Passividade, Individuação e União dos Opostos na Práxis Thelêmica
Abstract
Este estudo refuta a interpretação reducionista de Thelema como uma filosofia de hedonismo ou imposição tirânica do ego, propondo em seu lugar uma “dialética da receptividade”. Argumenta-se que a eficácia da Verdadeira Vontade depende intrinsecamente do equilíbrio entre a força projetiva (Baqueta) e a receptividade estratégica (Cálice), visando não a conquista unilateral, mas a união do microcosmo com o macrocosmo. Através de uma análise comparativa que integra a simbologia da Missa Gnóstica — com ênfase na primazia ontológica da Sacerdotisa — à psicologia da individuação de Jung e ao idealismo alemão, demonstra-se que a passividade constitui um poder magnético essencial para a realização da Grande Obra. A conclusão estabelece que a maturidade na práxis thelêmica exige a dissolução das fronteiras do ego e a integração ética e mística com o “Não–Eu”, validando a fórmula de “Amor sob Vontade” como um mecanismo técnico de união e não de isolamento.
Palavras-Chave
Thelema; Verdadeira Vontade; Passividade Mágicka; Individuação; Missa Gnóstica; Não-Eu; União dos Opostos; Dialética.
Faze o que tu queres será o todo da Lei.
Introdução
No estudo das novas religiões e do esoterismo ocidental, o sistema de Thelema, fundado pelo ocultista britânico Aleister Crowley no início do século XX ev, é frequentemente alvo de interpretações superficiais e reducionistas. O axioma central, “Faze o que tu queres será o todo da Lei” {Liber AL vel Legis, o Livro da Lei, Cap. I, vers. 40], é comumente confundido com uma licença para o hedonismo desenfreado ou para a imposição tirânica do ego sobre o ambiente. Tal interpretação, embora disseminada na cultura popular e mesmo em certos círculos acadêmicos, revela uma compreensão fundamentalmente equivocada da teologia e da prática ritualística (ou Magick) de Thelema.
Uma análise mais rigorosa e hermeneuticamente responsável da filosofia thelêmica revela que a Vontade (Thelema em grego) não opera no vácuo, nem se configura como mera imposição solipsista do desejo individual. Para que a Verdadeira Vontade seja efetiva e se manifeste em sua plenitude cósmica, ela exige uma contraparte essencial e indispensável: a receptividade, a passividade estratégica e a capacidade de união com o Não–Eu. Este artigo busca explorar, de forma sistemática e aprofundada, como a passividade (simbolizada ritualisticamente pelo Cálice e pela Sacerdotisa) é tão fundamental quanto a atividade da Baqueta na realização da Grande Obra.
É imperativo estabelecer, desde o princípio, que a compreensão de Thelema como uma filosofia de imposição unilateral da vontade individual sobre o mundo constitui uma interpretação fundamentalmente imatura e errônea, frequentemente adotada por aqueles que permanecem nos estágios preliminares da práxis ou que se aproximam do sistema com preconceitos externos. O objetivo final de Thelema não é a conquista tirânica do ambiente pelo ego inflado, mas precisamente o oposto: a união extática do eu com o não–eu, ou, em termos herméticos tradicionais, a conjunção do microcosmo com o macrocosmo — que é, em essência, a realização da chamada Grande Obra. Qualquer interpretação que negligencie ou minimize este telos soteriológico reduz Thelema a uma caricatura grosseira de si mesma.
Argumentaremos que Thelema não se apresenta como uma filosofia de individualismo egoico, mas sim como um complexo sistema de individuação no sentido proposto por Carl Gustav Jung e de união mística entre o sujeito e o objeto, entre o Eu e o Não–Eu. Para tanto, mobilizaremos não apenas as fontes primárias do corpus thelêmico (especialmente o Liber AL vel Legis, o Liber CL vel לענ De Lege Libellum e o Liber Astarté vel Berylli), mas também estabeleceremos diálogos com tradições filosóficas orientais (Budismo Clássico) e ocidentais (idealismo alemão de Schelling e Hegel, empirismo de Hume e existencialismo de Sartre).
