<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Filosofia &#8211; Oásis Quetzalcoatl</title>
	<atom:link href="https://quetzalcoatl-oto.org/category/filosofia/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://quetzalcoatl-oto.org</link>
	<description>Ordo Templi Orientis - Rio de Janeiro</description>
	<lastBuildDate>Thu, 12 Feb 2026 21:48:31 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	<generator>https://wordpress.org/?v=6.9.4</generator>

<image>
	<url>https://i0.wp.com/quetzalcoatl-oto.org/wp-content/uploads/2024/02/icone-quetzalcoatl.png?fit=32%2C32&#038;ssl=1</url>
	<title>Filosofia &#8211; Oásis Quetzalcoatl</title>
	<link>https://quetzalcoatl-oto.org</link>
	<width>32</width>
	<height>32</height>
</image> 
<site xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">225073398</site>	<item>
		<title>A Dialética da Receptividade</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/a-dialetica-da-receptividade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 21:48:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Feminino]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Hinduísmo]]></category>
		<category><![CDATA[Magick]]></category>
		<category><![CDATA[Oração]]></category>
		<category><![CDATA[Sabedoria]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://quetzalcoatl-oto.org/?p=2465</guid>

					<description><![CDATA[Passividade, Individuação e União dos Opostos na Práxis Thelêmica Abstract Este estudo refuta a interpretação reducionista de Thelema como uma filosofia de hedonismo ou imposição tirânica do ego, propondo em seu lugar uma &#8220;dialética da receptividade&#8221;. Argumenta-se que a eficácia da Verdadeira Vontade depende intrinsecamente do equilíbrio entre a força projetiva (Baqueta) e a receptividade... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/a-dialetica-da-receptividade/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading">Passividade, Individuação e União dos Opostos na Práxis Thelêmica</h2>



<h3 class="wp-block-heading">Abstract</h3>



<p>Este estudo refuta a interpretação reducionista de Thelema como uma filosofia de hedonismo ou imposição tirânica do ego, propondo em seu lugar uma &#8220;dialética da receptividade&#8221;. Argumenta-se que a eficácia da Verdadeira Vontade depende intrinsecamente do equilíbrio entre a força projetiva (Baqueta) e a receptividade estratégica (Cálice), visando não a conquista unilateral, mas a união do microcosmo com o macrocosmo. Através de uma análise comparativa que integra a simbologia da Missa Gnóstica — com ênfase na primazia ontológica da Sacerdotisa — à psicologia da individuação de Jung e ao idealismo alemão, demonstra-se que a passividade constitui um poder magnético essencial para a realização da Grande Obra. A conclusão estabelece que a maturidade na práxis thelêmica exige a dissolução das fronteiras do ego e a integração ética e mística com o &#8220;Não<em>–</em>Eu&#8221;, validando a fórmula de &#8220;Amor sob Vontade&#8221; como um mecanismo técnico de união e não de isolamento.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Palavras-Chave</h3>



<p>Thelema; Verdadeira Vontade; Passividade Mágicka; Individuação; Missa Gnóstica; Não-Eu; União dos Opostos; Dialética.</p>



<p>Faze o que tu queres será o todo da Lei.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Introdução</h2>



<p>No estudo das novas religiões e do esoterismo ocidental, o sistema de Thelema, fundado pelo ocultista britânico Aleister Crowley no início do século XX ev, é frequentemente alvo de interpretações superficiais e reducionistas. O axioma central, “<em>Faze o que tu queres será o todo da Lei</em>” {Liber AL vel Legis, o Livro da Lei, Cap. I, vers. 40], é comumente confundido com uma licença para o hedonismo desenfreado ou para a imposição tirânica do ego sobre o ambiente. Tal interpretação, embora disseminada na cultura popular e mesmo em certos círculos acadêmicos, revela uma compreensão fundamentalmente equivocada da teologia e da prática ritualística (ou <em>Magick</em>) de Thelema.</p>



<p>Uma análise mais rigorosa e hermeneuticamente responsável da filosofia thelêmica revela que a <em>Vontade</em> (<em>Thelema</em> em grego) não opera no vácuo, nem se configura como mera imposição solipsista do desejo individual. Para que a Verdadeira Vontade seja efetiva e se manifeste em sua plenitude cósmica, ela exige uma contraparte essencial e indispensável: a <em>receptividade</em>, a <em>passividade estratégica</em> e a capacidade de <em>união</em> com o <em>Não–Eu</em>. Este artigo busca explorar, de forma sistemática e aprofundada, como a passividade (simbolizada ritualisticamente pelo Cálice e pela Sacerdotisa) é tão fundamental quanto a atividade da Baqueta na realização da Grande Obra.</p>



<p>É imperativo estabelecer, desde o princípio, que <strong>a compreensão de Thelema como uma filosofia de imposição unilateral da vontade individual sobre o mundo constitui uma interpretação fundamentalmente imatura e errônea</strong>, frequentemente adotada por aqueles que permanecem nos estágios preliminares da práxis ou que se aproximam do sistema com preconceitos externos. O objetivo final de Thelema não é a conquista tirânica do ambiente pelo ego inflado, mas precisamente o oposto: a <em><strong>união extática do eu com o não</strong></em><em><strong>–</strong></em><em><strong>eu</strong></em>, ou, em termos herméticos tradicionais, a <em><strong>conjunção do microcosmo com o macrocosmo</strong></em> — que é, em essência, a realização da chamada Grande Obra. Qualquer interpretação que negligencie ou minimize este telos soteriológico reduz Thelema a uma caricatura grosseira de si mesma.</p>



<p>Argumentaremos que Thelema não se apresenta como uma filosofia de individualismo egoico, mas sim como um complexo sistema de <em>individuação</em> no sentido proposto por Carl Gustav Jung e de união mística entre o sujeito e o objeto, entre o <em>Eu</em> e o <em>Não–Eu</em>. Para tanto, mobilizaremos não apenas as fontes primárias do corpus thelêmico (especialmente o <em>Liber AL vel Legis</em>, o <em>Liber CL vel לענ De Lege Libellum</em> e o <em>Liber Astarté vel Berylli</em>), mas também estabeleceremos diálogos com tradições filosóficas orientais (Budismo Clássico) e ocidentais (idealismo alemão de Schelling e Hegel, empirismo de Hume e existencialismo de Sartre).</p>



<h2 class="wp-block-heading">1. Baqueta e Cálice como Complementares Dialéticos</h2>



<h3 class="wp-block-heading">1.1. A Simbologia Hermética das Armas Elementais</h3>



