepto o desejo de se libertar da rede de ilusões que compõem o mundo físico, alcançando finalmente a salvação tão desejada.</p>



<p>Segundo a visão gnóstica o mundo material é uma prisão na qual o homem se encontra e que foi criada por um demiurgo ignorante de patamares espirituais mais elevados que julga ser o supremo senhor do universo. O homem, dotado da centelha divina, encontra-se adormecido pelo fumo de ilusões gerado daquilo que entende como vida, ou seja, o mundo físico, impossibilitando a manifestação de sua nobre origem representada pela centelha de Deus. Para o gnóstico, a ignorância é a fonte de todo mal, tendo como único antídoto o conhecimento (gnose), sendo este o único meio possível para a libertação da centelha que habita em todos nós. Ou seja, o único meio para voltarmos à nossa condição primordial, Deus, que diferente do demiurgo, representa a perfeição.</p>



<p>A questão em torno da qual giravam todas as seitas gnósticas dizia respeito a como Deus em toda a sua perfeição teria permitido que o mal penetrasse em sua criação. Com a finalidade de explicar as dualidades perfeição x imperfeição, bem x mal, matéria x espírito, incompreensíveis para a mente humana, pois se partia da premissa de que Deus era perfeito, as religiões criaram o mito da queda. No sistema adotado pela maioria dos gnósticos, diferente do mito de Adão e Eva encontrado no Gênesis, a queda teria se dado antes da criação do mundo. O Princípio Primordial, Ser Eterno e Gerador de tudo, teria produzido emanações conhecidas como Eons que por sua vez teriam produzido mais Eons distanciando-se estes últimos cada vez mais do Pai, origem de todos eles. Conforme as emanações iam se afastando do Pai a ignorância quanto à fonte geradora ia surgindo, sendo o erro um fato inevitável e tendo como consequência a formação da matéria. Mais uma vez fica aqui atestado que para o gnóstico a ignorância é a raiz de todo o mal. O sistema gnóstico defendia a existência de uma mesma verdade presente em todas as religiões e que, embora contada de modos diferentes, quando fosse descoberta pelo seu adepto acabaria por levá-lo ao mesmo lugar dos demais adeptos das diferentes crenças. Deste modo não havia preconceito em adotar ensinamentos de outras seitas, pois o que realmente importava não era a defesa de crenças pessoais, mas sim, a busca do ensinamento verdadeiro.</p>



<p>Para os perfeitos, nome pelo qual eram conhecidos os iniciados, o caminho libertador era pessoal e portanto dotado de características individualizantes, qualquer experiência era válida. O que o sistema proporcionava aos seus adeptos era o conhecimento das verdades sutis por trás dos ensinamentos grosseiros, conhecimento necessário para a iniciação, sendo a mesma obtida pelo esforço próprio daquele que se dispunha a empreendê-la.</p>



<p>Sendo assim, o gnosticismo, diferente da Madre igreja, não oferecia a salvação coletiva através de um messias, pois que esta não poderia ser dada, mas sim conquistada por esforço pessoal, sendo intransferível. Este foi um dos motivos de divergência entre os cristãos gnósticos e os cristãos ortodoxos que, dentre outros motivos, acabou por gerar a expulsão dos primeiros, os quais, acusavam a Igreja de se desviar dos objetivos sagrados em favor de sua própria expansão. Enquanto os gnósticos buscavam qualidade, os ortodoxos buscavam quantidade, o que tornava impossível a sua conciliação, visto que, estes dois princípios são diametralmente opostos em se tratando de verdadeira gnose.</p>



<p>Outro fator que tornava perigosos os seus ensinamentos perante a Igreja era a sua concepção sobre o Cristo que, para o gnóstico, era uma presença espiritual e não um ser dotado de carne e osso, conceito docético (heresia cristã do séc. II e.v.) e altamente combatido pela Igreja que desta forma veria seu líder transformado num mito. Para o gnóstico, não só Cristo era uma presença espiritual como a sua morte na cruz não significava que a humanidade estava salva, mas sim que havia um caminho para a libertação. Mais uma vez seus ensinamentos chocavam-se com os da Igreja, para a qual Cristo teria morrido na cruz para salvar a humanidade. Os gnósticos cristãos defendiam uma gnose oculta por traz das palavras de Jesus apenas compreensível àqueles que tinham &#8220;ouvidos para ouvir&#8221;, expressão utilizada para designar uma qualidade especial de homens que seriam os verdadeiros gnósticos, nascidos em condições diversas dos demais seres humanos.</p>



<p>Segundo a sua gnose, os seres humanos não vinham ao mundo em condições básicas de igualdade, havendo três tipos básicos: os hilicos ou materiais, os psíquicos e os pneumáticos. Os hilicos eram aqueles de mentalidade carnal e terrena, ocupados somente com o mundo material. Os psíquicos eram aqueles que viviam pela fé e pelas boas obras, mas que ainda estavam muito presos a ilusão material. Os pneumáticos eram aqueles portadores da centelha divina e portanto os únicos capazes de entender a gnose e de, através do autoconhecimento, abandonar a dualidade e alcançar a unidade com Deus. Pode parecer a princípio que os pneumáticos eram privilegiados, mas era deles que se exigia mais, muito mais do que das outras duas ordens inferiores.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Daquele a quem muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mais será reclamado </p>



<p class="has-text-align-right">Lucas 12:48.</p>
</blockquote>



<p>Resumindo, no entender dos gnósticos eles deveriam ampliar cada vez mais o autoconhecimento, pois esta era a única forma de conhecer Deus. O objetivo final era a volta às origens ou, melhor dizendo, o retorno à Luz que nasce de si mesma. Daí partira o Ser portador da Fagulha Divina, separando-se da Fonte primordial, ao passo que antes era um com Ela. Dividido e aprisionado no mundo material ele deve lutar para voltar à sua condição primeira, abandonando a dualidade e atingindo o estado de uno com a divindade, quando poderá ser chamado de Filho de Deus.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Seitas Gnósticas</h2>



<p>Nesta sessão do artigo faremos uma análise sobre as principais seitas gnósticas cristãs. Infelizmente o estudo é limitado pelo breve espaço que contém um artigo e não faz justiça a enorme riqueza de ensinamentos que são pertinazes ao assunto, além do que, o número de seitas que estarão inseridas aqui é infinitamente menor do que aquelas que povoaram o espaço cultural e social do séc. II e.v. Tentei, na medida do possível, selecionar as seitas que maior influência tiveram no pensamento religioso da época e das quais muitas das outras doutrinas derivaram. Deste modo, pretendo levar o leitor a um conhecimento geral sobre o assunto, não deixando de aconselhar uma pesquisa mais profunda aquele que pelo tema se apaixonar.</p>



<p>Antes de entrar no gnosticismo, propriamente dito, pretendo expor o pensamento de Simão, o mago, que fazia parte da gnose judaica e que serviu de alicerce à combinação de ideias e à formação daquilo que mais tarde viria a ser classificado como sistema gnóstico. Pretendo com isto oferecer ao leitor informações pré gnósticas, buscando facilitar o entendimento da teologia das diversas seitas que são o objeto de nosso estudo. A fonte de pesquisa principal deste assunto foram os escritos de diversos heresiologistas que, como citado anteriormente, na ânsia de destruir um sistema acabaram por perpetuá-lo até os nossos dias. É claro que, se por um lado o perpetuaram, por outro, o rechearam de interpretações pessoais, dificultando o nosso aprendizado. Por isso, que o leitor me desculpe se alguns pontos do discurso parecerem demasiado obscuros.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Simão, o mago</strong></h3>



<p>Simão era originário da Samaria e popularmente conhecido como um exímio praticante das artes mágicas. Sua fama como homem sábio correu mundo, sendo considerado a encarnação do Logos, tal como o Jesus dos católicos, sendo esta a provável origem de toda animosidade cristista em relação à sua pessoa.</p>



<p>Considerava que o mundo derivava de um Potência infinita que podia ser figurada pelo fogo e baseava sua premissa nos escritos de Moisés, que afirmavam ser Deus fogo que arde e consome. A estrutura deste Fogo Supra-Celestial diferia da estrutura simples inerente aos quatro elementos. Sua natureza era dupla e continha na sua composição um lado oculto e outro manifesto que se entrelaçavam formando uma unidade. A parte manifesta continha a oculta e esta última era a responsável pela existência da primeira. O mundo engendrado provém deste Fogo Inato. Para que a criação do mundo se torne uma realidade, o Princípio de todas as coisas emanou as seis primeiras raízes que são o princípio da criação. Simão chamou a estas raízes de Intelecto, cujo par é Intelecção, Voz, cujo consorte é Nome, e Razão, cuja contraparte é Reflexão. Toda a Potência infinita está contida nestas seis raízes, mas o seu estado é de potência e não de ato, ou seja, está na condição daquele que pode vir a ser, mas que ainda não o é, como a semente que contém todo o potencial do fruto, mas ainda é apenas a semente. Se aquilo que se encontra nas seis potências se converte na imagem exata , tanto em essência, quanto em potência, em magnitude e em perfeição da Potência Inata e infinita, passa a ser conhecido como aquele que permanece, permaneceu e permanecerá, ou seja, aquele que está firmemente de pé.</p>



<p>As conotações temporais desta designação são mera alegoria que nada têm a ver com um sentido cronológico e expressam, no tempo presente, aquele que permanece, o elemento transcendente, o espírito perfeito que se encontra no Pleroma desde a sua origem; no tempo passado, aquele que permaneceu, o processo pelo qual o imperfeito alcança a perfeição gnóstica e, na condição futura, aquele que permanecerá, o ato final da elevação, o regresso aquele que está de pé, à imagem exata da Potência Infinita, também classificada como a sétima potência. As três expressões configuram uma história atemporal que é o paradigma da história da salvação do homem. Da união entre as seis raízes primordiais e a sétima potência, imagem da Potência Infinita, surge o mundo como o conhecemos. Correlacionando-o com as seis potências ou raízes obtemos: Intelecto / Intelecção correspondendo a Céu e Terra; Voz / Nome se tornando Sol e Lua; Raciocínio / Reflexão se transformando em Ar e água.</p>



<p>Na filosofia simoniana todas as coisas criadas estão impregnadas do Fogo Supra-Celestial, embora este se encontre na forma da semente que pode vir a ser e não do fruto que já é. Depois de criar o mundo, Deus criou o homem e o fez, segundo Simão, não à sua imagem e semelhança, mas à imagem e semelhança das realidades superiores, plasmando-o no paraíso. Trazendo este pensamento abstrato para uma realidade palpável, temos que o mago transpõe o paraíso para o útero materno. Para isto ele se sustenta nas escrituras que em Isías. 44:2 afirmam: &#8220;Assim diz o Senhor, aquele que o fez, que o formou no ventre&#8221;.</p>



<p>Se Deus plasma o homem no útero de sua mãe podemos dizer que o útero é o paraíso e que o Éden é á placenta. A passagem do Gênesis que diz haver um rio que brota do Éden e irriga o paraíso é correlacionada, no sistema simoniano, com o cordão umbilical. Este cordão se divide em quatro braços, duas artérias condutoras de pneuma, o princípio espiritual, e duas veias condutoras de sangue que, ao saírem do Éden (placenta), se ligam às portas do fígado do feto, alimentando o nascituro. O pneuma, desembocando na aorta que está próxima à coluna vertebral, dá o alento de vida ao corpo da criança que está para nascer e lhe proporciona o movimento. Os quatro braços do rio são os sentidos visão, audição, olfato e gustação que representam a Lei que Deus deu a Moisés e, portanto, relacionados com os livros Gênesis, Êxodo, Levítico e o Deuteronômio.</p>



<p>Em todos os seres o desejo de geração provém do fogo. É assim que nos dizemos &#8220;arder de desejo&#8221; diante daquele que é o objeto de nosso amor. Para Simão, o fogo é uno e, quando trazido ao gênero humano, sofre uma adequação que lhe permite estar contido tanto no homem quanto na mulher. No homem, o sangue vermelho e quente, portador do fogo se transforma em esperma. Na mulher, o mesmo sangue se torna leite. A transmutação do Fogo ocorrida no homem é potencialmente gerativa e na mulher esta mesma transmutação é nutritiva. As duas funções se complementam pois, enquanto um gera, o outro alimenta o pequeno ser que acaba de nascer. Através da semente do macho e do alimento na fêmea, o Logus ali contido encontra a via ideal para tornar-se Logus das almas e passar de pequena centelha divina a perfeita imagem da Potência Infinita.</p>



<p>Não se sabe se alegórico ou não, relata-se nos livros que Simão possuía uma companheira que era chamada Helena, a quem ele havia tirado de um prostíbulo na cidade de Tiro na Fenícia. Segundo os relatos, Simão considerava Helena como sendo a Intelecção, princípio passivo feminino e a si mesmo como sendo o Intelecto, princípio ativo masculino, ou seja, ambos representavam as potências primordiais que, quando em perfeita cópula, dão origem a um ser andrógino, imagem da Potência Infinita. Sendo assim, sua filosofia considera que pode se alcançar o estado de perfeição através do ato sexual, bem como defendia que este poderia ser realizado de maneira espontânea com qualquer mulher. Este ponto de vista ia de encontro à rígida moral vigente e lhe acarretou o título de libertino.</p>



<p>O sistema do Princípio primordial e suas raízes que deram origem ao mundo influenciaram em muito as diversas seitas cristãs gnósticas, dentre estas, a que sofreu maior influência do pensamento simoniano foi a dos valentinianos, a mais importante seita gnóstica do séc. II e.v. Além do mais, Simão divulga a presença da centelha do Pai no homem, levando-o, quando desenvolvida, ao estado de perfeição e divinização. Estas, dentre outras, são as razões que levam os estudiosos a considerar Simão o precursor do gnosticismo e, portanto, verdadeiramente importante para o estudo deste sistema. </p>