1. Baqueta e Cálice como Complementares Dialéticos
1.1. A Simbologia Hermética das Armas Elementais
Na simbologia thelêmica, derivada em parte da tradição da Hermetic Order of the Golden Dawn e da Cabala Hermética, a Baqueta (ou Bastão, Wand) representa a Vontade projetiva, a força ativa e o princípio masculino ou Yang. Tradicionalmente associada ao elemento Fogo e à letra hebraica Yod (י), a Baqueta é a ferramenta mágica da imposição, da direção consciente da energia e da transformação ativa do ambiente. Em termos psicológicos, ela simboliza a capacidade do ego de estabelecer objetivos, planejar e executar ações deliberadas.
Contudo, tanto Crowley quanto seus exegetas mais rigorosos enfatizam que a Magia não é apenas projeção unidirecional. A contraparte indispensável é o Cálice (ou Taça, Cup), que representa o Entendimento (Binah na Árvore da Vida cabalística), a receptividade, o princípio feminino ou Yin e o elemento Água, associado à letra hebraica Heh (ה). Se a Baqueta é a capacidade de fazer, o Cálice é a capacidade de receber, conter, nutrir e dar forma. Psicologicamente, representa a abertura à experiência, a empatia, a capacidade de escuta profunda e a receptividade ao inconsciente.
1.2. A Esterilidade da Vontade Isolada
O trabalho mágico não ocorre pela mera imposição da vontade do magista sobre o universo; isto é, pelo uso isolado da Baqueta. Tal abordagem resultaria em dispersão de energia, frustração e, em última análise, fracasso mágicko. Ele exige que o magista se torne um receptáculo capaz de conter e nutrir as forças universais. A eficácia mágica depende da criação de um vácuo psíquico e espiritual que atrai as energias necessárias, em vez de tentar forçá–las.
O Sinal de Puella (o sinal da Menina ou da donzela), utilizado em rituais como o Liber Reguli, exemplifica essa atitude de abertura e receptividade passiva. Neste gesto ritual, o praticante se posiciona com as mãos em concha, formando um triângulo invertido sobre o peito e a genitália (replicando a imagem central no quadro O Nascimento de Vênus, do pintor renascentista Sandro Botticelli), simbolizando o útero cósmico ou o Cálice que aguarda o influxo divino. O magista se coloca não como o emissor primário, mas como o recipiente sagrado que aguarda ser preenchido pela energia divina. Esta postura corporal e mental é essencial em diversas operações mágicas, especialmente nas invocações de forças planetárias ou divindades.
Sem o Cálice para receber e dar forma, a energia da Baqueta dispersa–se no vácuo; sem a receptividade, a Vontade torna–se estéril e improdutiva. Esta é uma lei fundamental da termodinâmica espiritual: a energia precisa de um recipiente para se condensar e manifestar. Como observa Dion Fortune em sua obra Magia Aplicada, citada frequentemente em contextos thelêmicos: “O ocultista não tenta dominar a Natureza, mas sim entrar em harmonia com essas grandes Forças Cósmicas e trabalhar com elas.”.
2. A Sacerdotisa e a Missa Gnóstica
2.1. Estrutura e Simbolismo da Missa Gnóstica
A importância teológica da passividade é dramatizada de forma explícita no ritual central da Ordo Templi Orientis (O.T.O.): a Missa Gnóstica (Liber XV). Diferentemente das liturgias patriarcais tradicionais do cristianismo, nas quais o divino é representado exclusivamente por figuras masculinas ativas (Deus Pai, Cristo) e o feminino é relegado a papéis de submissão passiva (a Virgem Maria como mera receptora), a Missa Gnóstica eleva a Sacerdotisa a um papel de preeminência ontológica e litúrgica.
A Sacerdotisa representa uma pletora de divindades femininas, mas, para o contexto deste artigo, iremos focar em Nuit, a deusa do espaço infinito e das possibilidades ilimitadas, bem como a alma receptiva universal. Ela não é uma assistente passiva no sentido de submissão hierárquica, mas a detentora de um poder primordial de atração, contenção e magnetismo espiritual. No ritual, é a Sacerdotisa, através de sua passividade magnética e receptiva, que desperta o Sacerdote (que representa Hadit, o ponto infinitesimal de consciência) e o capacita para a realização do Sacramento da Missa.