<p>Na simbologia thelêmica, derivada em parte da tradição da Hermetic Order of the Golden Dawn e da Cabala Hermética, a <strong>Baqueta</strong> (ou Bastão, <em>Wand</em>) representa a Vontade projetiva, a força ativa e o princípio masculino ou Yang. Tradicionalmente associada ao elemento Fogo e à letra hebraica <em>Yod</em> (י), a Baqueta é a ferramenta mágica da imposição, da direção consciente da energia e da transformação ativa do ambiente. Em termos psicológicos, ela simboliza a capacidade do ego de estabelecer objetivos, planejar e executar ações deliberadas.</p>



<p>Contudo, tanto Crowley quanto seus exegetas mais rigorosos enfatizam que a Magia não é apenas projeção unidirecional. A contraparte indispensável é o <strong>Cálice</strong> (ou Taça, <em>Cup</em>), que representa o <em>Entendimento</em> (<em>Binah</em> na Árvore da Vida cabalística), a receptividade, o princípio feminino ou Yin e o elemento Água, associado à letra hebraica <em>Heh</em> (ה). Se a Baqueta é a capacidade de fazer, o Cálice é a capacidade de receber, conter, nutrir e dar forma. Psicologicamente, representa a abertura à experiência, a empatia, a capacidade de escuta profunda e a receptividade ao inconsciente.</p>



<h3 class="wp-block-heading">1.2. A Esterilidade da Vontade Isolada</h3>



<p>O trabalho mágico não ocorre pela mera imposição da vontade do magista sobre o universo; isto é, pelo uso isolado da Baqueta. Tal abordagem resultaria em dispersão de energia, frustração e, em última análise, fracasso mágicko. Ele exige que o magista se torne um <em>receptáculo capaz</em> de conter e nutrir as forças universais. A eficácia mágica depende da criação de um vácuo psíquico e espiritual que <em>atrai</em> as energias necessárias, em vez de tentar forçá–las.</p>



<p>O <strong>Sinal de Puella</strong> (o sinal da <em>Menina</em> ou da donzela), utilizado em rituais como o <em>Liber Reguli</em>, exemplifica essa atitude de abertura e receptividade passiva. Neste gesto ritual, o praticante se posiciona com as mãos em concha, formando um triângulo invertido sobre o peito e a genitália (replicando a imagem central no quadro <em>O Nascimento de Vênus</em>, do pintor renascentista Sandro Botticelli), simbolizando o útero cósmico ou o Cálice que aguarda o influxo divino. O magista se coloca não como o emissor primário, mas como o recipiente sagrado que aguarda ser preenchido pela energia divina. Esta postura corporal e mental é essencial em diversas operações mágicas, especialmente nas invocações de forças planetárias ou divindades.</p>



<p>Sem o Cálice para receber e dar forma, a energia da Baqueta dispersa–se no vácuo; sem a receptividade, a Vontade torna–se estéril e improdutiva. Esta é uma lei fundamental da termodinâmica espiritual: a energia precisa de um recipiente para se condensar e manifestar. Como observa Dion Fortune em sua obra <em>Magia Aplicada</em>, citada frequentemente em contextos thelêmicos: <em>“O ocultista não tenta dominar a Natureza, mas sim entrar em harmonia com essas grandes Forças Cósmicas e trabalhar com elas.”</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">2. A Sacerdotisa e a Missa Gnóstica</h2>



<h3 class="wp-block-heading">2.1. Estrutura e Simbolismo da Missa Gnóstica</h3>



<p>A importância teológica da passividade é dramatizada de forma explícita no ritual central da Ordo Templi Orientis (O.T.O.): a <em>Missa Gnóstica</em> (<em>Liber XV</em>). Diferentemente das liturgias patriarcais tradicionais do cristianismo, nas quais o divino é representado exclusivamente por figuras masculinas ativas (Deus Pai, Cristo) e o feminino é relegado a papéis de submissão passiva (a Virgem Maria como mera receptora), a Missa Gnóstica <strong>eleva a Sacerdotisa a um papel de preeminência ontológica e litúrgica</strong>.</p>



<p>A Sacerdotisa representa uma pletora de divindades femininas, mas, para o contexto deste artigo, iremos focar em <em>Nuit</em>, a deusa do espaço infinito e das possibilidades ilimitadas, bem como a alma receptiva universal. Ela não é uma assistente passiva no sentido de submissão hierárquica, mas a <em>detentora de um poder primordial de atração, contenção e magnetismo espiritual</em>. No ritual, é a Sacerdotisa, através de sua passividade magnética e receptiva, que <em>desperta</em> o Sacerdote (que representa <em>Hadit</em>, o ponto infinitesimal de consciência) e o capacita para a realização do Sacramento da Missa.</p>



<h3 class="wp-block-heading">2.2. A União como Sacramento</h3>



<p>O clímax do ritual, o momento de maior intensidade mística, dramática e simbólica, não é uma conquista solitária do Sacerdote, mas a <strong>consumação da união</strong> entre a Lança (símbolo da Vontade ativa e do princípio masculino) e o Cálice (símbolo da Receptividade e do princípio feminino), através da partícula (<em>semen</em>) do Bolo de Luz (também chamado Hóstia) que estava depositado sobre a Pátena (<em>ovulum in utero</em>). Esta união ritual representa e efetiva a <em>aniquilação da sensação de separação</em> entre sujeito e objeto, entre o eu e o cosmos.</p>



<p>A proclamação litúrgica central da Missa (<em>“Não há parte de mim que não seja dos deuses</em>”) expressa precisamente esta dissolução das fronteiras do ego. O participante reconhece que sua identidade individual não é uma fortaleza isolada, mas uma manifestação transitória e porosa do divino. Esta percepção só é possível através da <strong>abertura radical ao Outro, ao Não–Eu</strong>, representado tanto pela divindade quanto pela comunidade de participantes.</p>



<p>Portanto, a Missa Gnóstica demonstra liturgicamente que a eficácia espiritual em Thelema depende da capacidade de <strong>se abrir ao Outro</strong>, e não de dominá–lo através da imposição unilateral da vontade egoica. A passividade da Sacerdotisa não é fraqueza, mas <strong>poder magnético</strong>: o poder de atrair, conter e transformar.</p>



<h2 class="wp-block-heading">3. Individuação versus Individualismo: O Diálogo com Jung</h2>



<h3 class="wp-block-heading">3.1. A Distinção Conceitual Fundamental</h3>



<p>É crucial, para uma compreensão adequada de Thelema, distinguir o objetivo thelêmico do mero <em>individualismo egoico</em>, uma distinção que encontra paralelo notável na psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Enquanto o individualismo moderno, tal como propagado pelo neoliberalismo e pela cultura do narcisismo, busca reforçar as fronteiras do ego e satisfazer desejos superficiais e condicionados socialmente, Thelema alinha–se mais proximamente ao conceito junguiano de <strong>Individuação</strong>.</p>