<h3 class="wp-block-heading">Gnósticos Cristãos</h3>



<p>Os gnósticos cristãos eram membros das comunidades cristãs como atestado pelos próprios heresiólogos. A teologia dos gnósticos se baseava numa interpretação do Novo Testamento e do Antigo Testamento, sendo suas questões doutrinais, a Trindade, a Criação, a Divinização do Homem, a Redenção, o Nascimento Virginal, a Crucificação, a Igreja e o Fim do Mundo. Os gnósticos se mantiveram muito próximos da Grande Igreja na teologia trinitária, embora mantivessem posição divergente no que concerne à criação, ao Antigo Testamento, a antropologia e a cristologia. Para eles era necessário aprofundar o sentido dos textos revelados. A constatação de que os gnósticos pertenciam à Igreja não afeta a originalidade de seu pensamento, o qual apresentava como características um aprofundamento da exegese dos textos sagrados e uma maior abertura em direção ao helenismo, em particular o platonismo. Para organizar nosso estudo dividiremos os pensamentos gnósticos naqueles que se baseiam principalmente no Antigo Testamento e aquele outro grupo que toma como ponto de partida o Novo Testamento, ressaltando porém que ambos utilizam as duas fontes. </p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Exegese do Antigo Testamento</strong></h3>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Satornilos</strong></h4>



<p>Satornilos, ensinou em Antióquia no período de 117-138 e.v, reinado de Adriano. Seu pensamento sustentava a radical distinção entre o Deus supremo e o criador, Deus dos judeus, descrito de forma muito negativa. Desta forma angariava inimigos tanto judeus com judeus-cristãos, cujo principal centro era Antióquia. </p>



<p>A cosmogonia e a antropogonia satornilianas se baseavam em uma interpretação dos primeiros capítulos do Gênesis. Sustenta que existe um Pai desconhecido por todos, que criou anjos, arcanjos e potências, sendo o mundo e o homem criados por sete anjos. A criação do homem se deu quando das alturas desceu uma imagem luminosa que os anjos não puderam reter. Desejaram então criar o homem à sua imagem, mas por possuírem pouca destreza, sua obra não podia ficar de pé e se arrastava pelo mundo. A Potência superior se apiedou da criatura, pois havia sido feita à sua imagem e enviou uma centelha divina que o colocou de pé e o fez viver. Após a morte, a centelha divina volta à sua origem e tudo o mais se dissolve.</p>



<p>Ensinava que o Salvador não nasceu de uma mulher, que é incorpóreo e sem forma, mas que se manifestou sob a forma de homem. </p>



<p>Parece ter presenciado a destruição de Jerusalém, após a qual não se ouve mais falar dele.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Os Ofitas</strong></h4>



<p>Este grupo venerava a serpente do Paraíso, símbolo de sabedoria, pelo fato de haver enfrentado o Deus da criação mosaica. Sua angeologia se remete ao esoterismo apocalíptico e especulam sobre as duas Igrejas, a celestial e a terrena, acreditando na ressurreição da carne. Os Ofitas parecem ter sido um grupo alexandrino que adotava um sincretismo egípcio, mistura de judaísmo, magia e cristianismo com toques de platonismo.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Os Nahasenos</strong></h4>



<p>O nome desta seita deriva de &#8220;nahas&#8221;, serpente, e têm as características dos ofitas, na mediada em que adoram à serpente. Consideravam que a serpente é o princípio cosmogônico absoluto, cujos atributos são o bem e cuja obra é a beleza.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Os Peratas</strong></h4>



<p>Os Peratas partem de uma interpretação do Antigo Testamento, principalmente dos primeiros versículos do Gênesis, aqueles que se referem às águas, o mar Vermelho e a serpente do deserto, convertida em ponto principal de sua alegoria cristã. Seu sistema sofre influência de ideias astrológicas e platônicas.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Os Setianos</strong></h4>



<p>O sistema Setiano se baseia numa interpretação alegórica do Pentateuco: a serpente é uma representação do Demiurgo e também o disfarce através do qual o Logus penetra no seio da Virgem. São ecléticos, inspirados no dualismo cosmológico platônico, com superficiais elementos aristotélicos e estoicos.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Os Cainitas</strong></h4>



<p>Este grupo representa um caso extremo de oposição ao Deus do Antigo Testamento. Sustentam que Judas era o único dos apóstolos que possuía gnose e por isso realizou o mistério da traição através do qual Cristo foi crucificado, salvando a humanidade.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Exegeses do Novo Testamento</strong></h3>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Basílides</strong></h4>



<p>Basílides foi discípulo de Menandro e condiscípulo de Satornilo em Antióquia. A atividade de Basílides parece estar limitada ao Egito e está situada no período do imperador Adriano, 117-118 e.v., segundo informação de Clemente de Alexandria.</p>



<p>Sua gnose atestava que havia um Pai ingênito que havia engendrado em primeiro lugar o Intelecto. Do Intelecto veio o Logus, do Logus a Prudência, da Prudência a Sabedoria e a Potência. Os nomes destas três formas divinas são, respectivamente, Noús, Lógos, Phrónesis, Sophía e Dínamis. Os três primeiros Eons constituem o Pleroma que é o Filho Unigênito, forma através da qual o Pai, não engendrado, se comunica com o exterior. O Filho possui tripla perfeição: como Intelecto está destinado a ser a compreensão do Pai para todos os seres inferiores; como Logus é o conjunto das formas que realizará os planos divinos; como Phrónesis é a providência que velará pela consumação da economia. De Phrónesis derivam simultaneamente Sophía e Dínamis, estando a primeira relacionada com os homens, em particular os eleitos, e a segunda corresponde ao Logus na sua função criadora do mundo.</p>



<p>A partir de Sophía e Dínamis procederam as potestades, os arcontes e os anjos, chamados &#8220;primeiros&#8221;, os quais criaram o primeiro céu. Depois outros anjos procedentes dos primeiros fizeram um céu igual ao anterior e logo outros anjos surgiram, formando o terceiro céu e, assim por diante, até chegar a uma totalidade de 365 céus que se iguala aos 365 dias do ano. Os anjos que ocupam o último céu, que é o que pode ser visualizado pelos homens, formaram todas as coisas deste mundo e dividiram entre eles a Terra e todas as raças de homens que nela habitam. O príncipe de todos estes anjos, supostamente o Deus dos judeus, desejou tomar para si todas as outras raças o que debelou uma rebelião contra ele.</p>



<p>O Pai Inominado, ao presenciar a perversidade dos arcontes, enviou seu primogênito, Intelecto, chamado Cristo, a fim de libertar aqueles que estavam sob o domínio dos que haviam criado o mundo. Cristo, segundo Basílides, apareceu entre os arcontes como homem que operava milagres e, diferente do que se conta, não padeceu a paixão. Em seu lugar padeceu Simão de Cirene que, ao carregar a cruz, foi confundido com Jesus e crucificado em seu lugar. Jesus, como potência incorpórea, podia alterar sua forma física, tomando, naquele momento, a aparência de Simão e saindo incólume da crucificação. Desta forma, retornou ao Pai que o havia criado.</p>



<p>Aquele que conhece os mistérios e sabe quem são os anjos, bem como a forma pela qual se originam, se faz invisível diante das potestades e retorna ao Pai.</p>



<p>Os basilidianos foram acusados de praticar magia, encantamentos, evocações e toda a classe de ritos extraordinários.</p>



<p>Defendiam a existência de um ser onipotente, abaixo do Deus superior, que presidia todas as coisas e cujo nome era Abraxax. O nome Abraxax tem o valor numérico de 365, igual ao número de dias no ano; sendo que situavam a posição dos 365 céus em conformidade com os ensinamentos astrológicos. O deus Abraxax era, portanto, o símbolo do ano, o símbolo da trajetória da Terra ao redor do Sol. Devido ao seu valor místico, a palavra Abraxax acabou sendo inscrita em várias pedras e joias, passando a constituir amuletos que protegiam aqueles que os portavam.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Carpócrates</strong></h4>



<p>Cárpocrates e seus discípulos diziam que o mundo foi criado por anjos muito inferiores ao Pai Ingênito e que Jesus nasceu de José. Semelhante ao resto dos homens, foi superior a todos, pois sua alma conservava a recordação do que havia visto em seu movimento circular em torno do Deus Ingênito. Por isto, lhe foi enviada pelo Pai uma potência que o capacitou a escapar dos criadores do mundo. A alma, passando por eles e alcançando completa liberdade, ascendeu até ao Pai. O mesmo ocorre com todo homem que resolve abraçar a mesma disposição que Jesus teve de se libertar.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Valentino</strong></h4>



<p>O maior de todos os pensadores gnósticos do segundo século II foi Valentino, que ensinou por volta do ano 137 e.v. Ele estabeleceu escolas no Egito, no Chipre e em Roma, sendo esta última a mais famosa de todas. Ptolomeu foi um de seus alunos mais dedicados e foi quem deu continuidade aos ensinamentos do grande pensador.</p>



<p>Valentino considerava-se cristão e sua premissa básica era elaborar uma filosofia cristã na qual um dos pontos mais importantes era a demonstração de como o mal havia penetrado no mundo. Este era o tema central da maioria das seitas gnósticas ditas cristãs, pois que era difícil ao coração e mente humanos compreenderem como um Deus perfeito poderia ter permitido que o mal penetrasse em sua criação. Da filosofia de Valentino derivam, com algumas variações, muitas das outras filosofias que vieram a constituir um corpo individual e a formar uma seita. Por isso explicaremos com maior riqueza de informações sua mitologia, procurando fornecer ao leitor um panorama geral do chamado &#8220;mito da queda&#8221;.</p>



<p>Para os valentinianos existia um Eon perfeito, chamado de Pré-Princípio, Pré-Pai ou Abismo que era eterno e não engendrado. Com ele vivia Pensamento, chamado de Graça e Silêncio. O Eon perfeito pensou em emitir um princípio de todas as coisas e depositou sua intenção na forma de semente em Silêncio. Esta, ao engravidar, pariu Intelecto, semelhante ao emitente e por isso mesmo o único capaz de abarcar a magnitude do Pai. Este Intelecto também é conhecido como Unigênito, Pai e princípio de todas as coisas, tendo sido emitido junto com o Eon Verdade. Esta Tétrade é a raiz do universo: Abismo e Silêncio, Intelecto e Verdade.</p>



<p>O Unigênito, compreendendo o motivo pelo qual fora criado, emitiu Logus e Vida que emitiram Homem e Igreja. Esta é a Ogdoada, raiz e subsistência de todas as coisas. Cada uma destas raízes é andrógina: Abismo tem como conjugue Pensamento, o Intelecto tem como contraparte a Verdade, Logus tem como companheira a Vida e o Homem, a Igreja. A Ogdoada é então conhecida por quatro nomes, Abismo, Intelecto, Logus e Homem. Sendo UM na verdade são DOIS, pois o andrógino contém, em si mesmo, a fêmea.</p>



<p>Logus e Vida, após emitirem Homem e Igreja, tendo testemunhando o poder do Pai, desejam glorificá-lo e, em sua homenagem, emitem outros dez Eons, Profundo e Mistura, Imarcescível e União, Genuíno e Prazer, Imóvel e Comunhão, Unigênito e Beata. Por sua vez, Homem e Igreja, também glorificam o Pai emitindo doze Eons, Paráclito e Fé, Paternal e Esperança, Maternal e Caridade, Intelecto Perdurável e Entendimento, Igreja e Beatitude, Desejado e Sabedoria (Sophia).</p>



<p>Este é o Pleroma invisível e espiritual dos valentinianos, composto de trinta Eons e dividido em Ogdoada, Década e Duodécada. De todos os Eons apenas Intelecto contempla e compreende o Pré-Pai, embora todos os demais desejem também se deleitar na sua contemplação.</p>



<p>Sophia, o último Eon, tomada de audácia, resolve se lançar à procura da Fonte Criadora e na ânsia de compreender sua grandeza, comete &#8220;adultério&#8221;, experimentando uma paixão sem o abraço de seu conjugue, Desejado. Debate-se incessantemente diante da impossibilidade de seu empreendimento, tendendo sempre a ir mais longe sob a influência do amor que devotava ao Pré-Princípio. Não encontrando Limite, a força que mantém os Eons fora da inefável grandeza, finda por ser absorvida e dissolvida na substância universal. Reconhece, finalmente, que o Pai é incompreensível e abandona sua intenção, deixando também de lado a paixão que com ela sobreveio. Passa então a suplicar o seu retorno ao Pleroma.</p>



<p>A atitude de Sophia não deve ser compreendida como um erro, pois ela é o Eon mais perfeito da duodécada e representa o cume do processo de formação substancial do homem superior. Concluindo-se o trigésimo Eon, Pleroma, este está agora disposto a receber a gnose, do mesmo modo que Jesus, aos trinta anos, está pronto para receber o Espírito Santo.</p>



<p>As súplicas de Sabedoria para voltar ao Pleroma são ouvidas pelo Pai que, através de Unigênito, emite Limite à sua própria imagem, o qual, é conhecido sob o nome de Cruz, Redentor, Emancipador, Limitador, Reintegrador. Limite então, pela graça do Pai, purifica, consolida e restabelece Sabedoria ao seu conjugue, expulsando a sua intenção e paixão para fora do Pleroma, crucificando-as. Intenção, embora amorfa e desprovida de compreensão, constitui uma substância espiritual, pois possui o impulso natural do Eon.</p>