2.2. A União como Sacramento
O clímax do ritual, o momento de maior intensidade mística, dramática e simbólica, não é uma conquista solitária do Sacerdote, mas a consumação da união entre a Lança (símbolo da Vontade ativa e do princípio masculino) e o Cálice (símbolo da Receptividade e do princípio feminino), através da partícula (semen) do Bolo de Luz (também chamado Hóstia) que estava depositado sobre a Pátena (ovulum in utero). Esta união ritual representa e efetiva a aniquilação da sensação de separação entre sujeito e objeto, entre o eu e o cosmos.
A proclamação litúrgica central da Missa (“Não há parte de mim que não seja dos deuses”) expressa precisamente esta dissolução das fronteiras do ego. O participante reconhece que sua identidade individual não é uma fortaleza isolada, mas uma manifestação transitória e porosa do divino. Esta percepção só é possível através da abertura radical ao Outro, ao Não–Eu, representado tanto pela divindade quanto pela comunidade de participantes.
Portanto, a Missa Gnóstica demonstra liturgicamente que a eficácia espiritual em Thelema depende da capacidade de se abrir ao Outro, e não de dominá–lo através da imposição unilateral da vontade egoica. A passividade da Sacerdotisa não é fraqueza, mas poder magnético: o poder de atrair, conter e transformar.
3. Individuação versus Individualismo: O Diálogo com Jung
3.1. A Distinção Conceitual Fundamental
É crucial, para uma compreensão adequada de Thelema, distinguir o objetivo thelêmico do mero individualismo egoico, uma distinção que encontra paralelo notável na psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Enquanto o individualismo moderno, tal como propagado pelo neoliberalismo e pela cultura do narcisismo, busca reforçar as fronteiras do ego e satisfazer desejos superficiais e condicionados socialmente, Thelema alinha–se mais proximamente ao conceito junguiano de Individuação.
Para Jung, a individuação é o processo psicológico de integração dos opostos — consciente e inconsciente, persona e sombra, anima e animus — para formar um Self total e integrado, qualitativamente distinto do ego fragmentado e defensivo. Este Self não é uma ampliação do ego, mas sua relativização diante de uma totalidade maior que o engloba e transcende.
3.2. A Verdadeira Vontade como Individuação
De forma análoga, em Thelema, a descoberta da Verdadeira Vontade exige que o praticante transcenda os desejos do ego condicionado e as construções sociais artificiais (a falsa vontade) para encontrar sua órbita natural no cosmos, seu propósito ontológico único e necessário. O ego inflado, aquele que se imagina como o centro absoluto do universo, isolado e auto–suficiente, é, na verdade, um obstáculo à Verdadeira Vontade, pois cria uma ilusão de separação do Todo.
O trabalho mágico e místico, portanto, envolve frequentemente a dissolução desse ego para permitir que a Vontade Universal flua através do indivíduo sem as distorções do egoísmo. Apenas através desta morte mística do ego, um ato supremo de passividade e entrega, representado na simbologia thelêmica pelo “derramar do Sangue dos Santos no Cálice de Babalon”, pode emergir o Mestre do Templo, cuja vontade individual tornou–se perfeitamente transparente à Vontade Cósmica.
Em ambos os sistemas — junguiano e thelêmico — o objetivo não é a extinção da individualidade (como em certas interpretações equivocadas do Budismo), nem sua hipertrofia egoica, mas sua realização autêntica através da integração harmônica com a totalidade. A verdadeira individualidade só emerge quando deixa de se opor defensivamente ao coletivo e ao inconsciente, abraçando–os como partes constitutivas de si mesma.