<p>Para Jung, a individuação é o processo psicológico de integração dos opostos — consciente e inconsciente, persona e sombra, <em>anima</em> e <em>animus</em> — para formar um <em>Self</em> total e integrado, qualitativamente distinto do ego fragmentado e defensivo. Este <em>Self</em> não é uma ampliação do ego, mas sua <strong>relativização</strong><strong> diante de uma totalidade maior </strong>que o engloba e transcende.</p>



<h3 class="wp-block-heading">3.2. A Verdadeira Vontade como Individuação</h3>



<p>De forma análoga, em Thelema, a descoberta da <em>Verdadeira Vontade</em> exige que o praticante transcenda os desejos do ego condicionado e as construções sociais artificiais (a <em>falsa vontade</em>) para encontrar sua <em>órbita natural</em> no cosmos, seu propósito ontológico único e necessário. O <strong>ego inflado</strong>, aquele que se imagina como o centro absoluto do universo, isolado e auto–suficiente, é, na verdade, um <em>obstáculo</em> à Verdadeira Vontade, pois cria uma ilusão de separação do Todo.</p>



<p>O trabalho mágico e místico, portanto, envolve frequentemente a <em>dissolução</em> desse ego para permitir que a Vontade Universal flua através do indivíduo sem as distorções do egoísmo. Apenas através desta <em>morte mística do ego</em>, um ato supremo de passividade e entrega, representado na simbologia thelêmica pelo “derramar do Sangue dos Santos no Cálice de Babalon”, pode emergir o <em>Mestre do Templo</em>, cuja vontade individual tornou–se perfeitamente transparente à Vontade Cósmica.</p>



<p>Em ambos os sistemas — junguiano e thelêmico — o objetivo não é a extinção da individualidade (como em certas interpretações equivocadas do Budismo), nem sua hipertrofia egoica, mas sua <strong>realização autêntica</strong> através da integração harmônica com a totalidade. A verdadeira individualidade só emerge quando deixa de se opor defensivamente ao coletivo e ao inconsciente, abraçando–os como partes constitutivas de si mesma.</p>



<p>Portanto, <strong>o praticante que busca impor sua vontade sobre o mundo permanece numa compreensão pré–iniciática e infantil de Thelema</strong>. Ele confunde o ego condicionado (a falsa vontade) com a Verdadeira Vontade, e imagina erroneamente que sua realização espiritual consiste em fortalecer as fronteiras do eu contra o não–eu. Esta postura não apenas falha em realizar a Grande Obra, mas a obstrui ativamente. A verdadeira maturidade thelêmica reconhece que a <strong>Vontade individual só se realiza através da uniãocom o cosmos</strong>, não através de sua conquista. A imposição gera resistência e conflito; a receptividade gera harmonia e realização. <strong>O objetivo final não é o domínio do microcosmo sobre o macrocosmo, mas sua fusão extática</strong>, a dissolução das fronteiras ilusórias que separam o sujeito do objeto.</p>



<h2 class="wp-block-heading">4. A Filosofia da União e o Não–Eu</h2>



<h3 class="wp-block-heading">4.1. O Budismo Clássico: Anatta e a Dissolução do Ego Substancial</h3>



<p>A práxis thelêmica pode ser interpretada proveitosamente através de lentes filosóficas orientais que desconstroem a rigidez do sujeito cartesiano. O Budismo Clássico, que exerceu forte influência sobre o pensamento de Crowley (especialmente após sua estadia no Sri Lanka e seus estudos com Allan Bennett), ensina que o sofrimento (<em>dukkha</em>) advém fundamentalmente do apego a um <em>eu ilusório</em> (<em>anatta</em>, não–eu) e aos desejos compulsivos (<em>tanha</em>).</p>



<p>Thelema adapta e reinterpreta esta percepção ao sugerir que “<em>vontade pura, desembaraçada de propósito, liberta do desejo de resultado, é em todo modo perfeita.”</em> (como afirmado no <em>Liber AL vel Legis</em>, II:44). Esta formulação aproxima–se notavelmente do conceito de <em>nishkama karma</em> (ação desapegada) do <em>Bhagavad Gita</em> hindu e do <em>wu wei</em> (não–ação ou ação espontânea) taoísta. A verdadeira Vontade não é um desejo neurótico que busca gratificação, mas um movimento espontâneo e natural que ocorre quando as camadas artificiais do ego são removidas.</p>



<p>A receptividade, neste contexto, significa <strong>abandonar a fixação no eu que deseja</strong> e permitir que a ação surja naturalmente da percepção clara da situação, uma percepção que só é possível quando o ego cessa de filtrar tudo através de suas ansiedades e projeções.</p>



<h3 class="wp-block-heading">4.2. O Idealismo Alemão: Schelling e Hegel sobre Sujeito e Objeto</h3>



<p>Podemos também traçar paralelos frutíferos com a dialética do idealismo alemão, particularmente nas obras de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling e Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Para Schelling, em sua <em>Filosofia da Identidade</em>, sujeito e objeto, espírito e natureza, não são entidades fundamentalmente separadas, mas polaridades de uma identidade absoluta subjacente. A separação é uma ilusão produzida pela reflexão limitada.</p>



<p>Em termos thelêmicos, podemos interpretar a <em>Vontade</em> como a Tese (o movimento do sujeito), o <em>Mundo/Não–Eu</em> como a Antítese (a resistência do objeto), e a <em>Grande Obra</em> (a realização mágicka completa) como a Síntese superior que supera e preserva ambos. A Vontade só se realiza plenamente ao encontrar e se unir ao seu oposto dialético, o cosmos que inicialmente parece externo e resistente.</p>



<p>Hegel, em sua <em>Fenomenologia do Espírito</em>, demonstra como a consciência só atinge sua plena realização (<em>Geist</em>, Espírito Absoluto) através do doloroso processo de negação e reconhecimento do outro. A famosa dialética do senhor e do escravo ilustra que a dominação unilateral (a imposição da Vontade sem receptividade) é insatisfatória e alienante; apenas no reconhecimento mútuo há verdadeira liberdade.</p>



<p>A persistência de Crowley de que “<em>Amor é a lei, amor sob vontade</em>” [Liber AL, I:57] reflete precisamente essa necessidade hegeliana de união e reconhecimento. O Amor (<em>Agape</em>) é o método dialético de unir o sujeito ao objeto, de reconciliar a Vontade com o Mundo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">4.3. Hume e Sartre: A Vacuidade do Ego como Condição para a Autenticidade</h3>