<p>De forma a que o ocorrido com Sophia nunca mais viesse a ocorrer com nenhum outro Eon, o Unigênito, sob a orientação do Pai, emite Cristo e Espírito Santo, destinados à fixação e consolidação do Pleroma. Cristo anuncia entre os Eons o conhecimento sobre o Pai, enquanto o Espírito Santo os ensina a praticar eucaristia, trazendo o verdadeiro repouso. A conjunção de Cristo e Espírito Santo significa a unção do espírito. No nível gnoseológico significa que recebeu a gnose suprema, a visão de Deus. No nível ontológico, significa que passou a ser Deus.</p>



<p>O mito de Valentino desdobra a conjunção Cristo-Espírito Santo, pois enquanto o primeiro ensina, o segundo induz ao repouso. Na vida de Jesus observamos duas épocas distintas, aquela que vai do batismo até à ressurreição, na qual, se dedica a ensinar, atividade do Cristo ; e outra que vai da ressurreição até a ascensão, durante a qual, os apóstolos são elevados à gnose pela ação do Espírito Santo. O Logus divino, criado pela unção do espírito, corresponde ao Logus interno e delimita a intenção criadora e manifestadora do Pai, mas subsistindo ainda em seu próprio espírito, não tendo sido proferido.</p>



<p>Após a sua consolidação, os Eons, por sua própria vontade, emitiram juntos um ser de indescritível beleza que continha a essência mais bela e mais perfeita de cada Eon. Este ser é Jesus, também chamado de Salvador, Cristo, Logus e Todo, pois provém de todos. Este ato comum dos Eons representa um estagio importante no nascimento do Logus que, ungido pelo Espírito Santo, está projetado ao exterior e à salvação, como fruto perfeito de todo o Pleroma: Jesus-Cristo-Salvador-Logus. Este é o meio através do qual, Deus, produz seu Logus, como pessoa subsistente, em um substrato pneumático próprio, ou seja, em um princípio espiritual próprio.</p>



<p>Fora do Pleroma, a intenção da Sabedoria superior, chamada de Achamot, entrou em ebulição nas regiões de sombra e de vazio, por ter saído da luz e do Pleroma informe e sem figura, como um aborto, não compreendendo nada. O Cristo se apiedou dela e estendendo-se através da Cruz, com sua própria potência lhe deu forma, mas somente em relação à substância e não em relação ao conhecimento, retornando logo após ao Pleroma. Uma vez formada, mas vazia do Logus invisível que lhe ajudara, ou seja, Cristo, se lançou em busca da luz que a havia abandonado, não conseguindo alcançá-la devido ao impedimento de Limite. Como não pudesse voltar ao Pleroma, pois ainda trazia acoplada a paixão, sofreu toda série de arrebatamentos, tristeza, temor pela própria vida, perplexidade etc. O sofrimento, ao contrário do que acontecera com a Sabedoria superior, sua genitora, não lhe acarretou transformação, mas sim, contrariedades e uma grande disposição para doar a vida. Esta foi a origem da matéria que constituiu o mundo e sua alma, bem como ao Demiurgo.</p>



<p>Depois que a paixão de Achmot havia sido superada, ela voltou-se para o Pleroma e suplicou que a salvassem. Cristo, apiedando-se mais uma vez, envia a Paráclito, o Salvador, ao qual o Pai outorgou toda a potência. Do mesmo modo fizeram os Eons, de forma a que nele tudo fora criado, o visível e o invisível. O Salvador deu a Achmot a formação, desta feita, segundo o conhecimento, e a curou de suas paixões. Achmot, diante da visão dos anjos que acompanhavam Paráclito, engravidou e concebeu espíritos que eram a imagem daqueles anjos.</p>



<p>Segundo Valentino havia três substratos para a formação do mundo: o material, que procedia da paixão; o psíquico, que procedia da conversão de Achmot; e aquele que havia sido parido, o espiritual. A partir da substância psíquica foi formado o Demiurgo que se tornou Pai e Rei de seus consubstanciais e daqueles procedentes da matéria. Os valentinianos sustentam que ele é a origem de todos os seres criados depois dele e, sendo ignorante, desconhece que tudo é criado através dele pelo estímulo da mãe, Achmot. Criou-se então, o céu e a terra. O Demiurgo, uma vez criado o mundo, criou o homem terreno a partir da confusão e da fluidez da matéria, infundindo em alguns deles o homem psíquico e revestindo-o de pele, a carne sensível. O broto espiritual, concebido por Achmot diante da contemplação dos anjos, passou desapercebido ao Demiurgo e foi ocultamente introduzido nele, de forma a que, quando este soprasse sobre o homem o hálito vital, lhe comunicou também a centelha divina, de modo a que, crescendo dentro do homem, este se torna-se capaz de receber o Logus perfeito. Aqueles que recebem esta centelha divina, visto que não são todos, constituem o homem espiritual, o qual, recebe a alma do Demiurgo, o corpo do barro e o espírito da Mãe Achmot. Eis o que para os valentinianos constitui o homem gnóstico.</p>



<p>Estas três raças de homens, a saber, o material, o psíquico e o espiritual, representam três possibilidades distintas de salvação. A salvação, ao contrário da Igreja ortodoxa, vem determinada pela essência e não pela conduta.</p>



<p>O homem espiritual se salvará, ou seja, chegará à perfeita gnose no Pleroma, graças à semente espiritual que traz junto com ele. O homem material não pode se salvar, pois a essência material é incapaz de salvação. O homem psíquico não pode alcançar a perfeita gnose, mas receberá uma beatitude psíquica extrapleromática, se observar a boa conduta. O homem espiritual é livre na medida em que não está sujeito às potências deste mundo, as quais, determinam o destino do homem; o psíquico tem o seu destino vinculado ao seu livre arbítrio e o material não goza de liberdade, pois está irremediavelmente preso à matéria. O espiritual possui apenas o germe do pneuma imperfeito, feminino. Este germe é passível de se desenvolver e alcançar a semelhança com seu correspondente masculino, o Salvador, que será seu esposo na consumação. O ser espiritual é educado junto com o psíquico no que concerne à conduta. Isto indica, claramente, que não há concessões ao libertinismo, o espiritual está sujeito as mesmas regras morais que o psíquico. A única coisa que varia é a conseqüência da transgressão: o pneumático não pode perder nada, o psíquico perde tudo.</p>



<p>Quando todos os elegidos alcançarem a perfeição, Achmot entrará no Pleroma e receberá seu esposo, o Salvador, dando-se a consumação final. Os espirituais se despojarão de sua alma e matéria, ascendendo como espíritos puros ao Pleroma, onde se juntarão a seus conjugues masculinos, os anjos, à imagem dos quais foram gerados. O Demiurgo assumirá o lugar de Achmot e o fogo que se encontra oculto no mundo consumirá toda a matéria.</p>



<p>Este é o mito da queda, segundo Valentim, resumidamente demonstrado neste artigo, pois os seus ensinamentos prosseguem com a explicação docética a respeito do surgimento de Jesus Cristo, como salvador. Segundo o docetismo, Jesus não era dotado de corpo humano, mas sim uma aparência, uma presença espiritual. Para Valentino, seu corpo era etéreo e feito de substância celeste, totalmente diferente de nosso corpo material, pois era impossível para um Deus tornar-se homem, adotando a matéria impura. Esta reflexão a respeito de um Redentor etéreo que descia através das esferas do universo incomodava aos líderes da Igreja que, deste modo, viam a narrativa a respeito da vida de Jesus ser transformada em história mitológica.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Nag Hammadi, o passado está de volta…</strong></h2>



<p>No ano de 367 e.v., o mundo cristão estava em guerra consigo mesmo. Foi nesta época que chegou à comunidade monástica de Tabinnisi, próxima ao Nilo, a ordem para que Teodoro, diretor da comunidade, lê-se a 39ª Carta Festal de Athanasius, bispo de Alexandria, da qual passo a relatar alguns trechos. </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>[…] Mas desde então temos mencionado aos hereges como mortos e a nós como os possuidores das Divinas Escrituras para a salvação; e por isso temo menos, como escreveu Paulo aos corintos, que alguns dos simples se deixem enganar, por sua simplicidade e pureza, pela sutileza de certos homens, lendo outros livros, os chamados apócrifos, tomando-os, pela similaridade dos nomes, por livros autênticos; te suplico que tenhas paciência se escrevo também, de forma a recordar, sobre assuntos os quais já estás familiarizado, pois o faço levado pela necessidade e pelo maior proveito da Igreja. Ao mencionar estas coisas adotarei o que disse Lucas, o evangelista. Pois alguns hão tomado os apócrifos e os hão misturado com as Escrituras de inspiração divina, das quais temos sido plenamente persuadidos, como aquelas que desde o princípio foram testemunhos e ensinamentos da palavra entregue aos pais; também me parece bom, havendo sido apoiado a isto pelos irmãos, pôr diante de ti os livros incluídos no Cânone, aqueles que foram entregues e acreditados como divinos; com a finalidade de que aquele que haja caído no erro possa corrigir àqueles que o hajam extraviado; e que aquele que permanece na pureza possa regozijar-se de novo, voltando estas coisas à sua lembrança.</p>
</blockquote>



<p>Athanasius segue relatando os livros que serão aceitos como autorizados e divinos. Esta lista constitui o que hoje chega ao nosso conhecimento como Bíblia.&nbsp;</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>[…] Estas são a fontes da salvação, as que com as palavras nelas contidas podem satisfazer a quem tem sede. Somente nelas se proclama a doutrina da divindade. Que nenhum homem acrescente e nem retire nada delas. Pois neste ponto o Senhor envergonhou os saduceus dizendo-lhes: &#8220;Errais, não conhecendo as escrituras&#8221;. E reprovou aos judeus dizendo-lhes: &#8220;Busca as escrituras, pois estas dão testemunho de mim</p>
</blockquote>



<p>Diante desta carta fica oficialmente decretado o esqueleto literário da Igreja, considerando-se tudo o que esteja além deste como apócrifo ou, melhor dizendo, não autêntico, duvidoso e, principalmente, fora da lei, constituindo uma heresia. Nos nossos dias ser considerado herege, longe de uma depreciação, equivale a pensador independente e de arrojada intelecção. Mas, naqueles tempos, o termo herege era uma ofensa grave, tornando-se aquele a quem o termo era agregado, passível de excomunhão. Aproximadamente no momento em que se transmitia a 39ª Carta de Athanasius, bispo de grande importância, conhecido por seu &#8220;dom&#8221; de introduzir o ódio e medo no coração dos não ortodoxos, um grupo de pessoas decidiu enterrar numa vasilha feita de argila vermelha 13 livros, atados com couro, que continham 46 textos diferentes e apócrifos. Muitos, principalmente os da Igreja, têm afirmado que o objetivo de quem os enterrou era propiciar o seu desaparecimento, mas isto não condiz nem com a forma habitual de destruí-los, que era queimando-os, nem com o cuidado com que foram guardados e que permitiu que se preservassem até ao nosso século. Quem quer que seja que os haja escondido demonstrou extremo carinho e extremo zelo na maneira como os escondeu na areia, demonstrando profundo amor pelas obras ali contidas.</p>



<p>A vasilha era como um pequeno útero que guardava, silenciosamente, um momento de nossa própria história. Em dezembro de 1945 e.v., três filhos de Ali e Umm-Ahmad, do clã al-Samman, Mohammed, Khalifa e Abú al-Majd estavam trabalhando perto de al-Qasr, povoado situado a 6 Km de Nag Hammadi, na estrada principal que conduz ao Cairo. O irmão mais novo, Abú, desenterrou a vasilha perto de uma pedra e o irmão Mohammed, dez anos mais velho, assumiu o descobrimento. A princípio não quiseram ver o conteúdo da vasilha com medo de que contivesse algum espírito maligno, mas depois retornaram ao local e a quebraram, tomando posse do seu conteúdo. Quando se aperceberam que seu conteúdo dizia respeito ao povo cristão se desinteressaram, queimando alguns e vendendo outros. Por este motivo, somado a motivos políticos e religiosos, muitos dos documento contidos na vasilha, permaneceram em mãos de particulares e ocultos por muito tempo, levando um considerável tempo até a sua publicação. Somente em 1977 e.v., 32 anos após o descobrimento dos escritos, é que se publicou pela primeira vez a biblioteca de Nag Hammadi. Se Mohammed Ali fosse capaz de ler copta, a língua do antigo Egito escrito em letras gregas, talvez tivesse atentado para o seguinte parágrafo, mudando, quem sabe, o destino dos apócrifos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Dar-te-ei o que nenhum olho jamais viu, o que nenhum ouvido jamais escutou, o que nenhuma mão jamais tocou e o que nunca foi pensado por nenhuma mente humana.</p>
</blockquote>



<h2 class="wp-block-heading">Conclusão</h2>



<p>Apesar da diversidade de seitas gnósticas que divulgam uma infinidade de pensamentos, conforme a compreensão do universo alcançada por seu fundador, existe um núcleo que parece exercer forte poder sobre elas, mantendo-as orbitantes em torno deste ensinamento, assim como os planetas giram em torno do sol. Este núcleo exprime a natureza divina do homem, o portador da centelha do Pai, e a necessidade, quase instintiva, de se retornar à origem de tudo, libertando-se da matéria, ou seja, retornar a Deus. O método ensinado em todas as seitas para se alcançar esta libertação caminha pela senda do autoconhecimento e pelo esforço pessoal. Não há uma fórmula salvadora e libertadora além do conhece-te a ti mesmo.</p>