Portanto, o praticante que busca impor sua vontade sobre o mundo permanece numa compreensão pré–iniciática e infantil de Thelema. Ele confunde o ego condicionado (a falsa vontade) com a Verdadeira Vontade, e imagina erroneamente que sua realização espiritual consiste em fortalecer as fronteiras do eu contra o não–eu. Esta postura não apenas falha em realizar a Grande Obra, mas a obstrui ativamente. A verdadeira maturidade thelêmica reconhece que a Vontade individual só se realiza através da uniãocom o cosmos, não através de sua conquista. A imposição gera resistência e conflito; a receptividade gera harmonia e realização. O objetivo final não é o domínio do microcosmo sobre o macrocosmo, mas sua fusão extática, a dissolução das fronteiras ilusórias que separam o sujeito do objeto.
4. A Filosofia da União e o Não–Eu
4.1. O Budismo Clássico: Anatta e a Dissolução do Ego Substancial
A práxis thelêmica pode ser interpretada proveitosamente através de lentes filosóficas orientais que desconstroem a rigidez do sujeito cartesiano. O Budismo Clássico, que exerceu forte influência sobre o pensamento de Crowley (especialmente após sua estadia no Sri Lanka e seus estudos com Allan Bennett), ensina que o sofrimento (dukkha) advém fundamentalmente do apego a um eu ilusório (anatta, não–eu) e aos desejos compulsivos (tanha).
Thelema adapta e reinterpreta esta percepção ao sugerir que “vontade pura, desembaraçada de propósito, liberta do desejo de resultado, é em todo modo perfeita.” (como afirmado no Liber AL vel Legis, II:44). Esta formulação aproxima–se notavelmente do conceito de nishkama karma (ação desapegada) do Bhagavad Gita hindu e do wu wei (não–ação ou ação espontânea) taoísta. A verdadeira Vontade não é um desejo neurótico que busca gratificação, mas um movimento espontâneo e natural que ocorre quando as camadas artificiais do ego são removidas.
A receptividade, neste contexto, significa abandonar a fixação no eu que deseja e permitir que a ação surja naturalmente da percepção clara da situação, uma percepção que só é possível quando o ego cessa de filtrar tudo através de suas ansiedades e projeções.
4.2. O Idealismo Alemão: Schelling e Hegel sobre Sujeito e Objeto
Podemos também traçar paralelos frutíferos com a dialética do idealismo alemão, particularmente nas obras de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling e Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Para Schelling, em sua Filosofia da Identidade, sujeito e objeto, espírito e natureza, não são entidades fundamentalmente separadas, mas polaridades de uma identidade absoluta subjacente. A separação é uma ilusão produzida pela reflexão limitada.
Em termos thelêmicos, podemos interpretar a Vontade como a Tese (o movimento do sujeito), o Mundo/Não–Eu como a Antítese (a resistência do objeto), e a Grande Obra (a realização mágicka completa) como a Síntese superior que supera e preserva ambos. A Vontade só se realiza plenamente ao encontrar e se unir ao seu oposto dialético, o cosmos que inicialmente parece externo e resistente.
Hegel, em sua Fenomenologia do Espírito, demonstra como a consciência só atinge sua plena realização (Geist, Espírito Absoluto) através do doloroso processo de negação e reconhecimento do outro. A famosa dialética do senhor e do escravo ilustra que a dominação unilateral (a imposição da Vontade sem receptividade) é insatisfatória e alienante; apenas no reconhecimento mútuo há verdadeira liberdade.
A persistência de Crowley de que “Amor é a lei, amor sob vontade” [Liber AL, I:57] reflete precisamente essa necessidade hegeliana de união e reconhecimento. O Amor (Agape) é o método dialético de unir o sujeito ao objeto, de reconciliar a Vontade com o Mundo.
4.3. Hume e Sartre: A Vacuidade do Ego como Condição para a Autenticidade
Filósofos empiristas e existencialistas também oferecem insights valiosos. David Hume, em seu Tratado da Natureza Humana, argumentou famosamente contra a existência de um eu substancial e imutável. Quando Hume volta sua atenção introspectivamente para dentro de si mesmo, não encontra um eu permanente, mas apenas um feixe ou coleção de diferentes percepções em constante mudança.