<p>Filósofos empiristas e existencialistas também oferecem insights valiosos. David Hume, em seu <em>Tratado da Natureza Humana</em>, argumentou famosamente contra a existência de um <em>eu substancial e imutável</em>. Quando Hume volta sua atenção introspectivamente para dentro de si mesmo, não encontra um <em>eu</em> permanente, mas apenas <strong>um feixe ou coleção de diferentes percepções</strong> em constante mudança.</p>



<p>Jean–Paul Sartre, posteriormente, em <em>O Ser e o Nada</em>, desenvolveu a noção de que a consciência é fundamentalmente <strong>nada</strong> (<em>néant</em>), não no sentido de inexistência, mas no sentido de que ela é pura <strong>transcendência</strong>, sempre projetando–se para além de si mesma, n<strong>unca coincidindo consigo mesma</strong>. A existência precede a essência; não há um <em>eu</em> dado previamente, mas apenas a liberdade radical de se fazer.</p>



<p>Em Thelema, essa <strong>vacuidade essencial do ego</strong> não é uma limitação, mas o espaço necessário para a manifestação da divindade. <strong>O magista deve </strong><strong>esvaziar–se</strong><strong> (passividade) para ser preenchido pela Verdadeira Vontade (atividade).</strong> Como na metáfora frequentemente utilizada: se o copo já está cheio de ego, preconceitos e condicionamentos, não pode receber o vinho da vida divina. A receptividade é, portanto, a condição de possibilidade para qualquer realização autêntica.</p>



<h2 class="wp-block-heading">5. A União como Chave Soteriológica: Liber CL e Liber Astarté</h2>



<h3 class="wp-block-heading">5.1. Liber CL vel לענ De Lege Libellum: A Liberdade na Interconexão</h3>



<p>A literatura técnica e teológica de Crowley reforça sistematicamente que a imposição viril da vontade é apenas metade da equação mágica. O texto <em>Liber CL vel </em><em>לענ </em><em>De Lege Libellum</em> (<em>Uma Sandália, Um Pequeno Livro sobre a Lei</em>), classificado como um documento da Classe D (instrução oficial) pela ordem Astrum Argentum, esclarece que a liberdade thelêmica e a Vontade operam necessariamente em um contexto de <strong>interconexão cósmica</strong>, onde o Amor (união) é a lei que guia e tempera a aplicação da Vontade.</p>



<p>Este texto traz de volta o trecho do Livro da Lei, ampliando o conceito de que “<em>todo homem e toda mulher é uma estrela</em>” [Liber AL, I:3], Não estrelas isoladas flutuando no vácuo, mas estrelas em um sistema gravitacional mútuo, onde cada órbita é determinada não apenas pela própria massa e momento, mas também pela atração de todas as outras estrelas. <strong>A liberdade não é o isolamento solipsista, mas a capacidade de seguir a própria órbita verdadeira em harmoniacom todas as demais órbitas</strong>.</p>



<p>Assim, a realização da Vontade individual pressupõe o reconhecimento e o respeito pelo <em>Não–Eu</em> — pelos outros seres, pelo ambiente natural, pelo cosmos como um todo. <strong>A tirania sobre o </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong> não é uma expressão da Verdadeira Vontade, mas sua perversão egoica.</strong> A verdadeira Vontade, quando descoberta e seguida, alinha–se naturalmente com a ordem cósmica, sem fricção nem conflito.</p>



<h3 class="wp-block-heading">5.2. Liber Astarté vel Berylli: A Devoção como Dissolução Extática</h3>



<p>Mais explicitamente ainda, o <em>Liber Astarté vel Berylli</em> (Liber CLXXV), também classificado como Classe D, instrui o praticante na arte da <em>Bhakti Yoga</em> ou união pela devoção, a adaptação thelêmica ocidental do caminho devocional hindu. Nesta prática, o magista adota uma postura de <strong>total passividade e adoração</strong> a uma divindade escolhida (que pode ser Astarté, Ísis, Apolo, Cristo, ou qualquer arquétipo divino com o qual o praticante ressoe).</p>



<p>O método prescreve que o devoto organize sua vida inteiramente em torno dessa divindade, estabelecendo práticas diárias rigorosas de oração, invocação, contemplação e oferendas, tratando a entidade como um amante divino. O praticante deve <strong>suprimir deliberadamente o ego e a vontade pessoal</strong> para se tornar um <strong>veículo transparente</strong><strong> da divindade</strong>. A intensidade emocional e a concentração exclusiva visam dissolver gradualmente as fronteiras psicológicas entre adorador e adorado.</p>



<p>O objetivo final não é a submissão servil a um deus externo (como na religião exotérica convencional), mas a <strong>união mística</strong> (<em>Samadhi</em> ou <em>Unio Mystica</em>). Quando a devoção atinge seu ápice, a distinção entre sujeito (o magista) e objeto (a divindade) colapsa. Não há mais <em>devoto</em> e <em>deus</em>, mas uma unidade indissolúvel. Como afirma a proclamação da Missa Gnóstica: ”<em>Não há parte de mim que não seja dos deuses</em>”.</p>



<p>O sucesso na Magick, conforme demonstrado pelo <em>Liber Astarté</em>, não é a conquista ou dominação do universo pelo mago (uma fantasia de poder egoico), mas a <strong>dissolução do mago no universo</strong>: um ato supremo de receptividade e passividade onde o praticante se torna o Cálice que contém a totalidade do cosmos.</p>



<h3 class="wp-block-heading">5.3. Ágape: O Amor como Operador Técnico da União</h3>



<p>O conceito de <em>Ágape</em> (Amor) em Thelema não é sentimental, mas <em>técnico</em>. É definido como o <strong>instinto de união</strong> — a força que compele o sujeito a sair de si mesmo e se integrar ao objeto. Significativamente, na Gematria grega (<em>isopsēphía</em>), tanto <em>Thelema</em> (Vontade) quanto <em>Ágape</em> (Amor) somam 93, indicando sua identidade essencial ou complementaridade perfeita.</p>



<p>A fórmula completa, “<em>Amor é a lei, amor sob vontade</em>”, sugere que enquanto a Vontade define a <em>direção</em> (a órbita da estrela), o Amor é o <em>método</em> (a força gravitacional) que conecta essa estrela ao corpo infinito do universo (Nuit), permitindo a interação, a troca e a existência manifestada. Sem Amor, a Vontade seria apenas um vetor abstrato no vácuo; sem Vontade, o Amor seria uma fusão indiferenciada e caótica.</p>



<p>O Amor, portanto, é o agente que <em>dissolve o ego</em> e permite que a consciência individual se expanda e se integre ao Todo. <strong>Praticantes que enfatizam apenas a Vontade e ignoram o Amor são descritos criticamente como “vivendo à </strong><em><strong>Meia Lei”</strong></em>: uma versão incompleta e distorcida de Thelema que r<strong>esulta em egoísmo, conflito e alienação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">6. O Não–Eu na Práxis Cotidiana</h2>