<p>O que demarca a existência das diversas seitas gnósticas é a forma com que se exprime o mito da queda e o retorno à Luz Primordial, mas os gnósticos são os primeiros a afirmar que a verdade é universal, seja qual for a forma por ela adotada para se manifestar. O fato de termos diversos planetas orbitando em torno do sol não invalida a veracidade da existência de cada um deles, do mesmo modo, a existência de inúmeras seitas gnósticas não invalida a veracidade de cada uma delas, principalmente se atentarmos para o fato de que seu ensinamento é único.</p>



<p>Semelhante ao que ocorria no séc. II e.v., vemos nos nossos dias uma grande confusão política e social, levando a uma busca de novos valores e a uma consequente reinterpretação do mito divino com a formação de novas filosofias e religiões. O homem, indócil com sua condição, questiona suas origens e seu destino, buscando um caminho de libertação. As estruturas até agora vigentes se dizem herdeiras da sabedoria milenar e lutam pela manutenção do poder, acusando a sociedade emergente de herege e pecadora, passível de punição pela &#8220;bondade&#8221; divina. E ainda assim, mesmo sob a ameaça de excomunhão do reino de Deus, alguns homens e mulheres ousam erguer suas cabeças acima da ilusão moral criada e respirar outros mundos, criando outros pensamentos, outros conceitos de Homem, de vida e de Deus. Estes homens e mulheres ousam pensar: a grande blasfêmia! Estranho é que, justamente no atual contexto, a terra mãe comece a fazer ressurgir textos falando de outras realidades, outras possibilidades do ser, trazendo esperanças de um novo amanhecer.</p>



<p>Estaríamos nós, em pleno séc. XXI presenciando o ressurgimento do gnosticismo?</p>



<p>Não tenho resposta para esta questão. O fato é que ainda temos um longo caminho a percorrer. Somos como crianças que despertam de um longo sono, buscando ainda a coordenação de nossos próprios movimentos, tentando reaprender a andar e a pensar segundo nossa própria vontade. Despertos para uma realidade que ainda não compreendemos, buscamos reunir os retalhos que restaram do eclipse religioso a que inocentemente sucumbimos.</p>



<p>O que é realmente válido é que estamos todos, de uma forma ou de outra, buscando reencontrar nosso elo perdido e, neste momento de caos, é importante que relembremos o ensinamento não só gnóstico, mas de todas as eras: Homem, conhece-te a ti mesmo. </p>
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		<title>Gerald Gardner e a Influência de Crowley no Reviver da Bruxaria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Frater Kairós]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 May 2024 14:39:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Bruxaria]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Paganismo]]></category>
		<category><![CDATA[Wicca]]></category>
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					<description><![CDATA[Mesmo apesar muitos dos magos e bruxos de nossa atualidade negarem que Thelema e Crowley tiveram influência na renovação da bruxaria e na criação da Wicca, essa pesquisa mostra o contrário. Inspirado pelas conversas que tive com duas amigas sobre a famosa “Pink Wicca” e a forma que muitos magos e bruxos estão lidando com... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/gerald-gardner-e-a-influencia-de-crowley-no-reviver-da-bruxaria/">Leia mais</a></div>]]></description>
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<p>Mesmo apesar muitos dos magos e bruxos de nossa atualidade negarem que Thelema e Crowley tiveram influência na renovação da bruxaria e na criação da Wicca, essa pesquisa mostra o contrário. Inspirado pelas conversas que tive com duas amigas sobre a famosa “Pink Wicca” e a forma que muitos magos e bruxos estão lidando com a bruxaria atual, não tendo o mínimo de instrução ou curiosidade para ler sobre os precursores de seu sistema, resolvi fazer esse pequeno artigo. Vamos começar falando um pouco sobre a vida de Gardner.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Gerald Gardner</h2>



<p>Gardner é de origem Inglesa, nascido em 13 de Junho de 1884, nas proximidades de Liverpool. Ele mesmo afirma que a bruxaria sempre esteve presente na sua família desde Grissel Gardner, que foi queimada na fogueira como feiticeira em 1610, remontando até mesmo a sua Avó, que também teria sido feiticeira, como outros parentes de sua linhagem. Sofrendo muito de asma, Gardner foi morar em diversos locais com clima ameno juntamente com a empregada da sua família, Josephine “Com” McCombie. Morou nas Ilhas Canárias, Accra, Ilha da Madeira e Ceilão (atual Sri Lanka). Voltando mais tarde para Inglaterra, casou com uma dama chamada Donna durante 33 anos. Donna nunca fez parte de suas práticas (bruxaria ou feitiçaria), assim desmistificando o fato de alguns livros sobre Wicca serem de sua autoria.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Witchcraft Today</h3>



<p>Esse é um dos livros mais conhecidos do autor, que traz uma narrativa como a bruxaria sobreviveu até os dias atuais, alguns de seus ritos e inspiração. Neste livro, vemos que Crowley e Gardner pareciam ser amigos próximos. O livro não traz detalhes claros de como ambos se conheceram. Alude, apenas, a certo momento em que Gardner pretendia mostrar que o “círculo mágico das bruxas” diferia de outros métodos e que a única pessoa que poderia ter criado algo parecido seria Aleister Crowley. Quando Gardner encontra com Crowley, ele estaria mais interessado em escutar se Gardner já tinha reescrito alguns desses métodos usados pelas bruxas. Gardner revela apenas que  ingressou muito jovem nas práticas antigas e que não diria se tinha reescrito algo. Em outro momento, Gardner cita que Crowley estava interessado em cultos fálicos, assim como os membros de um lugar chamado Hellfire Club. Embalado nesse contexto, ele cogita que Crowley pertenceria ao “culto das Bruxas” e que certamente usou desse “culto” para elaborar rituais. Temos também outras menções a Crowley, como a alusão à cerimônia da Missa da Fênix, na qual se corta o próprio peito e se faz uso desse sangue. Gardner usou esse ritual para defender o argumento de que não era estritamente necessário matar algo para utilização de sangue.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Ye Bok of ye Art Magical</h3>



<p>Para muitos, esse nome é totalmente desconhecido. Já quando falamos do famoso “Livro das Sombras” gardneriano, é algo de reconhecimento instantâneo. Na verdade, ambos são quase o mesmo livro. O Livro das Sombras é uma versão resumida do Ye Bok of Ye Art Magical. O BAM (Ye Bok of Ye Art Magical) é um compilado de materiais que contém desde magia cerimonial salomônica até cultos relacionados às bruxas. Esse livro é a base de toda Wicca gardneriana e nele é onde encontraremos as maiores evidências que Crowley foi grande influência para Gardner. A primeira parte do BAM traz passagem quase completas da parte IV do Book 4 e também da primeira parte.  Há também muitas passagens de “A Árvore da Vida”, do Regardie. Na segunda parte nós temos, logo no início, uma descrição da bênção ao Pão e ao Vinho que consta na parte VI do Liber XV (a Missa Gnóstica da O.T.O.) e um conjunto de extrações consideravelmente iguais a do The Equinox Volume I Nº III. As partes três e quatro do BAM são as que mais chamam atenção: elas contêm seguimentos ritualísticos adotados para a Wicca que foram retirados na íntegra da Missa Gnóstica, do Livro da Lei, Supremo Ritual e do The Equinox volume 3, parte 1 (The Blue Equinox). Destaca-se, por exemplo, a citação completa pela Sacerdotisa dos versículos do Livro da Lei, com a omissão do verso 62 da fala de Nuit, a frase que Gardner transforma em característica fundamental de seu sistema: “Faze o que tu queres desde que não prejudiques a ninguém”, sua interpretação pessoal de “Faze o que tu queres será o todo da Lei”. E também quando o Sacerdote recita, ainda na Missa Gnóstica:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Oh, segredo dos segredos que estás escondido na essência de tudo o que vive, nós não Te adoramos, pois aquele que adora também és Tu. Tu és aquilo, e aquilo sou eu. Eu sou a chama que queima em todo coração humano, e no âmago de cada estrela. Eu sou a Vida e o doador da Vida; entretanto, o conhecimento de mim é o conhecimento da morte…</p>
<cite>Liber XV &#8211; A Missa Gnóstica</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading">Gardner e a O.T.O.</h2>



<p>Gerald Gardner foi mestre do corpo local da O.T.O. na Inglaterra e durante um curto período foi chefe da O.T.O da Europa, logo após a morte de Crowley. Já foi alegado que a carta de Crowley elevando Gardner ao VII ° e autorizando o mesmo a realizar iniciações em nome da Ordem seria forjada, pois Gardner teria escrito o conteúdo da carta e Crowley assinado. No entanto, o site <a href="https://geraldgardner.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener nofollow">www.geraldgardner.com</a> tem uma galeria de fotos que mostra a carta em seu estado original como prova de sua veracidade.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Considerações Finais</h2>



<p>Muitos livros de Gardner em português não são realmente de sua autoria ou de sua esposa. Podem ser de membros da Wicca gardneriana ou de outras pessoas e particularmente considero esse livros como as fundamentais causas de confusão sobre o assunto. Uma breve análise dos fatos já ilustra a grande influência de Crowley sobre os escritos do pai da Wicca. Eu espero que essa leitura seja de auxílio para aqueles que tem interesse pelo  tema e agregadora de conhecimento para os que desconheciam essas informações.</p>
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		<title>A Abadia de Thelema</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/a-abadia-de-thelema/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Al Dajjal]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 May 2024 18:06:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
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					<description><![CDATA[Faze o que tu queres será o todo da Lei. Foram mais de sete mil quilometros rodados, pelas estradas da Itália, Croácia e Sicília. Entre Novembro e Dezembro de 2004, fui a Zagreb e Roma para participar das Iniciações do IVº Grau, do Perfeito Iniciado e do Cavaleiro do Leste e Oeste da Ordo Templi... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/a-abadia-de-thelema/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Faze o que tu queres será o todo da Lei.</p>



<p>Foram mais de sete mil quilometros rodados, pelas estradas da Itália, Croácia e Sicília. Entre Novembro e Dezembro de 2004, fui a Zagreb e Roma para participar das Iniciações do IVº Grau, do Perfeito Iniciado e do Cavaleiro do Leste e Oeste da Ordo Templi Orientis, e da Recepção como Probacionista da A∴A∴ Na sequência, encontrei um grande amigo, Frater Gimel, e fomos visitar a Abadia de Cefalú. Resolvi então iniciar um outro blog, para marcar esta fase nova na minha vida e divulgar a Lei de Thelema, e nada melhor do que aproveitar algumas fotos da viagem, tiradas pelo meu companheiro, para ilustrar este artigo sobre a primeira utopia tentada no Novo Aeon.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Abadia de Thelema</h2>



<blockquote class="wp-block-quote has-text-align-right is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Cefalú realizes my idea of heaven.</p>
<cite>Aleister Crowley</cite></blockquote>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O Homem de Deus</strong></h3>



<p>O monge era formidável. Indignado com a hipótese de passar o longo Inverno sem sua bebida, pois uma turba lhe depredava as vinhas enquanto seus correligionários, apavorados, tocavam os sinos e entoavam litanias contra hostium insidias, tomou a viga de uma cruz, que bem dava para dura lança, e se lançou contra os invasores em grande carnificina.</p>



<p>Frei João era seu nome, e a façanha o fez convidado na corte do gigante Grangousier, onde iniciou sua amizade com o célebre Gargantua nas véspera de mais uma batalha contra o rei Picrochole, que lhes invadira o país por conta de alguns bolos roubados. Homem de variados conhecimentos, foi o bom frei que ao nervoso Gargantua ensinou não haver nada melhor para insônia do que sermões ou preces: decididos então aos sete salmos penitenciais, dormiram bem logo após as primeiras palavras&#8230;</p>



<p>Não que Frei João as tivesse poucas. Na manhã seguinte, encorajava o pequeno exército de Gargantua com a mais comovente das prédicas:</p>



<p>— Minhas crianças, não temam e nem duvidem, eu vou conduzí-los em segurança. Deus e São Benedito estejam conosco! Se eu tiver força na medida da minha coragem, pela morte, eu vou depená-los como patos. Eu nada temo além da grande ordenança; mas ainda eu sei de um encanto por meio de prece, que o subsextão de nossa abadia me ensinou, que preserva a pessoa da violência das armas e de todos os tipos de arma- de-fogo e outros engenhos; mas não vai me servir de nada, porque eu não acredito nele. Entretanto, eu espero que meu bastão da cruz irá neste dia causar partidas diabólicas contra eles!</p>



<p>E, com efeito, logo no primeiro encontro, foi o bom monge à carga contra um inimigo dez vezes maior. &#8220;Que diabo, o que mais devemos fazer? Vocês estimam homens pelo número mais do que pela coragem e valentia? Ataquem, diabos, ataquem!&#8221; Causando mais uma matança até cair prisioneiro. Mas não por muito tempo: logo tratou de matar seus dois vigias, mesmo um deles gritando que se rendia e entregava. &#8220;Eu te rendo e entrego,&#8221; disse o monge, &#8220;aos diabos todos do inferno.&#8221; E retornou vitorioso à corte, não sem antes causar mais muitas mortes e capturar o capitão da invasão.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma Recompensa Real</strong></h3>



<p>Mas quem era esse religioso extraordinário, tão capaz de usar o madeiro da Cruz na defesa do seu vinho? Qual a razão de sua presença quando viemos falar da Abadia que a Grande Besta criou na idílica Cefalú?</p>