Jean–Paul Sartre, posteriormente, em O Ser e o Nada, desenvolveu a noção de que a consciência é fundamentalmente nada (néant), não no sentido de inexistência, mas no sentido de que ela é pura transcendência, sempre projetando–se para além de si mesma, nunca coincidindo consigo mesma. A existência precede a essência; não há um eu dado previamente, mas apenas a liberdade radical de se fazer.
Em Thelema, essa vacuidade essencial do ego não é uma limitação, mas o espaço necessário para a manifestação da divindade. O magista deve esvaziar–se (passividade) para ser preenchido pela Verdadeira Vontade (atividade). Como na metáfora frequentemente utilizada: se o copo já está cheio de ego, preconceitos e condicionamentos, não pode receber o vinho da vida divina. A receptividade é, portanto, a condição de possibilidade para qualquer realização autêntica.
5. A União como Chave Soteriológica: Liber CL e Liber Astarté
5.1. Liber CL vel לענ De Lege Libellum: A Liberdade na Interconexão
A literatura técnica e teológica de Crowley reforça sistematicamente que a imposição viril da vontade é apenas metade da equação mágica. O texto Liber CL vel לענ De Lege Libellum (Uma Sandália, Um Pequeno Livro sobre a Lei), classificado como um documento da Classe D (instrução oficial) pela ordem Astrum Argentum, esclarece que a liberdade thelêmica e a Vontade operam necessariamente em um contexto de interconexão cósmica, onde o Amor (união) é a lei que guia e tempera a aplicação da Vontade.
Este texto traz de volta o trecho do Livro da Lei, ampliando o conceito de que “todo homem e toda mulher é uma estrela” [Liber AL, I:3], Não estrelas isoladas flutuando no vácuo, mas estrelas em um sistema gravitacional mútuo, onde cada órbita é determinada não apenas pela própria massa e momento, mas também pela atração de todas as outras estrelas. A liberdade não é o isolamento solipsista, mas a capacidade de seguir a própria órbita verdadeira em harmoniacom todas as demais órbitas.
Assim, a realização da Vontade individual pressupõe o reconhecimento e o respeito pelo Não–Eu — pelos outros seres, pelo ambiente natural, pelo cosmos como um todo. A tirania sobre o Não–Eu não é uma expressão da Verdadeira Vontade, mas sua perversão egoica. A verdadeira Vontade, quando descoberta e seguida, alinha–se naturalmente com a ordem cósmica, sem fricção nem conflito.
5.2. Liber Astarté vel Berylli: A Devoção como Dissolução Extática
Mais explicitamente ainda, o Liber Astarté vel Berylli (Liber CLXXV), também classificado como Classe D, instrui o praticante na arte da Bhakti Yoga ou união pela devoção, a adaptação thelêmica ocidental do caminho devocional hindu. Nesta prática, o magista adota uma postura de total passividade e adoração a uma divindade escolhida (que pode ser Astarté, Ísis, Apolo, Cristo, ou qualquer arquétipo divino com o qual o praticante ressoe).
O método prescreve que o devoto organize sua vida inteiramente em torno dessa divindade, estabelecendo práticas diárias rigorosas de oração, invocação, contemplação e oferendas, tratando a entidade como um amante divino. O praticante deve suprimir deliberadamente o ego e a vontade pessoal para se tornar um veículo transparente da divindade. A intensidade emocional e a concentração exclusiva visam dissolver gradualmente as fronteiras psicológicas entre adorador e adorado.
O objetivo final não é a submissão servil a um deus externo (como na religião exotérica convencional), mas a união mística (Samadhi ou Unio Mystica). Quando a devoção atinge seu ápice, a distinção entre sujeito (o magista) e objeto (a divindade) colapsa. Não há mais devoto e deus, mas uma unidade indissolúvel. Como afirma a proclamação da Missa Gnóstica: ”Não há parte de mim que não seja dos deuses”.
O sucesso na Magick, conforme demonstrado pelo Liber Astarté, não é a conquista ou dominação do universo pelo mago (uma fantasia de poder egoico), mas a dissolução do mago no universo: um ato supremo de receptividade e passividade onde o praticante se torna o Cálice que contém a totalidade do cosmos.