<h3 class="wp-block-heading">6.1. A Sacralidade do Outro</h3>



<p>A compreensão da importância do <em>Não–Eu</em> tem profundas implicações éticas e sociais. Se, como afirma o <em>Liber AL</em>, “<em>Todo homem e toda mulher é uma estrela”</em>, então<strong> cada </strong><em><strong>Outro</strong></em><strong> (cada </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>) é um ser soberano com sua própria trajetória sagrada e inviolável.</strong> O reconhecimento do <em>Não–Eu</em> implica reconhecer a divindade e a autodeterminação inerentes ao outro.</p>



<p>Quando um thelemita olha para outra pessoa, ele é instruído a ver não um objeto a ser manipulado ou um obstáculo a ser removido, mas uma <em>manifestação do corpo de Nuit</em>, uma parte do Todo divino do qual ele próprio é parte. <strong>Amar o </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>é, paradoxalmente, amar a si mesmo e à totalidade da existência</strong>, pois a distinção entre <em>Eu</em> e <em>Não–Eu</em> é, em última análise, uma convenção útil mas não uma verdade metafísica absoluta. Ou, como é dito em <em>Liber CL</em>: “<em>no Caminho do Amor, o Mal aparece como ‘tudo o que tende a impedir a União de quaisquer duas coisas’.</em>”</p>



<h3 class="wp-block-heading">6.2. A Ética da Não–Interferência</h3>



<p>O impacto prático do conceito de <em>Não–Eu</em> nas relações sociais é a formulação de uma <strong>ética da não–interferência</strong>. Se cada indivíduo é uma estrela com sua órbita própria (sua Verdadeira Vontade), então a liberdade de cada um é sagrada e inviolável. O reconhecimento do <em>Não–Eu</em> implica respeitar que o outro tem um caminho único que não deve ser perturbado por imposições externas.</p>



<p>O conflito social, nesta perspectiva, não surge do exercício legítimo da Vontade, mas da <em>desordem</em>, quando uma <em>estrela</em> sai de sua órbita verdadeira (por ignorância, medo ou condicionamento) e invade o caminho de outra. Se todos estivessem cumprindo suas Verdadeiras Vontades, haveria uma harmonia natural, como engrenagens perfeitamente ajustadas em um mecanismo cósmico.</p>



<p>Eticamente, <strong>qualquer tentativa de impor a própria vontade egoica sobre o </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>, de manipular, coagir ou desviar outra pessoa de seu caminho autêntico, seja ou não através de meios mágicos ou ritualísticos, é classificada como </strong><em><strong>magia negra</strong></em>. Portanto, a relação com o <em>Não–Eu</em> exige um respeito absoluto pela autonomia alheia; não como um limite externo à própria liberdade, mas como sua condição de possibilidade.</p>



<h3 class="wp-block-heading">6.3. Cooperação versus Competição</h3>



<p>Contrariando a visão de que Thelema promove o isolamento competitivo, a doutrina enfatiza que a liberdade individual é <strong>dependente da liberdade coletiva</strong>. O ser humano não evoluiu para viver no vácuo; somos fundamentalmente sociais. A <strong>tapeçaria de interações sociais não é um obstáculo acidental à liberdade, mas seu tecido constitutivo</strong>.</p>



<p>O thelemita deve compreender que, enquanto houver restrição ou tirania no <em>Não–Eu</em> (na sociedade mais ampla), sua própria liberdade está potencialmente comprometida. <strong>A liberdade de um indivíduo valida e confirma a liberdade dos outros</strong>. Em uma sociedade thelêmica ideal, a cooperação harmônica baseada no reconhecimento mútuo da soberania de cada estrela supera a competição predatória baseada no medo e na escassez.</p>



<p>Ao dizer ao outro “<em>Faze o que tu queres será o todo da Lei”</em>, o indivíduo está concedendo ao <em>Não–Eu</em> a mesma dignidade e liberdade que reclama para si, criando assim um fundamento para uma irmandade universal baseada não na conformidade, mas na <strong>autonomia mútua</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Conclusão</h2>



<p>Em suma, Thelema não é uma apologia à tirania do ego, nem uma glorificação do individualismo narcisista contemporâneo. É, ao contrário, um <strong>sistema complexo e sofisticado de autorrealização</strong> que exige o equilíbrio dinâmico e a integração harmônica entre atividade e passividade, entre imposição e receptividade, entre Vontade e Amor.</p>



<p>Retornando ao argumento central deste estudo: <strong>a interpretação de Thelema como uma doutrina de imposição da vontade individual sobre o cosmos (ou sobre o outro) representa uma compreensão fundamentalmente imatura e equivocada</strong>, típica daqueles que permanecem presos nas camadas exotéricas e superficiais do sistema. O praticante maduro compreende que <strong>o verdadeiro objetivo de Thelema é a união do microcosmo com o macrocosmo</strong>: a realização da Grande Obra através da <strong>dissolução das fronteiras ilusórias entre o </strong><em><strong>eu</strong></em><strong> e o </strong><em><strong>não–eu</strong></em>. Esta união não aniquila a individualidade, mas a <strong>transfigura</strong>, revelando que a verdadeira soberania individual reside não na oposição ao Todo, mas na participação consciente e harmônica na ordem cósmica.</p>



<p>Utilizando o linguajar simbólico apropriado, a Baqueta deve ser temperada e completada pelo Cálice; a projeção assertiva da Vontade deve ser equilibrada pela recepção contemplativa do Entendimento. O Sinal de Puella, a Sacerdotisa na Missa Gnóstica e as práticas devocionais do <em>Liber Astarté</em> demonstram que a <strong>passividade não é fraqueza, mas um dos maiors poderes de um magista</strong>, um <em>poder magnético</em>, o poder de atrair, conter, nutrir e transformar.</p>



<p>Através do processo de individuação (no sentido junguiano) e da união mística com o <em>Não–Eu</em> (no sentido budista, hegeliano e thelêmico), o thelemita não busca impor–se tiranicamente sobre o mundo, mas tornar–se um <strong>canal desimpedido</strong> para a expressão da ordem cósmica. <strong>O objetivo final não é a conquista do universo, mas a </strong><strong>dissolução extática no universo</strong><strong>, realizando assim a fórmula sagrada de </strong><em><strong>Amor sob Vontade</strong></em><strong>.</strong></p>