<p>Apesar do menor número, era o exército de Gargantua dotado de tantos talentos extraordinários que não tardou o gigante a desbaratar seus inimigos. Chegou a vez de grandes festas e generosas recompensas, e a hora de começarmos a entender a utopia de Aleister Crowley.</p>



<p>Após premiar todos seus capitães, sobrara apenas o monge, mas este recusava ser tanto abade em Sevilha quanto em Bourgueil ou Sant Florent, ou mesmo de todas, caso quisesse. Mas a resposta do monge era mesmo peremptória: &#8220;Como posso ser capaz de governar os outros, eu que não tenho plenos o poder e o governo de mim mesmo?&#8221; O que ele solicitou, afinal, foi licença para criar uma abadia a seu jeito e gosto, e, agradado com a idéia, Gargantua ofereceu a ele o país de Theleme às margens do rio Loire, onde, atendendo ao pedido do bom frei, instituiu sua ordem religiosa ao contrário de todas as outras.</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Faze o Que Tu Queres</strong></h4>



<p>Primeiro, disse Gargantua, você não deve construir um muro ao redor do seu convento, pois todas as outras abadias são fortemente muradas e cercadas. Como em certos conventos do mundo costuma-se lavar o chão caso nele pise uma mulher, na nova abadia, caso nela entre algum membro de alguma ordem religiosa, todos os quartos serão limpos e lavados. E como em todos os outros monastérios tudo é compassado, limitado e regulado pelas horas, foi decretado que nesta nova estrutura não haveria relógio ou marcador, mas que, de acordo com as oportunidades e ocasiões, todas as horas fossem aproveitadas, pois, segundo Gargantua, a maior perda de tempo é justamente contar as horas. Não há maior desperdício no mundo do que guiar e dirigir seus afazeres pelo som de um sino, e não por seu próprio julgamento e discreção! E como não iam parar nos monacatos mulheres que não fossem feias, tolas, corruptas, inválidas e desfavorecidas, e nem enclausurados quaisquer homens que não fossem doentes, sujeitos a deflexões, mal-nascidos ou esquisitos (pois, como bem ponderou o monge, para que servia uma mulher que não fosse nem bela e nem boa? Para ser monja, concluiu Gargantua), foi ordenado que nesta nova ordem religiosa só seriam admitidas mulheres belas, bem criadas e de disposição agradável, e também apenas homens bem apessoados e bem educados. E não poderiam lá haver homens se não houvessem mulheres, e vice-versa, ao contrário dos demais conventos, onde os sexos só se misturavam às escondidas. Ao contrário das ordens onde, após o período de probação, era se obrigado a servir pelo resto da vida, dali se poderia partir em paz e contentamento quando bem se quisesse. Em oposição aos votos de castidade, pobreza e obediência, todos deveriam ser honradamente casados, ricos e viverem em liberdade. As mulheres poderiam ser iniciadas dos dez aos quinze anos, e os homens dos doze aos dezoito.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A Arquitetura da Utopia</strong></h3>



<p>Gargantua fez construir um prédio hexagonal, com uma torre em cada canto. No lado Norte, ladeando o Loire, estava a torre chamada Arctica. Indo em direção ao Leste, havia outra chamada Calaer, a seguir Anatólia, Mesembrina, Hespéria e Criere. Eram seis pavimentos, contando o subsolo, e o conjunto todo era mais magnificiente do que os festejados palácios de Bonnivet, Chambourg ou Chantilly. Os novos religiosos contavam com grandes bibliotecas em Grego, Latim, Hebraico, Francês, Italiano e Espanhol. Haviam galerias de arte e locais para a conversa, o desporto e o descanso. E, entre as torres Anatólia e Mesembrina, um grande arco, onde se lia em grandes letras antigas:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Aqui não entram vis fanáticos, hipócritas<br>Macacos exteriormente devotados, baixos &#8220;snites&#8221;<br>Estufadas, retorcidas bestas, piores do que os Hunos<br>Ou Ostrogodos, precursores dos babuínos<br>Cobras amaldiçoadas, fomentadores de divisão e debates<br>Em outra parte, não aqui, façam venda de seus enganos.<br>Aqui somos muito<br>Folgados e alegres,<br>E livres de todo enredamento,<br>Graça, honra, louvor, deleite<br>Aqui residem dia e noite<br>Corpos aptos alinhados<br>com uma boa mente<br>buscam com vigor<br>Graça, honra, louvor, deleite.<br>A santa e sagrada Palavra,<br>Possa sempre conceder<br>A todos nós em comum<br>Tanto a homens e mulheres<br>Um escudo e uma espada espirituais<br>A santa e sagrada Palavra.<br>Deus nos dá, Deus nos perdoa<br>E de todos os males nos livra<br>Para que nós o tesouro<br>Possamos colher de prazer<br>E banir tudo o que for aflitivo,<br>Deus nos dá, Deus nos perdoa.</p>
<cite>La Vie de Gargantua et de Pantagruel, Livro I</cite></blockquote>



<h4 class="wp-block-heading">Um Passeio Pela Abadia</h4>



<p>No meio da corte inferior havia uma fina fonte de belo alabastro. No topo, estavam as Três Graças com suas cornucópias, ou chifres da abundância, e lançavam água de seus seios, bocas, ouvidos, olhos e demais passagens abertas do corpo. O interior do prédio, nesta corte inferior, estava suspenso sobre grande pilares de pedra calcedônia, e o mármore porfírio fazia arcos em uma boa forma antiga. Entre estes estavam espaçosas galerias, longas e largas, adornadas com curiosas pinturas, e os chifres de bodes e unicórnios, e com rinocerontes, os cavalos aquáticos chamados hipopótamos, os dentes e chifres de elefantes e outras coisas dignas de serem vistas.</p>



<p>No exterior, ficavam o hipódromo, o teatro, a piscina. Ao lado do rio, um belo jardim de prazer, e no meio deste um glorioso labirinto. Havia quadras para o tênis, e, próximo da torre Criere, um pomar repleto com todas as árvores frutíferas, arrumadas em ordem quincuncial. Ainda se via um grande parque, locais para o treino de tiro e do arco, estábulos, a falcoaria, o canil.</p>



<p>A decoração era caprichada e rica, com toda a sorte de tapeçarias e enfeites, de acordo com cada estação do ano. As camas eram todas adornadas. Em todo quarto havia um espelho de cristal puro colocado em uma moldura de ouro fino, encrustado com pérolas, e de tal tamanho que a pessoa podia se ver por inteiro. Os cômodos eram providos com as mais sutiz essências, como o perfume de rosas, água de cheiro de laranja e angélica, e, em cada um, uma cesta de onde evaporavam as exalações odoríferas das essências aromáticas preferidas..</p>



<h4 class="wp-block-heading"><strong>Um Novo Estilo de Vida</strong></h4>



<p>É de se notar que as mulheres de Theleme se trajavam de púrpura e escarlate, sobre os quais se usava ricos adereços. O homens portavam todos adagas douradas.</p>



<p>Suas vidas não eram gastas em leis, estatutos, ou regras, mas de acordo com suas livres vontades e prazeres. Eles saíam da cama quando achavam bom; eles comiam, bebiam, trabalhavam, dormiam quando a isso de determinavam e se achavam dispostos. Ninguém os acordava, ninguém os constrangia a comer, beber, e nem a fazer qualquer outra coisa, pois assim estabelecera Gargantua. No todo, sua regra e a mais estrita&nbsp;norma&nbsp;de sua ordem era apenas esta cláusula, a ser observada:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Do What Thou Wilt.</p>
<cite>La Vie de Gargantua et de Pantagruel, Livro I</cite></blockquote>



<p>Porquê homens que são livres, bem-nascidos, bem-criados e conversados em companhias honestas, tem naturalmente um instinto e inclinação que os prontifica a ações virtuosas e os afasta do vício, o que é chamado de honra. Estes mesmos homens, quando por baixa sujeição e contrangimento são colocados para baixo, afastam-se dessa disposição nobre pela qual eles eram antes inclinados à virtude, para sacudir e quebrar esse laço de servidão, no qual são tiranicamente escravizados; pois é concorde com a natureza humana anelar pelas coisas proibidas e desejar aquilo que nos é negado.</p>



<p>Por esta liberdade eles entraram em uma muito louvável emulação, de todos fazerem aquilo que viam agradar a um deles. Se um dos galantes ou uma das damas dizia &#8220;Vamos beber&#8221;, eles todos bebiam. Se alguém dissesse &#8220;Vamos jogar&#8221;, todos jogavam, e mesmo assim em toda e qualquer atividade.</p>



<p>Tão nobremente eram eles ensinados, que não haviam um sequer entre eles que não pudesse ler, escrever, cantar, tocar vários instrumentos musicais, falar cinco ou seis línguas, e compor em todas elas muito elegantemente, tanto em verso quanto em prosa. Nunca se viu tão galantes cavaleiros, tão nobres e tão meritórios, tão dextros e habilidosos tanto a pé quanto a cavalo, nem mais ágeis e rápidos, ou melhor treinados em todos os tipos de armas quanto lá havia. Nunca se viu damas mais próprias e belas, mais aptas em qualquer ação livre e honesta, do que lá.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um Santo Libertário</strong></h3>



<p>A utopia mais antiga criada pelo ser humano foi a república platônica, onde homens e mulheres, selecionados e treinados para serem os filósofos-guardiães da cidade, dividiam as responsabilidades tanto na paz quanto na guerra. A Abadia de Theleme é uma das muitas variações dadas ao tema no passar do tempo, e concorda com o fato de que uma sociedade ideal só é possível com seres humanos ideais, e isto só pode vir a existir em um ambiente educacional apropriado. Seu visionário foi François Rabelais, cujos escritos são considerados como precursores da Lei de Thelema, e contém até mesmo uma passagem que Crowley bem achou profética a seu respeito:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>O que est a reverer<br>Cil que pourra en fin perseverer</p>
<cite>La Vie de Gargantua et de Pantagruel, Livro I</cite></blockquote>



<p>Aquele que é apto a perseverar até o fim, interpretou Crowley no seu artigo &#8220;The Antecedents of Thelema&#8221;, deve ser abençoado com adoração. E o que é este &#8220;Eu vou perseverar até o fim&#8221;, continua, &#8220;mas Perdurabo, o motte mágico na primeira iniciação do Mestre Therion?&#8221;²</p>



<p>Rabelais nasceu em data incerta lá pelo último quarto do Século XIV, em Touraine. Ele estudou com os Beneditinos e depois com os Franciscanos, aos quais se juntou por quinze anos e dos quais recebeu as Ordens Santas. Mas o jovem religioso tinha uma sede de conhecimentos que era bem da época, pois estávamos já no Renascimento, e da qual os Franciscanos não pareciam compartilhar. Daí deixar o convento, para mais tarde, com a mediação do Bispo Geoffroy d&#8217;Estissac e o perdão papal, entrar na abadia Beneditina de Maillezais. Dizem as más línguas que o favor episcopal lhe passava pelo rabo&#8230; Em 1530 foi estudar Medicina em Montpellier, se tornando logo professor de anatomia e médico-chefe. Foi pai de uma criança que não sobreviveu, e, levado a Roma como médico, obteve novamente o perdão do Papa da vez . Recebeu o grau de Doutor de Medicina em 1540, e depois passou a levar uma vida itinerante em Turin, Metz e Paris, onde faleceu no final da década de 50, em ano incerto. Alguns dizem que morreu como livre-pensador, e que sua palavras finais foram: &#8220;Fechem as cortinas, a farsa já foi encenada.&#8221;</p>



<p>Rabelais escreveu várias obras, mas se tornou mesmo famoso com &#8220;La Vie de Gargantua et de Pantagruel&#8221;, dividida em cinco livros, dos quais o primeiro e o último são os mais importantes no entendimento de Thelema. No Livro I encontramos a criação da Abadia e a famosa frase &#8220;Faix que tu veux&#8221;, e, no último, acompanhamos Pantagruel até o Oráculo da Garrafa e seu segredo final, que é a palavra &#8220;TRINC&#8221;, que Crowley utilizou no seu Liber Aleph:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Agora, ao Fim de tudo, chegou eu ao Seu Princípio, além do Por-vir, e grito alto minha Palavra, tal como foi dada ao Homem por aquele Tio Alcofribas Masior, o Oráculo da Garrafa de BACBUC, e sua Palavra é <strong>TRINC</strong>.</p>



<p>A resposta do Oráculo, conforme revelou a Sacerdotiza Bacbuc após consulta ao Livro Sagrado, significava que o confuso Panurge deveria encher a cara para encontrar, dentro de si mesmo, a resposta para se deveria ou não casar. O que aqui se implica é que, descondicionado pelo efeito do vinho, o homem encara aquilo que realmente deseja, e Panurge, mesmo receoso de um dia ganhar belo par de chifres, descobre que realmente queria o matrimônio. Crowley indicava por isto que, liberada dos bloqueios impostos pela sociedade, família e cultura, a Verdadeira Vontade se manifesta naturalmente, e o ambiente thelemico deveria, assim, ser o meio tanto de descoberta quanto de apoio � sua realização.</p>



<p>François Rabelais foi canonizado na lista de Santos da Ecclesia Gnóstica, e a Enciclopédia Católica, a respeito da sua obra, conclui que &#8220;No todo ela exerce uma influência condenável&#8221;.</p>
<cite>Liber Aleph</cite></blockquote>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um Mestre em Apuros</strong></h3>