5.3. Ágape: O Amor como Operador Técnico da União
O conceito de Ágape (Amor) em Thelema não é sentimental, mas técnico. É definido como o instinto de união — a força que compele o sujeito a sair de si mesmo e se integrar ao objeto. Significativamente, na Gematria grega (isopsēphía), tanto Thelema (Vontade) quanto Ágape (Amor) somam 93, indicando sua identidade essencial ou complementaridade perfeita.
A fórmula completa, “Amor é a lei, amor sob vontade”, sugere que enquanto a Vontade define a direção (a órbita da estrela), o Amor é o método (a força gravitacional) que conecta essa estrela ao corpo infinito do universo (Nuit), permitindo a interação, a troca e a existência manifestada. Sem Amor, a Vontade seria apenas um vetor abstrato no vácuo; sem Vontade, o Amor seria uma fusão indiferenciada e caótica.
O Amor, portanto, é o agente que dissolve o ego e permite que a consciência individual se expanda e se integre ao Todo. Praticantes que enfatizam apenas a Vontade e ignoram o Amor são descritos criticamente como “vivendo à Meia Lei”: uma versão incompleta e distorcida de Thelema que resulta em egoísmo, conflito e alienação.
6. O Não–Eu na Práxis Cotidiana
6.1. A Sacralidade do Outro
A compreensão da importância do Não–Eu tem profundas implicações éticas e sociais. Se, como afirma o Liber AL, “Todo homem e toda mulher é uma estrela”, então cada Outro (cada Não–Eu) é um ser soberano com sua própria trajetória sagrada e inviolável. O reconhecimento do Não–Eu implica reconhecer a divindade e a autodeterminação inerentes ao outro.
Quando um thelemita olha para outra pessoa, ele é instruído a ver não um objeto a ser manipulado ou um obstáculo a ser removido, mas uma manifestação do corpo de Nuit, uma parte do Todo divino do qual ele próprio é parte. Amar o Não–Eué, paradoxalmente, amar a si mesmo e à totalidade da existência, pois a distinção entre Eu e Não–Eu é, em última análise, uma convenção útil mas não uma verdade metafísica absoluta. Ou, como é dito em Liber CL: “no Caminho do Amor, o Mal aparece como ‘tudo o que tende a impedir a União de quaisquer duas coisas’.”
6.2. A Ética da Não–Interferência
O impacto prático do conceito de Não–Eu nas relações sociais é a formulação de uma ética da não–interferência. Se cada indivíduo é uma estrela com sua órbita própria (sua Verdadeira Vontade), então a liberdade de cada um é sagrada e inviolável. O reconhecimento do Não–Eu implica respeitar que o outro tem um caminho único que não deve ser perturbado por imposições externas.
O conflito social, nesta perspectiva, não surge do exercício legítimo da Vontade, mas da desordem, quando uma estrela sai de sua órbita verdadeira (por ignorância, medo ou condicionamento) e invade o caminho de outra. Se todos estivessem cumprindo suas Verdadeiras Vontades, haveria uma harmonia natural, como engrenagens perfeitamente ajustadas em um mecanismo cósmico.
Eticamente, qualquer tentativa de impor a própria vontade egoica sobre o Não–Eu, de manipular, coagir ou desviar outra pessoa de seu caminho autêntico, seja ou não através de meios mágicos ou ritualísticos, é classificada como magia negra. Portanto, a relação com o Não–Eu exige um respeito absoluto pela autonomia alheia; não como um limite externo à própria liberdade, mas como sua condição de possibilidade.
6.3. Cooperação versus Competição
Contrariando a visão de que Thelema promove o isolamento competitivo, a doutrina enfatiza que a liberdade individual é dependente da liberdade coletiva. O ser humano não evoluiu para viver no vácuo; somos fundamentalmente sociais. A tapeçaria de interações sociais não é um obstáculo acidental à liberdade, mas seu tecido constitutivo.