<p>Como afirma o <em>Liber AL vel Legis</em> [I:42-43]: “<em>Deixai aquele estado de multiplicidade limitado e repugnante. Assim com vós todos; tu não tens direito senão fazer a tua vontade. Fazei isso, e nenhum outro dirá não.</em>” Esta passagem, corretamente compreendida, não é um convite ao hedonismo ou à tirania, mas uma instrução para descobrir e realizar a Verdadeira Vontade, aquela Vontade que, por estar perfeitamente alinhada com o cosmos, não encontra resistência legítima, pois reconhece e respeita a soberania de todas as outras vontades verdadeiras.</p>



<p>A Grande Obra, portanto, é simultaneamente <strong>individuação</strong> (tornar–se plenamente o que se é) e <strong>união</strong> (dissolver–se no que transcende o eu). Esta aparente contradição é resolvida na percepção de que o eu mais autêntico e individualizado é precisamente aquele que <strong>compreendeu sua identidade fundamental com o Todo</strong>. Como proclama a Missa Gnóstica: “<em>Não há parte de mim que não seja dos deuses</em>”.</p>



<p>Assim, a passividade e a receptividade revelam–se não como meras virtudes complementares à Vontade, mas como <strong>condições essenciais</strong> para sua realização. <strong>Sem a capacidade de se abrir, de receber, de se dissolver e de se unir ao </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>, a Vontade permanece uma abstração estéril, um desejo egoico condenado à frustração.</strong> É apenas através da dança dialética entre Baqueta e Cálice, entre Vontade e Amor, entre atividade e passividade, que a Obra se consuma e o magista realiza sua verdadeira natureza como uma estrela consciente no corpo infinito de Nuit.</p>



<p>Amor é a lei, amor sob vontade.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Bibliografia</h2>



<p>BHAGAVAD GITA. Tradução de Rogério Duarte. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. [Referência ao conceito de <em>nishkama karma</em>].</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>Gems from the Equinox</strong>: Instructions by Aleister Crowley for his own Magical Order. Edição de Israel Regardie. Tempe, AZ: New Falcon Publications, 1988. [Contém os Libers citados: <em>Liber Astarté vel Berylli</em> e instruções sobre o <em>Sinal de Puella</em>].</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>Magick: Liber ABA, Book 4</strong>. Edição de Hymenaeus Beta. York Beach: Weiser Books, 1997. [Contém o <em>Liber XV (Missa Gnóstica)</em> e <em>Liber V (Liber Reguli)</em>].</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>O Livro da Lei: Liber AL vel Legis</strong>. Tradução de Marina Della Valle. Rio de Janeiro: Madras, 2018.</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>The Equinox, Vol. III, No. I</strong> (The Blue Equinox). Detroit: Universal Publishing, 1919. [Fonte original do <em>Liber CL vel </em><em>לענ </em><em>De Lege Libellum</em>].</p>



<p>FORTUNE, Dion. <strong>A Magia Aplicada</strong>. Tradução de Antônio Carlos Silva. São Paulo: Pensamento, 1982.</p>



<p>HEDENBORG WHITE, Manon. <strong>The Eloquent Blood</strong>: The Goddess Babalon and the Construction of Femininities in Western Esotericism. Oxford: Oxford University Press, 2020. [Sugestão acadêmica contemporânea para fundamentar a análise da Sacerdotisa e da receptividade na O.T.O.].</p>



<p>HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. <strong>Fenomenologia do Espírito</strong>. Tradução de Paulo Meneses. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. [Referência à dialética do senhor e do escravo e à união sujeito-objeto].</p>



<p>HUME, David. <strong>Tratado da Natureza Humana</strong>. Tradução de Débora Danowski. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2009. [Referência à crítica do &#8220;eu substancial&#8221;].</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</strong>. Tradução de Dom Mateus Ramalho Rocha. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. (Obras Completas de C.G. Jung; v. 9/2). [Referência ao processo de individuação e ao Self].</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>O Eu e o Inconsciente</strong>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. 26. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obras Completas de C.G. Jung; v. 7/2).</p>



<p>RAHULA, Walpola. <strong>What the Buddha Taught</strong>. New York: Grove Press, 1974. [Referência clássica para os conceitos de <em>Anatta</em> (não-eu) e <em>Dukkha</em> citados].</p>



<p>SARTRE, Jean-Paul. <strong>O Ser e o Nada</strong>: Ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. [Referência à consciência como &#8220;nada&#8221; e transcendência].</p>



<p>SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph. <strong>Sistema do Idealismo Transcendental</strong>. Tradução de Ruben Dario. Petrópolis: Vozes, 2010. [Referência à Filosofia da Identidade].</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">2465</post-id>	</item>
		<item>
		<title>A Breve Autópsia de Uma Quimera de Três Cabeças</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/a-breve-autopsia-de-uma-quimera-de-tres-cabecas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Ankh CL]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Sep 2025 15:50:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://quetzalcoatl-oto.org/?p=2311</guid>

					<description><![CDATA[Faze o que tu queres será o todo da Lei. Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos. Agostinho de Hipona... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/a-breve-autopsia-de-uma-quimera-de-tres-cabecas/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Faze o que tu queres será o todo da Lei.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.</p>



<p class="autor-citacao">Agostinho de Hipona — &#8220;Comentário à Primeira Carta de João&#8221;</p>
</blockquote>



<p>Certa vez, enquanto folheava &#8220;A Filosofia Perene&#8221; de Aldous Huxley, me deparei com essa frase de Santo Agostinho. Dificilmente o thelemita médio deixará de notar uma espantosa semelhaça entre ela e a Lei de Thelema. A Vontade e o Amor são pontos centrais, tanto em Thelema como na filosofia agostiniana. Além desse ponto de contato com Agostinho, há sua famosa auto-biografia chamada &#8220;Confissões&#8221;, cujo título, Crowley tomou, explicitamente, de caso pensado, para publicar também a sua própria — embora as associações subsequentes que faço aqui possam sem dúvida se tratar de meu próprio viés de confirmação, referências a Agostinho são evidentes na gênese de Thelema. Nada disso é por acaso, há convergências muito maiores na filosofia dos dois, como vou tentar demonstrar aqui.</p>



<p>Santo Agostinho, um dos ditos pais do Cristianismo Romano, foi um homem de interesses bem mundanos até a sua maturidade, porém, nunca deixou de debruçar-se sobre inquietações fundamentais da existência, como a problemática da existência do Mal. Notou a aparente contradição de um Deus bom que permite que o mal exista. Passou por algumas religiões buscando uma explicação teológica que o satisfizesse e, finalmente, encontrou a resposta: Deus, o Supremo Bem, é incapaz de fazer o Mal — dessa forma, o Mal existe porquê a vontade do homem é livre (a maioria de nós conhece a vontade livre pelo famoso termo &#8220;livre arbítrio&#8221;) e, munido deste supremo presente de Deus, o homem escolheu entregar-se cegamente a carne e aos sentidos que, por sua vez, se rebelaram contra o espírito, e assim, pela concupiscência no homem, abriu-se a porta para a existência do Mal no mundo.</p>