<p>Foi em um dos períodos difíceis da sua vida que Crowley decidiu se estabelecer em Cefalú. Ele já havia gasto sua herança em viagens pelo mundo, expedições aos Himalaias e publicações caras de seus próprios livros, e experimentara momentos de penúria nos Estados Unidos. A campanha da imprensa sensacionalista contra A Grande Besta já se iniciara, com os ataques virulentos de Horatio Bottonley no periódico John Bull. O fato do próprio Horatio ter sido depois condenado a sete anos de prisão por fraude, e ter morrido na pobreza seis meses depois de libertado, em 1927 (Crowley alegou em razão de seu poder mágicko&#8230;), não serviria para amenizar o desgaste da reputação de Crowley, que, ironicamente, nunca foi condenado judicialmente.</p>



<p>Com problemas financeiros, perseguido pela imprensa marginal, sofrendo seriamente de asma e bronquite e responsável por duas mulheres, uma delas grávida, e mais dois enteados, Crowley resolveu mudar de ares, procurando um lugar onde sua saúde pudesse se restabelecer, e onde, também, fosse possível fundar uma comunidade onde iniciados praticassem a Magick e aprendessem sobre as bases da Lei de Thelema, bem longe da hipocrisia do mundo. Esta comunidade seria</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>[&#8230;] um arquétipo de uma nova sociedade. O mais importante princípio ético é o de que cada ser humano tem seu próprio e definido objetivo de vida. Ele tem todo o direito de realizar seu propósito, e nenhum de fazer qualquer outra coisa. É a função da sociedade ajudar cada um de seus membros a alcançar este objetivo; por conseqüencia, todas as regras deveriam ser feitas, e todas as questões de conduta decididas, pela aplicação deste princípio às circunstâncias.</p>
<cite>Confessions</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Cefalú</strong></h2>



<p>Não se sabe ao certo de onde Crowley tirou a idéia de ir a Cefalú, mas sua decisão foi tomada graças a uma consulta ao I Ching. Ele provavelmente procurou por lugares propícios no atlas, utilizando os Hexagramas divinatórios para descreverem o local ideal ou fornecerem augúrios. Enquanto Leah Hirsig, sua atual Mulher Escarlate, ia a Londres com a filha recém-nascida, Poupée, ele partiu com Ninette Shumway e os garotos Hansi e Howard, parando em Marselha, em Nápoles (onde enrabou Ninnete durante um ritual, para favorecer magickamente a viagem&#8230;), chegando, afinal, em Cefalú no dia 31 de Março de 1920.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Nós lá chegamos no último dia de Março. Eu não poderia duvidar de que os deuses nos guiaram os passos par que encontrassemos um hotel tão sórdido, sujo e desagradável. Eu jurei que não passaria ali mais uma noite. Os deuses se erguerão conforme a ocasião. Um homem chamado Giordano Giosus apareceu depois do almoço e disse ter uma vila para arrendar. Qualquer um que conheça a Itália irá apreciar a magnitude deste milagre. Para se realizar o mais banal negócio é preciso o máximo de boa sortee pelo menos um mês antes de se fazer o primeiro gesto.</p>



<p>Giosus me levou até o alto da colina e lo! Uma vila que bem podia ter sido feita sob encomenda. Ela preenchia todas as minhas condições; desde tendo um pocó de água deliciosa até um vasto estúdio aberto para o Norte. Os deuses não correram riscos. Eles queriam que eu vivesse ali e se guardaram contra qualqeur possível perversidade da minha parte plantando duas altas palmeiras da Pérsia perto da casa. Elas podiam bem ser as mesmas árvores da Villa Caldarazzo, as quais, como já disse, eu havia tomado como um sinal nos dias de Ab-ul-Diz. Fiz uma barganha ali mesmo, mandei buscar a família, e a mobília com todos nossos pertences foi instalada no mesmo dia. Nós contratamos um homem para fazer as compras, cozinhar e lavar; e lá estávamos tão em casa quanto uma múmia em uma pirâmide, no ponto mais adorável do Mediterrãneo.</p>
<cite>Confessions</cite></blockquote>



<p>Cefalú é uma pequena cidade medieval, construída no local de um antigo agrupamento Sicaniano e, depois, Grego, a 75 km de Palermo, na costa Norte da Sicília. Seu nome deriva de &#8220;Cephaloedion&#8221;, que significa cabo. Sua arquitetura apresenta os traços das ocupações Normandas, árabes e Bizantinas, principamente na Catedral. A paisagem é dominada pela Rocha, uma grande formação abrupta quase a beira-mar, onde se encontram as ruínas do Templo de Diana, cuja fundação megalítica é uma das estruturas arqueológicas mais antigas da ilha e, no topo, os restos da fortificação Normanda dos Séculos XI e XII que dominam toda a paisagem.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Paradigmas</strong></h3>



<p>O período de 3 anos que Crowley passou em Cefalú é extremamente importante para a compreensão da proposta thelemica, pois ali ocorreram vários fatos que lançam luz sobre as dificuldades práticas do ideal proposto por Crowley, assim como nos fornecem, pelo menos, um bom exemplo da eficácia do seu método. Além de ter sido a primeira tentativa de se colocar em prática o modus vivendi pregado pelo Livro da Lei, a Abadia também se notabiliza por ter sido o palco da última e maior iniciação de Crowley, a assunção ao Grau de Ipssissimus.</p>



<p>Crowley seguiu por toda a sua vida o sistema de iniciações proposto pela Golden Dawn, baseado na árvore da Vida. As realizações do magista são ali definidas em dez etapas e três ordens, a propriamente chamada de Golden Dawn indo de Malkuth a Netzah, contendo os Graus de Neophyto 1º = 10<sup>□</sup>, Zelator 2º = 9<sup>□</sup>, Practicus 3º = 8<sup>□</sup> e Philosophus 4º = 7<sup>□</sup>, a Ordem chamada R.C indo de Tiferet a Hesed, Adeptus Minor 5º = 6<sup>□</sup>, Adeptus Maior 6=5 e , Adeptus Exemptus 7º = 4<sup>□</sup>. Até aqui, o iniciado havia alcançado a perfeita maestria magicka, tendo descoberto sua Verdadeira Vontade e os meios de realizá-la. A Terceira Ordem, a única que é propriamente chamada A∴A∴ ou também S.S. (siglas cujos verdadeiros significados só os iniciados sabem), permanece reservada àqueles capazes da difícil ordália de cruzar o Abismo, após a qual se encontram os Graus de Magister Templi 8º = 3<sup>□</sup>, Magus 9º = 2<sup>□</sup> e Ipssissimus 10º = 1<sup>□</sup>.</p>



<p>A iniciação de Crowley ao Grau de Magister Templi ocorreu em 1909, durante os dias de peregrinação pelo Saara ao lado do seu discípulo e amante Victor Neuburg. Durante esse período, os dois invocaram os restantes 28 Aires do Sistema Enochiano (os Aires 30 e 29 haviam sido visitados por Crowley em 1900 no México), e seu relato compreende a obra chamada Liber 418 — A Visão e a Voz, um dos textos mais importantes para o entendimento do processo mágicko do Novo Aeon. A tarefa do Mestre de Templo nele é definida como a de cuidar de um jardim, onde cada planta recebe o regime que lhe é adequado. Uma delas, eventualmente, se tornará um novo Mestre de Templo, mas não compete a este tentar divinar o evento, mas apenas cumprir a obrigação do Grau.</p>



<p>O Grau de Magus foi alcançado durante a estadia de Crowley nos EUA, de 1914 a 1919. A função do Magus, sendo a de proclamar a Palavra que define o Aeon, com a qual ele deve se identificar em todos os aspectos, teria sido apenas compartilhada na História por um pequeno grupo de escolhidos, além de Crowley: Lao-tze, Gautama, Krishna, Dionísio, Tahuti, Moisés e Maomé.</p>



<p>O último nível a ser alcançado era, portanto, o de Ipssissimus, do qual pouco ou nada se sabe realmente. Considera-se o Ipssissumus demasiado elevado para o entendimento humano, estando no mesmo nível dos deuses e além do bem e do mal, o que, entretanto, pode ser dito em geral de todos aqueles que cruzaram o Abismo, se tornando Mestres Secretos. Crowley hesitou em assumir o Grau:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>&#8220;Eu estou mortalmente temeroso de fazê-lo. Eu temo ser chamado a realizar algum ato insano para provar meu poder de agir sem nenhum escrúpulo.&#8221;</p>
<cite>Confessions</cite></blockquote>



<p>Mas, ele foi em frente, entrando no Templo na primavera de 1921, acompanhado pela Mulher Escarlate Alostrael. Nada escreveu sobre a cerimônia, tendo entrado e saído nu, e apenas registando no final:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Como um deus vai, eu vou.</p>
<cite>Confessions</cite></blockquote>



<p>Não é certo se Leah chegou a saber do propósito da cerimônia, pois Crowley jurou guardar segredo, mantendo a informação do seu novo Grau apenas no seu Diário, e fazendo dela, anos mais tarde, uma breve menção no Magick — Book Four:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Eu, a Besta 666, levanto a minha voz e juro que eu mesmo fui erguido por meu Anjo  — também me fez Ele um Magus — Sim, ele realizou em mim uma Obra de Maravilha além desta, mas sobre este assunto eu jurei guardar a minha paz.</p>
<cite>Liber ABA &#8211; Book 4</cite></blockquote>



<p>É parte deste sucesso individual, o resto do empreendimento estava bem abaixo das idílicas descrições dadas por Crowley na sua autobiografia Confessions, que começou a ser ditada ainda em Cefalú. O difícil ideal de comportamento thelemico exigido dos membros da Abadia não impedia os atritos por ciúmes entre Leah, a Mulher Escarlate, e Ninette, a Primeira Concubina. Ele mesmo tinha dificuldades de suportar o arrendatário da Abadia, o Barão Carlo la Calce, que acabou engravidando Ninette, o que vem a demonstrar a tese há muito defendida por mim, de que todo mundo é muito thelemita até levar um chifre&#8230; Confrontações entre Crowley e outros membros, como Mary Butts e Betty May, que, acompanhando seus maridos, tinham horror à Grande Besta, eram comuns. Crowley ainda cobrira as paredes da casa com as famosas pinturas referentes à magia sexual, o que causava choque e desconforto em algumas pessoas. O ideal thelemico já se mostrava, desde a sua primeira tentativa, difícil de ser aplicado, basicamente porque as pessoas envolvidas estavam muito abaixo daquilo que delas se esperava. Um dos membros da comunidade, por exemplo, Cecil Frederick Russel, foi já paradigma do tipo de perturbado mental que Thelema viria a ser pródiga em alistar, para quem Do what thou wilt seria apenas uma desculpa filosófica para se dar livre freio a todos os caprichos de uma personalidade desestruturada. Russel chegou em Cefalú em Novembro de 1920, tendo conhecido Crowley pessoalmente em 1918, e sendo um dos primeiros membros da A.·.A.·. nos Estados Unidos. Ele havia sido expulso da Marinha após ingerir uma alta quantidade de cocaína e tentar mover um navio sozinho, sendo, afinal, contido à força. Russel se recusava frontalmente a qualquer noção de disciplina e autoridade, e, quando teve que ceder seu espaço na casa para um recém-chegado, Frank Bennet, exilou-se no alto da Rocha, onde jurou permanecer por oito dias dedicado às mais severas austeridades, como, por exemplo, não permitir que uma gota de água sequer tocasse sua face. Desceu no dia seguinte, após passar o tempo decifrando os arcanos dos mais altos graus iniciáticos jogando e contando pedregulhos.</p>



<p>Por outro lado, Frank Bennet, o Frater Progradior da A∴A∴, é considerado o exemplo do sucesso possível de ser alcançado pelo sistema desenvolvido por Crowley, que escreveu que &#8220;Meu sucesso com ele é o bastante para apagar doze fracassos ou mais.&#8221; Bennet era Neófito da A∴A∴ por mais de 11 anos, durante os quais tinha tido pouco progresso, segundo Crowley por falta de uma guia pessoal. &#8220;Ele chegou cansado da vida, deseperançado da verdade.&#8221; Crowley prossegue:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Eu comecei meu treinamento com uma regra geral prescrevendo algumas práticas preliminares que são universalmente benéficas. No meio tempo eu observei quietamente por sintomas pelos quais determinar o diagnóstico. Ele era mesmo um caso difícil, eu estava intrigado. Havia mesmo alguma coisa muito errada, mas eu não podia imaginar o quê. É claro que em meu eu consciente sou sempre estúpido, mas o Magus que me usa sabe seu trabalho.</p>



<p>Uma tarde nós fomos nadar com o Macaco (Leah, que tinha o título de Macaco de Toth). Eu falava enquanto andávamos sem objetivo, e justamente quando chegamos na ponta do precipício fiz alguma observação casual que provou ser um tiro certeiro.&#8221;</p>



<p>Assim que chegou de volta na Abadia, Bennet entrou em um transe que durou três dias, após os quais, parecendo a própria encarnação da alegria, pôde explicar ao Mestre o que havia acontecido. Crowley lhe prescreveu então um Retiro Mágicko, para que aquele alcance fosse fixado em si. Ele ficou tão animado com o sucesso inesperado do discípulo, que se sentiu inspirado a preparar um ritual aperfeiçoado para a realização do Conhecimento e Conversação com o Santo Anjo Guardião, que veio a ser o Liber Samekh. O Retiro foi também um grande sucesso:</p>



<p>O Espírito do Senhor desceu sobre ele e abriu seus olhos para uma série de visões muito mais exaltadas e intensas do que qualquer coisa que ele jamais havia experimentado.</p>