O thelemita deve compreender que, enquanto houver restrição ou tirania no Não–Eu (na sociedade mais ampla), sua própria liberdade está potencialmente comprometida. A liberdade de um indivíduo valida e confirma a liberdade dos outros. Em uma sociedade thelêmica ideal, a cooperação harmônica baseada no reconhecimento mútuo da soberania de cada estrela supera a competição predatória baseada no medo e na escassez.
Ao dizer ao outro “Faze o que tu queres será o todo da Lei”, o indivíduo está concedendo ao Não–Eu a mesma dignidade e liberdade que reclama para si, criando assim um fundamento para uma irmandade universal baseada não na conformidade, mas na autonomia mútua.
Conclusão
Em suma, Thelema não é uma apologia à tirania do ego, nem uma glorificação do individualismo narcisista contemporâneo. É, ao contrário, um sistema complexo e sofisticado de autorrealização que exige o equilíbrio dinâmico e a integração harmônica entre atividade e passividade, entre imposição e receptividade, entre Vontade e Amor.
Retornando ao argumento central deste estudo: a interpretação de Thelema como uma doutrina de imposição da vontade individual sobre o cosmos (ou sobre o outro) representa uma compreensão fundamentalmente imatura e equivocada, típica daqueles que permanecem presos nas camadas exotéricas e superficiais do sistema. O praticante maduro compreende que o verdadeiro objetivo de Thelema é a união do microcosmo com o macrocosmo: a realização da Grande Obra através da dissolução das fronteiras ilusórias entre o eu e o não–eu. Esta união não aniquila a individualidade, mas a transfigura, revelando que a verdadeira soberania individual reside não na oposição ao Todo, mas na participação consciente e harmônica na ordem cósmica.
Utilizando o linguajar simbólico apropriado, a Baqueta deve ser temperada e completada pelo Cálice; a projeção assertiva da Vontade deve ser equilibrada pela recepção contemplativa do Entendimento. O Sinal de Puella, a Sacerdotisa na Missa Gnóstica e as práticas devocionais do Liber Astarté demonstram que a passividade não é fraqueza, mas um dos maiors poderes de um magista, um poder magnético, o poder de atrair, conter, nutrir e transformar.
Através do processo de individuação (no sentido junguiano) e da união mística com o Não–Eu (no sentido budista, hegeliano e thelêmico), o thelemita não busca impor–se tiranicamente sobre o mundo, mas tornar–se um canal desimpedido para a expressão da ordem cósmica. O objetivo final não é a conquista do universo, mas a dissolução extática no universo, realizando assim a fórmula sagrada de Amor sob Vontade.
Como afirma o Liber AL vel Legis [I:42-43]: “Deixai aquele estado de multiplicidade limitado e repugnante. Assim com vós todos; tu não tens direito senão fazer a tua vontade. Fazei isso, e nenhum outro dirá não.” Esta passagem, corretamente compreendida, não é um convite ao hedonismo ou à tirania, mas uma instrução para descobrir e realizar a Verdadeira Vontade, aquela Vontade que, por estar perfeitamente alinhada com o cosmos, não encontra resistência legítima, pois reconhece e respeita a soberania de todas as outras vontades verdadeiras.
A Grande Obra, portanto, é simultaneamente individuação (tornar–se plenamente o que se é) e união (dissolver–se no que transcende o eu). Esta aparente contradição é resolvida na percepção de que o eu mais autêntico e individualizado é precisamente aquele que compreendeu sua identidade fundamental com o Todo. Como proclama a Missa Gnóstica: “Não há parte de mim que não seja dos deuses”.
Assim, a passividade e a receptividade revelam–se não como meras virtudes complementares à Vontade, mas como condições essenciais para sua realização. Sem a capacidade de se abrir, de receber, de se dissolver e de se unir ao Não–Eu, a Vontade permanece uma abstração estéril, um desejo egoico condenado à frustração. É apenas através da dança dialética entre Baqueta e Cálice, entre Vontade e Amor, entre atividade e passividade, que a Obra se consuma e o magista realiza sua verdadeira natureza como uma estrela consciente no corpo infinito de Nuit.
Amor é a lei, amor sob vontade.
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