<p>Para Agostinho, a vontade não é má em si mesma. Pelo contrário, vontade é o motor do livre-arbítrio. É a faculdade que impulsiona a alma a agir e a tomar decisões. Agostinho via a vontade como o centro da vida moral e espiritual do ser humano. É a vontade, portanto, que escolhe o que o intelecto apresenta como bom ou mau. Porém, o desejo (<em>concupiscentia</em>), que é a manifestação da vontade corrompida pelo pecado original, aparece como impulso desordenado da alma em direção aos prazeres terrenos. No entanto, a vontade de um ser humano após o pecado original é dividida. Essa luta está descrita em sua auto-biografia &#8220;Confissões&#8221;, onde ele relata a sua própria batalha interna: &#8220;a vontade má fez nascer o desejo; e o desejo, consentido, fez nascer o hábito; e o hábito, não resistido, fez nascer a necessidade.&#8221; Essa dualidade na vontade é o cerne da tragédia humana: o ser humano quer fazer o bem, mas não tem a força para fazê-lo sozinho. A vontade e o desejo, quando não são dirigidos a Deus, levam à infelicidade e ao afastamento de Deus e a pessoa se torna escrava dos seus próprios desejos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Não há laço que possa unir o dividido senão amor</p>



<p class="autor-citacao">Liber AL vel Legis, Cap. I, Vers. 41</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Também, tomai vossa plenitude e vontade de amor como vós quiserdes, quando, onde e com quem vós quiserdes! Mas sempre para mim.</p>



<p class="autor-citacao">AL I:51</p>
</blockquote>



<p>Agora, vamos ao remédio agostiniano:</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A vontade humana precisa então ser restaurada e fortalecida pela graça divina. É a construção do que Agostinho chama de &#8220;boa vontade&#8221; (em oposição à &#8220;vontade má&#8221;, no sentido não vulgar do termo) Essa é a vontade que vem da graça divina, do contato com Deus &#8211; da ajuda de Deus que ilumina o intelecto e a fortalece. Sem a graça divina, a vontade humana é incapaz de se libertar da escravidão do pecado e do desejo desordenado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>&#8230;os escravos servirão</p>



<p class="autor-citacao">AL II:58</p>
</blockquote>



<p>O homem deve, portanto, ter sua vontade restaurada, refinada e fortalecida, na forma dessa &#8220;boa vontade&#8221; em consonância com a vontade de Deus.</p>



<p>Soa familiar?  <em>Descoberta da Verdadeira Vontade? Conversação com o Sagrado Anjo Guardião? Seja feita a Tua Vontade? Faze o que Tu Queres?</em></p>



<p>Em resumo (Em Agostinho):</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>O Mal existe pela perversão do livre arbítrio ou livre vontade pelo homem, escravo de seus próprios desejos.</li>
</ul>



<ul class="wp-block-list">
<li>A vontade humana deve ser restaurada, purificada e fortalecida, pelo contato com a graça divina, tornando-se assim a &#8220;boa vontade&#8221;, alinhada com a de Deus.</li>
</ul>



<p>Crowley, por sua vez, era um profundo conhecedor da Bíblia e dos Evangelhos. Então, creio que desprezar essas semelhanças com Agostinho como &#8220;meras coincidências&#8221; ou curiosidades sem valor possa ser uma super-simplificação, esvaziando de sentido algo muito mais profundo que merece criteriosa ponderação.</p>



<p>Por fim, penso que pode haver diversas razões para Crowley, de maneira tão obvia e evidente, ter referenciado tão diretamente Santo Agostinho em Thelema, as mais básicas, em minha humilde opinião:</p>



<ul class="wp-block-list">
<li>Pode, em Thelema, estar redendo homenagem e criando ou reformando sobre o corpo filosófico de Agostinho.</li>



<li>Pode estar escarnecendo de Agostinho, ao &#8220;recortar&#8221; trechos de sua filosofia para dilapida-la.</li>
</ul>



<p><em>Verdadeira Vontade</em> thelêmica, se manifesta pelo conhecimento e conversação com o Sagrado Anjo Guardião, a <em>Boa Vontade</em> agostiniana,  se manifesta pelo contato com Deus, pela graça divina e ao orientar seus desejos para Ele.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Se te agradam os corpos, louva a Deus neles, e dirige teu amor para teu artífice, para não o desagradar nas mesmas coisas que te agradam.</p>



<p class="autor-citacao">Agostinho de Hipona — &#8220;Confissões&#8221;</p>



<p>É minha opinião pessoal, ao menos: Crowley foi (também) um reformador religioso de inspiração claramente Agostiniana-Nietzscheana, (se é que se pode vislumbrar tão fantástica e improvável quimera vivendo nos bolsos do titio).</p>
</blockquote>



<p>A infame frase de Nietzsche sobre Deus estar morto, por exemplo, é uma crítica do que ele via como distorções pelas instituições humanas e igrejas. Não é uma afronta direta, em primeiro momento, à figura do Cristo. Fomos nós que o matamos, afinal, ao perverter os valores morais em favor da criação de instituições geridas por cínicos e hipócritas, na verdade, vazias de valores.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos!</p>



<p class="autor-citacao">Nietzsche, F. — &#8220;Gaia Ciência&#8221;</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>No fundo, existiu um único cristão, e este morreu na cruz.</p>



<p></p>
</blockquote>



<p class="autor-citacao">Nietzsche, F. — &#8220;O Anticristo&#8221;</p>



<p>Lembro aqui que a Bíblia também está cheia de passagens em que o próprio Jesus chama, com gosto, com raiva e com força, muitos sacerdotes de hipócritas — muitos até creditando a ele a destruição (e posterior reconstrução do templo).</p>



<p>No Liber 888, diz Crowley:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Minha única desculpa é que tenho uma qualificação muito especial, a saber, um conhecimento da Bíblia tão profundamente enraizado que dificilmente parecerá injusto dizer que formou todo o alicerce da minha mente.</p>
</blockquote>



<p>E ainda, no Liber 888:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Por outro lado, se o Novo Testamento for o documento composto que se afirma neste ensaio, <strong>sou o mais verdadeiro de todos os cristãos</strong>. Concordo com praticamente todas as palavras atribuídas ao Yogi Jesus, e quase todas as palavras do Essênio. É verdade que rejeito o Salvadorismo, e o elemento judaico das profecias cumpridas, e o louvor à Lei de Moisés; mas confio humildemente que qualquer deficiência nesses aspectos possa ser mais do que compensada por uma superabundância em outro. Pois não só considero o culto de John Barleycorn a única religião verdadeira, como restabeleci sua adoração; nos últimos três anos, filiais da minha organização surgiram em todo o mundo para celebrar o antigo rito. Que assim seja.</p>
</blockquote>