<p>Em paralelo à sua realização espiritual, seus poderes mentais e físicos foram renovados como os da águia. Sua depressão sumiu e foi substituída por calma, alegria profunda, transbordante e manifesta a todos nós. Ele começou a fazer longas caminhadas solitárias pelas colinas e percorria suas vinte milhas por dia como não havia feito por um quarto de século. Nós sentimos como um verdadeiro luto quando chegou o tempo dele retornar a Sydney.</p>
</blockquote>



<p>Apesar deste sucesso, a Magick de Crowley parecia ser totalmente inútil em todas as demais áreas da sua vida, e uma série de desventuras terríveis se abateram sobre ele, começando com a morte da sua filha Pouppé, em 14 de Outubro de 1920. Seis dias depois Leah abortou, perdendo o filho que Crowley esperava que viesse a ser o veículo para a manifestação física de Aiwass, seu Anjo Guardião. Na sua autobiografia, ele registrou os seguidos colapsos emocionais que a morte das filhas lhe trouxeram (ele já perdera outra, no seu primeiro casamento), e que, por ter assumido o juramento de apenas utilizar a sua Magick na consecução da sua missão junto à Humanidade, era agora incapaz de interferir até mesmo no destino das pessoas que amava. A impotência do Ipississimus ainda seria mais uma vez duramente demonstrada.</p>



<p>Em 1922, em visita à Inglaterra, Crowley conheceu Frederick Charles Loveday, durante palestras públicas para a promulgação da Lei de Thelema. Loveday era fascinado pelo ocultismo, e havia se formado com um ensaio sobre a importância da Magia na Idade Média. Crowley ficou maravilhado, considerando que seu mais novo discípulo era extraordinário, possuindo todas as qualificações, não só para se tornar um magista de primeiro nível, mas seu próprio Herdeiro mágicko. O rapaz e sua esposa, Betty May, viajaram para a Sicília e chegaram na Abadia no dia 26 de Novembro, onde Loveday foi iniciado na A.·.A.·. com o motte mágicko de Frater Aud e se tornou secretário da Besta. Morreria no dia 14 de Fevereiro, vítima de uma infecção aguda, após uma cerimônia bizarra onde Crowley o mandou sacrificar um dos gatos que sua esposa alimentava e beber seu sangue. Nunca se precisou se a doença foi causada pela ingestão do sangue ou por Loveday ter bebido de uma fonte d&#8217;água durante um passeio com Betty, desobedecendo as ordens de Crowley de que os membros da Abadia só consumissem água fervida.</p>



<p>O incidente e a campanha jornalística que se seguiu acabaram por chamar a atenção de Benedito Mussolini, que ordenou uma investigação. Apesar do parecer dos investigadores não ter sido particularmente ruim, o Duce ordenou que saísse do país.</p>



<p>Aleister Crowley foi expulso de Cefalú e da Sicília em primeiro de Abril de 1923, indo se refugiar inicialmente em Túnis. Ele tinha expectativas de ser aceito de volta, mas logo percebeu que eram esperanças vãs. Durante algum tempo pensou em fundar uma nova Abadia na ilha de Zembra, para a qual pretendia selecionar melhor os candidatos, com isto admitindo, mesmo sem querer, que, afinal, antes de ser para todos, talvez seja a Lei apenas para os poucos e escolhidos.</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Eu Na Abadia</strong></h2>



<p>Na seqüencia de minhas últimas iniciações na Loja Mirrash em Zagreb, e da minha Recepção na A∴A∴ em Roma, viajei para Cefalú na companhia do meu amigo Frater Gimel, chegando na madrugada de 2 de Dezembro, um dia após o 57º aniversário da morte de Aleister Crowley. Após pernoitarmos nas ruínas da Chiesa de Santanna, ao lado do Templo de Diana, compramos uvas e fomos seguir o mapa precário que um Frater de Florença nos havia fornecido. A Abadia hoje se localiza ao lado de um pequeno estádio de futebol, e, após invadir uma ou duas propriedades por engano, telefonamos para Florença para pedir mais informações. Para futuros invasores, digo, visitantes, esclareço: é preciso pular a cerca de metal no fundo do estacionamento e atravessar um túnel nos arbustos. A frente da casa (vista na primeira foto deste artigo) se encontra bloqueada, e o acesso só é possível pulando a janela. Este detalhe me levou a dar uma viajada em questões cabalísticas ligadas à troca de Cheth por He na Fórmula Abrahadabra&#8230;</p>



<p>Já dentro, você se encontra na sala do Templo, onde podem ser vistas algumas das pinturas feitas por Crowley, e algumas adições mais recentes. O cômodo seguinte está cheio de entulho, e o que vem depois tem o teto desabado. É uma casinha pequena, que não faz juz aos elogios exagerados de Crowley.</p>



<p>No Templo existe agora um pequeno altar, prova de que o lugar deve ser freqüentado com certa assiduidade. Utilizei o mesmo para executar o ritual do Liber Samekh, utilizando a minha nova versão da Estela com os Atu XX e XI, o Liber Legis que recebi em Zagreb e a Adaga Mágicka que encontrei em Roma no dia da minha Recepção na A∴A∴ As cerimônias mágickas que conduzi em Cefalú tiveram efeitos inesperados bastante interessantes, que, by now, entretanto, dizem respeito apenas ao meu Instrutor da A∴A∴</p>



<p>Ao contrário do que se imagina, a qualidade do Astral ali é boa, com uma energia leve e colorida. As pinturas, que nas fotos geralmente parecem sinistras, são, na verdade, alegres e agradáveis quando vistas no local. Aqui se encerra uma lição, para os que ousam ir e ver.</p>



<p>Amor é lei, amor sob vontade.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<ol class="wp-block-list">
<li>&#8220;Faictz ce que voudras&#8221; no original de 1534, ou &#8220;Fais ce que veulx&#8221; em Francês moderno.</li>



<li>Publicado no Oriflame 2, &#8220;The Revival of Magick&#8221;. O original diz: &#8220;(&#8230;) he indicates the Master Therion by name! The very last verse of his oracle runs thus: &#8220;O que est a reverer /Cil que pourra en fin perseverer&#8221;. He who is able to endure unto the end, he insists, is to blessed with workship. And what is this &#8220;I will endure unto the end&#8221; but Perdurabo, the magical motto at his first initiation of the Master Therion?&#8221;</li>
</ol>
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		<title>(O)culto Feminino</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/oculto-feminino/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater H.H.A.]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 May 2024 16:31:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[As histórias das ordens ocultistas e religiosas no ocidente marcam momentos significativos desta ou daquela escola de mistérios, grupos de fiéis irmãos, iniciados reconhecidos como iguais, no direito de compartilhar experiências secretas mágico-religiosas proibidas aos homens e mulheres desprovidos da sutil capacidade de compreender os mistérios entre o Céu e a Terra. Se por um... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/oculto-feminino/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As histórias das ordens ocultistas e religiosas no ocidente marcam momentos significativos desta ou daquela escola de mistérios, grupos de fiéis irmãos, iniciados reconhecidos como iguais, no direito de compartilhar experiências secretas mágico-religiosas proibidas aos homens e mulheres desprovidos da sutil capacidade de compreender os mistérios entre o Céu e a Terra.</p>



<p>Se por um lado os homens (que ostentavam algum poder aquisitivo ou prestígio) possuíam cadeira cativa nesse processo gregário chamado ocultismo, as mulheres, por outro lado, foram deixadas como coadjuvantes anônimas da história. Parte da culpa deve-se aos rumos do cristianismo europeu, onde a criação das ordens Segunda ou ordens femininas dentro do catolicismo, pouco ou nenhuma expressão trouxe ao desenvolvimento da teologia e liturgia cristã, lugar esse atribuído aos homens da fé, que devotavam sua castidade em oferta a Deus e a Igreja. A missão de uma ordem Segunda era determinada pelo seu tamanho e pelo(a) santo(a) de devoção. Assim, a missão hospitalar, monástica, educacional e catequização foram algumas das práticas realizadas por tais mulheres em conventos, abadias ou comunidades católicas.</p>



<p>O protestantismo não trouxe maiores mudanças ao lado feminino da balança. Com exceção das rainhas britânicas Elizabeth I e Vitória, o desempenho social e religioso das mulheres era parco, alegoricamente presas na visão fundamentalista da mulher educada para seu marido ou, em contrapartida, daquela que trazia o pecado carnal e a desgraça (financeira, principalmente). A responsável pela queda do Homem daquele paraíso primordial ou verdadeira desmoralização social, exemplificado nas pinturas do holandês Vermeer Von Delft.</p>



<p>O panorama social não mudou muito até a 2ª Revolução Industrial inglesa e, posteriormente, francesa, quando mulheres desempenhavam (por baixos salários) atividades antes masculinizadas, além do desenvolvimento dos transportes ferroviários e náuticos, permitindo as trocas comerciais favoráveis aos paises capitalistas e as culturais, surgindo um industria cultural de olho na mulher consumidora. O papel da mulher na sociedade industrial foi crescendo paulatinamente, em sociedades conflituosas com tais mudanças. A expansão inglesa e francesa reabriu caminho para o diálogo oriente-ocidente, sendo a primeira comparada a uma &#8220;senhora elegante, sábia e perigosamente misteriosa&#8221;.</p>



<p>O oriente precisava ser domado, destrinchado e reordenado pela cultura ocidental, a sociedade patriarcal cristã era o parâmetro para essa ordenação. Muitos curiosos, pesquisadores antropológicos, etnógrafos ou mesmo bon vivents partiam para a ásia a procura de expansão de merca do, além de mistérios alquímicos contados em lendas hindus e chinesas, a austeridade budista e o ópio. O expansionismo trouxe ao europeu o dilema de que era possível o desenvolvimento cultural por caminhos diferentes da história européia e, num dado momento, era possível lucrar com o exótico oriente.</p>



<p>Por outro lado, três pensadores modernos questionaram os alicerces da sociedade moderna com a veemência revolucionária que faltava aos descontentes: primeiro Karl Marx e sua crítica histórica a sociedade fundamentada no capital; Sigmund Freud, com sua análise do Homem através do campo psicanalítico, abrindo caminho para o estudo do inconsciente como ciência médica; Friedrich Nietzsche e sua filosofia que rompe com a tradição socrática do Homem em relação à Verdade como sinônimo de realidade.</p>



<p>A &#8220;Hermetic Order of Golden Dawn&#8221;, fundada em 1888 por MacGregor Matters, Willian R. Roodman e Wynn Westcott, reatava, inicialmente na Inglaterra, as inspirações de uma sociedade evolutiva através do conhecimento iniciático da antiguidade. Passaram por lá os célebres ocultistas Whaite, Aleister Crowley e Dion Fortune (Violet Mary Firth), essa última líder da &#8220;Society of the Inner Ligth&#8221;, também autora de vários livros sobre o assunto.</p>



<p>As transformações sofridas pelas tensões na Europa na modernidade trouxeram uma outra, nossa contemporaneidade, cuja abertura das portas para a participação da mulher na vida pública se fizeram necessárias, passando ela a exercer assim, maior atividade econômica, cultural e ocultista.</p>



<p>Hoje, as sociedades Rosa Cruz, inspiradas nos princípios originais do século XVII até os dias atuais, possuem em seu corpo de membros mulheres atuantes em seus papeis iniciáticos; já a Maçonaria, abre um tímido espaço para as Maçonarias Mistas, de caráter irregular (uma tendência não generalizada, porém um fato no século XX).</p>



<h2 class="wp-block-heading">O Caminho do Feminino como Ciência Ocultista</h2>



<p>O desejo de ruptura da sociedade cristã e seus valores patriarcais encontrou eco em muitas correntes do pensamento europeu a partir do séc. XIX. Ansiava-se descobrir as origens do problema metafísico, redescobrir outras possibilidades não continuadas pela sociedade patriarcal da religião cristã, insurgindo assim muitas teorias em defesa de um passado matriarcal e sua problematização no contexto da época. Para isso, muitas correntes ocultistas retornavam ao mistérios do passado (mesmo não sendo) para instaurar uma tradição sólida e legitimada pela (estrábica) história. Foi assim com o neo-druidismo, o ocultismo egípcio e muitas tradições cabalistas e gnosticistas atribuídas a mestres ancestrais anteriores ao cristianismo. O passado poderia trazer força ao escopo de uma tradição, melhor ainda se este passado remontasse épocas imemoriais, anteriores a escrita.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>[&#8230;] um novo matriarcado se anuncia [&#8230;] Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud — a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama</p>
<cite>Oswald de Andrade, in Manifesto Antropofágico</cite></blockquote>



<h2 class="wp-block-heading">Wicca e o Duoteismo versus Monoteísmo</h2>



<p>Gerald Gardner nasceu em Liverpool de 1883, foi funcionário da corte inglesa e viajou o mundo recolhendo informações que alimentassem sua paixão desde épocas mais joviais: o ocultismo. Consta que Gardner iniciou-se em algumas ordens conhecidas como a Maçonaria (no Ceilão), a ordem Rosa Cruz, a Golden Dawn e a O.T.O. de Aleister Crowley. Foi também membro da English Folclore Society, instituição presidida por sir Charles Godfrey Leland, renomado folclorista inglês a quem se atribui influência nos trabalhos de Gardner.</p>



<p>Inquieto com sua aposentadoria prematura, Gardner passou a pesquisar aquilo que ele viria chamar de tradição da bruxaria britânica, oriunda nos celtas e preservada até os anos modernos. Essa teoria era de total desconhecimento e descrédito para a English Folclore Society, mesmo aceitando que a cultura pagã encontrara novos meios de conviver com o cristianismo, escamoteando-se em práticas familiares atemporais.</p>



<p>Já nos anos de 1950, o autor publica o livro Witchcraft Today (Bruxaria Hoje), sucedendo seu livro High Magic&#8217;s Aid (Ajuda da Alta Magia), um romance esotérico segundo os próprios termos. As afirmações de que uma tradição duoteista (onde uma deusa feminina dividia seu culto com um deus masculino) preservada dos embates com o cristianismo, assim como segredos iniciáticos e ritualísticos contidos num misterioso grimório chamado de Book Of Shadows (Livro das Sombras), contribuíram no século XX para o estabelecimento de caminhos espirituais neo-pagãos da wicca (termo inaugurado por Gardner), somado ao revival do xamanismo, do druidismo e da stregheria. Práticas que se voltavam ao ciclo da natureza, alegorias alquímico-sexuais do encontro do princípio feminino (A Grande Mãe) com o masculino (o deus cornucópio) caracterizam a wicca como fenômeno ecológico, onde o papel desempenhado pelo humano é de co-participante dos mistérios da Mãe Terra (Gaya), e animista, onde os espíritos e deuses desse sistema fazem parte do reconhecimento das forças envolvidas e figuradas no que se refere a Natureza, onde o bruxo u a bruxo desempenha a manutenção dessas forças.</p>



<p>Na geração 60, com a crise do pós-guerra e uma Europa devastada, a América do Norte ganhou destaque junto ao fenômeno cultural e ocultista: a tradição européia foi exportada para o novo mundo. O feminismo crescente torneou a crise e eclipsou o caráter duoteista da wicca, excluindo de seus ritos e de sua convivência mágica qualquer presença masculina fosse simbólica ou mesmo literal, como acontecera na tradição Diânica, encabeçada por Zsuzannah Budapest. O papel nacional também modificou os ramos da wicca, passando a adquirir fenômenos locais de um panteísmo nórdico, em algumas tradições.</p>



<p>Atualmente, a palavra wicca tem sido associada a jovens adolescentes atraídos pelo ocultismo da contracultura neo-pagã, crescendo como religião e sendo estetizada em toda mídia de propaganda (cinema, programa de tevê, música e Internet).</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mme. Blavatsky e o Poder do Oriente.</h2>



<p>Nascida em Ekaterinoslav (atual Dnepropetrovsk), Ucrânia de 1831, filha de militar e de escritora, Helena Blavatsky foi casada duas vezes, viajou pelo mundo e conheceu desde as peculiaridades dos monges budistas tibetanos até o cosmopolitismo crescente das cidades industrializadas do ocidente. Residiu em Nova York entre 1873 a 1878 (menos opulenta que Paris na época, mas em franca expansão comercial), vindo a morrer em Londres, em 1891.</p>



<p>Fundou junto a Henry Steel Olcott e William Quan Judge (entre outros) a Sociedade Teosófica, cujas nítidas influências encontram-se no hinduismo e no budismo. Blavatsky dizia ter recebido conhecimento dos mestres secretos da Antiga Fraternidade Branca que lhe revelaram os alicerces da &#8220;Doutrina Secreta&#8221; e advertia sobre os perigos encontrados na prática do &#8220;Tantra Yoga&#8221;. Essa é uma passagem polêmica da vida desta personagem, sendo relida por pesquisadores da teosofia que, com senso crítico até onde é conveniente, ameniza ou anistia os excessos da mística ucraniana do século XIX.</p>



<p>Suas pesquisas, polêmicas ou não, tornaram-se legado para o que hoje é comum chamarmos de &#8220;Nova Era&#8221;, trazendo consigo o ímpeto pelo orientalismo mistificador opondo-se claramente à tradição esotérica européia, tendo em vista os planos que esta possuía para o futuro da Sociedade Teosófica. A participação de ambos os sexos era vista como processo natural do trabalho teosófico, mesmo sobre duras críticas direcionadas a uma líder espiritual mulher no século XIX. Tais divergências não impediram que as demais ordens como a Maçonaria, ordens Rosacruz entre outras adaptassem sua doutrina para o escopo de suas tradições.</p>



<p>Publicou os livros &#8220;Isis sem Véu&#8221;, &#8220;A Doutrina Oculta&#8221;,entre outros (fontes indispensáveis para o estudo da Teosofia). Aleister Crowley possuía uma notável admiração por Blavatsky, sublinhando sua importância para as Ciências Ocultas com o título de &#8220;Mestre do Templo&#8221; (8º=3<sup>□</sup>, no sistema da Astrum Argentum).</p>



<p>A sociedade teosófica abriu campo para alguns célebres personagens engajados em causas dos direitos humanos e na luta pela qualidade de vida sobre a Terra, como foi o caso da inglesa Anna Bonus Kingsford, uma das primeiras inglesas cientista no campo da física (depois de Elizabeth Garrett Anderson), membro fundadora e presidente em 1883 da Sociedade Teosófica no Reino Unido. Suas experiências místicas foram postumamente publicadas no livro &#8220;Clothed with the Sun&#8221;, organizado por Edward Maitland.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Mulheres Escarlates — Uma breve história do feminino em Thelema.</h2>



<p>Se por um lado a história de Thelema se deva em grande parte à presença das mulheres próximas a Crowley e ativas nas ordens telêmicas (Astrum Argentum e a Ordo Templi Orinetis, maiores exemplos), a posição ocupada por cada uma delas, nesta ou naquela ocasião, não foi acrescida ou diminuída por atributos masculinos. Se algum mérito receberam, estas o alcançaram por seus próprios feitos e não por sexismo.</p>



<p>A relação existente entre a filosofia de Thelema e as mulheres se dá de maneira capital:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>..e em sua mulher chamada mulher escarlate está todo poder concedido.</p>
<cite>Liber AL vel Legis, Cap. I, Ves. 15</cite></blockquote>



<p>O contato com esse atributo de poder personificado no feminino foi a procura da vida do profeta da Lei de Thelema, Aleister Crowley. Esse contato começou no advento do Livro da Lei, quando sua primeira esposa, Rose Edith Crowley (era Kelley), incita o jovem esposo (este, porem, reticente em todo processo) a receber as palavras sagradas do deus Hórus, em sua primeira viagem ao Egito. Crowley, pelo que consta, estava chocado com o estado de consciência de sua esposa, antes adversa à magia e de parco conhecimento ocultista que, no entanto, reportara-se como Ouada (Rosa em egípcio) e repetira frases enigmáticas como &#8220;eles estão esperando por você&#8221; ou &#8220;tudo isso é sobre a criança&#8221;. Ela trazia indícios de um evento que mudaria para sempre o ocultismo no ocidente, sendo a primeira Mulher Escarlate do profeta.</p>



<p>O mago inglês e profeta da nova Lei, não se contentou apenas em receber do Livro da Lei, mas aprofundou-se ainda mais na procura dos &#8220;conhecimentos inspirados&#8221;, em primeira mão. Após a perda de seu primeiro filho e da separação de Rose Kelley, Crowley casou-se novamente e novamente provou da manifestação da deusa encarnada através de sua esposa, trazendo para a matéria àqueles mistérios mais elevados do Novo Eon, como relata as páginas introdutórias da 1ª Edição do Líber Aleph:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>O progresso espiritual de Crowley de Magister Templi 8º.= 3<sup>□</sup> a Magus 9º = 2<sup>□</sup> abarcou o período de 1914 a 1919, correspondendo aproximadamente à sua viagem aos Estados Unidos. Ele foi auxiliado com o passar dos anos por uma série de mulheres, que ele comparava a dignitárias na cerimônia da sua iniciação. A maioria, se não todas, eram suas amantes, e como catalisadoras mágicas, adotaram nomes terimórficos: &#8220;A Gata&#8221; [Jeanne Foster/Sor. Hialrion], &#8220;A Cobra&#8221;, &#8220;O Cão&#8221;, &#8220;A Coruja&#8221;, &#8220;O macaco&#8221; (Leah Hirsig/ sor. Alostrael) , &#8220;O camelo&#8221; [Rhode Minor/ sor. Ahitha] e &#8220;O Dragão&#8221;[Marie Lavroff Rohling/ sor. Olun].</p>
<cite>Liber Aleph</cite></blockquote>



<p>A forma como Crowley se relacionava com suas amantes e esposas foi (e ainda é) motivo de controvérsias no meio telêmico, não apenas por mulheres, mas aos olhos de homens que vivenciaram o século XX.</p>



<p>Maria de Miramar (a segunda esposa), Leah Hirsing (a única que se manteve sã após findar o casamento) e muitas outras amantes que provaram da loucura, dos vícios e da insegurança da vida ao lado do &#8220;Pior Homem do Mundo&#8221;, compartilhando destinos miseráveis em comum, enlouqueceram, se entregaram ao vício ou cometeram suicídio.</p>



<p>Crowley relata sua procura pela deusa Babalon que reside em cada mulher, sem distinção moral ou qualquer outra, embora negasse não fugir à visão reprimida de um inglês vitoriano em se tratando do sexo feminino, um resquício viciado de uma sociedade falocêntrica arcaizante. As experiências mágickas em prostíbulos ou espetáculos orgiásticos de magia sexual em Cefalú não trazem clareza crítica acerca da personagem do mago inglês e de suas Mulheres Escarlate, ao contrário, revelam a contradição existente no homem que escandalizou o velho mundo sendo ele mesmo tão retrógrado com relação ao sexo oposto.</p>



<p>O papel desempenhado pelas mulheres na A.·.A.·.. ou na O.T.O. depois de Crowley, aponta outros caminhos.</p>



<p>Com a morte da &#8220;Grande Besta&#8221;, tanto a A..·.A..·.. quanto a O.T.O. passaram por momentos difíceis de reestruturação e de quase extinção por parte da liderança que se sucedeu, o O.H.O. e discípulo de Crowley na A.·.A.·., Karl Germer. A reestruturação dessas duas ordens se deu pelas mãos de remanescentes empenhados na reconstrução &#8220;da casa desordenada&#8221;. As mulheres tanto na A.·.A.·. quanto na O.T.O. são reconhecidas e lembradas pelo empenho heróico que significou a manutenção da tradição mágic(K)a de Thelema no Mundo em parceria com homens cujos propósitos se assemelham. Menciono abaixo algumas dessas mulheres que merecem nossa homenagem:</p>



<p><strong>Regina Kahl:</strong>&nbsp;Foi iniciada na O.T.O., também primeira sacerdotisa da EGC, cuja missa inaugural foi realizada num domingo, 19 de março de 1933 junto a Wilfred T. Smith, na Loja ágape # 2, Califórnia.</p>



<p><strong>Leila Waddell (LAYLAH ou Sor. Cibeles):</strong>&nbsp;Amante de Crowley, foi inspiração na criação do &#8220;The Book of Lies&#8221;, também foi talentosa violinista.</p>



<p><strong>Phyllis Seckler (Sor. Meral, IXº da O.T.O.):</strong> Falecida recentemente, foi membro tanto da O.T.O. quanto da A.·.A.·. Estruturou o Colégio de Thelema organizando informações e ensino do sistema da A.·.A.·. deixados por Crowley. Escreveu ensaios que estão disponíveis na Internet: &#8220;On Religion&#8221; e &#8220;Projections and the Shadow&#8221;.</p>



<p><strong>Jane Wolfe (Sor. Estai):</strong>&nbsp;Atriz americana e uma das primeiras discípulas da A.·.A.·., residiu em Cefalú e se iniciou na O.T.O. na Loja Agape #2, na Califórnia.</p>



<p><strong>Mary Butts (Sor. Rhodon):</strong>&nbsp;Escritora novelista, poeta, ensaísta e discípula de Aleister Crowley na A.·.A.·., residindo na Abadia de Cefalú.</p>



<p><strong>Sor. Helena:</strong>&nbsp;Ex-Secretária Geral da Ordem, sua atuação enquanto mulher dentro do IHQ foi impecável e de um grande exemplo.</p>



<p><strong>Sor. Shaitara:</strong> Ex Representante do Frater Superior no país, liderou a O.T.O. durante anos. Seus artigos são bastante discutidos e lidos no meio ocultista (telêmico ou não), mistura amabilidade e severidade sem conflitar consigo mesma.</p>



<p><strong>Sor. Nephytys:</strong> Antiga Secretária do Oásis Quetzalcoatl, desempenhou seu cargo com total desenvoltura e diplomacia, tanto dentro quanto fora do espaço da Ordem. Companheira inseparável de Fra. Horus Menthu.</p>



<p><strong>Sor. Astarte:</strong> Editora do jornal eletrônico eMagick, órgão divulgador de Thelema, pessoa responsável e severa, mas também brincalhona e generosa.</p>



<p><strong>Sor. Vonah</strong>: Na Tesouraria do Oásis Quetzalcoatl mostrou sempre uma administração financeira eficiente e responsável, mas sempre com um toque generoso e cuidadoso para com todos os Irmãos e Irmãs em dificuldades.</p>



<p><strong>Sor. F.</strong>: Condizindo a maestria do Acampamento Sub Lege Libertas, tem como característica sua doçura, mas sem deixar de equilibrá-la com a severidade quando se faz necessário.</p>



<p><strong>Sor. Atalanta</strong>: Antiga Mestra do Acampamento Opus Solis, foi a força que manteve o trabalho em Minas Gerais durante anos a fio com tenacidade e dedicação extremas.</p>



<p><strong>Sor. Lotus</strong>: Antiga secretária do Acampamento Opus Solis sempre se mostrou uma força combativa e defensora da Ordem e seus princípios.</p>



<p>Essas mulheres, entre outras tantas omitidas neste texto por falta de espaço, contribuem de modo ativo para o estabelecimento e divulgação da Lei de Thelema no mundo.</p>



<p>A todas elas o nosso mais fraterno agradecimento</p>
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