<p>Sobre a Missa Gnostica, no Equinócio Vol III edição de 1919, em seu Prospectus, Crowley diz:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Liber XV. de acordo com a Igreja Católica Gnóstica, que <strong>representa o cristianismo pré-cristão original e verdadeiro</strong>.</p>
</blockquote>



<p> Assim, eu, particularmente, creio que Crowley seja um verdadeiro erudito, grande conhecedor dos textos, das experiências, dos fenômenos religiosos e espirituais e um genuíno reformador — com inspiração profundamente cristã (no sentido real do termo). Então sim, para mim, há sinais discretos em sua obra de que ele rende homenagem ao <strong><em>cristianismo verdadeiro</em></strong> (seja lá o que isso for), o melhora e o retifica para o Novo Aeon. É um arauto e profeta verdadeiro da transvaloração nietzscheana e, por mais improvável que isto seja, valendo-se das armas de Santo Agostinho.</p>



<p>Será Agostinho um santo gnóstico algum dia?</p>



<p>Amor é a lei, amor sob vontade.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">2311</post-id>	</item>
		<item>
		<title>Deus Está Morto!</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/deus-esta-morto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 May 2024 15:52:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://quetzalcoatl-oto.org/desenv/?p=1549</guid>

					<description><![CDATA[&#8220;Deus está morto!&#8221;, bradou Nietzsche. É claro que, logo depois, Deus declarou que Nietzsche é quem estava morto. E pelo visto a palavra final foi do velhote rancoroso. Mas a afirmação do autor de &#8220;Assim Falou Zaratustra&#8221; ainda provoca um arrepio na espinha de muita gente. E não estou me referindo às beatas da paróquia... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/deus-esta-morto/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8220;Deus está morto!&#8221;, bradou Nietzsche. É claro que, logo depois, Deus declarou que Nietzsche é quem estava morto. E pelo visto a palavra final foi do velhote rancoroso. Mas a afirmação do autor de &#8220;Assim Falou Zaratustra&#8221; ainda provoca um arrepio na espinha de muita gente. E não estou me referindo às beatas da paróquia ali da esquina ou ao medo de certos autoproclamados bispos de perderem a clientela. Há uma espécie de horror nato na humanidade que esta frase parece evocar.</p>



<p>Garantir a morte de Deus, este mesmo Deus que — bem ou mal — tem batido ponto nos últimos dois mil anos (ou mais, se considerarmos o currículo anterior), soa por demais decisivo e até mesmo antinatural. Bolas, mas por quê?</p>



<p>Acredito que a melhor resposta a esta pergunta tenha sido enunciada por Dostoiévski. Disse o russo que, se Deus não existe tudo é permitido, e acaba que ninguém precisa de escrúpulos, moral, sentimentos… Pois está enraizada a multimilenar idea do eixo bem–mal servindo de base moral para a humanidade. Quantas vezes você não ouviu alguém falando que uma pessoa que faz algo condenável &#8220;não tem Deus no coração&#8221;? O que faz com que o ser humano se comporte é o monitoramento pavloviano divino. Você é um bom menino? Então ganha biscoito. Não é? Então fica de castigo. Só que o biscoito era um visto no passaporte para o Céu e o castigo era um bate papo muito longo e entediante com o Capeta (sem direito a cerveja).</p>



<p>O grande problema não é que sem Deus a alma humana fica sem berço. O problema é que sem Deus o ser Humano passa a ser seu próprio eixo. Certo, certo…&nbsp;Mas, e daí?</p>



<p>Ocorre que religiões como o Cristianismo (eu disse religiões, não empreendimentos comerciais), Judaísmo, Islamismo e outras possuem esta dicotomia de Bem verus Mal, tudo devidamente herdado de religiões anteriores como o Mitraísmo e o Zoroastrismo. Este tipo de dicotomia construiu maravilhosamente bem as bases morais de nossa sociedade. Ora, fale–se o que quiser dos Dez Mandamentos mas, retirando-se a parte da idolatria que estava lá para garantir o troço, é uma bela regra de conduta, tão boa quanto qualquer livro de boas maneiras hoje. Consideremos que estas religiões lidavam com sociedades em que não vomitar na mesa já era considerado muito chique. Ou seja, uma humanidade bárbara que se deixada à solta provavelmente continuaria espetando uns aos outros só por passatempo.</p>



<p>A humanidade em si não é diferente do indivíduo. Uma criança também precisa de normas severas para poder conviver com o mundo, qualquer um que tenha filhos sabe disto. Você não perde tempo explicando a uma criança de quatro anos que aquela coisa colorida e legal é um autêntico vaso da dinastia Ming que custa uma fortuna e que o Joãozinho (sempre ele, pobre Joãozinho) não pode usá-lo como trave de futebol pois isto quase certamente irá quebrar uma obra de arte preciosíssima e irrecuperável. Ufa! Obviamente o Joãozinho não entenderá patavinas disto. E já era um vaso. Você simplesmente diz &#8220;larga o vaso&#8221; e pronto. Depois que a criança está mais crescida você passa a explicar os porquês (ela mesma cobrará isto). Finalmente um dia você descobre que não precisa mais explicar, a criança já entende que certas coisa são brinquedo e outras não. Ou seja, você vai impondo uma severidade cada vez menor à medida que a maturidade vai chegando. É a mesma coisa com a humanidade como um todo. Já fomos crianças que quebravam não apenas nossos brinquedos como as cabeças, digo, os brinquedos dos outros. Neste contexto, o rígido código moral de uma religião osiriana se faz necessário para impedir que a humanidade, ainda criança faça, besteira. Ou, pelo menos, que não faça besteiras demais.</p>



<p>Se o Æon de Ísis caracterizou–se pela descoberta da vida, o de Osíris foi pela descoberta da moral. Bem, mal, certo, errado… Eram conceitos que o Ser Humano precisava compreender mas que ainda não estava maduro para tanto. Ok, se a explicação não vai ser entendida que se dane a explicação. Não pode e pronto! E se desobedecer… Ai, ai, ai! Para isto coloca-se um eixo comportamental que deve ser seguido sem muitas discussões. Afinal de contas quando não se sabe muito bem para onde ir é melhor ficar na estrada que nos foi indicada mesmo. E para isto as religiões osirianas são bem construídas.</p>



<p>Só que o pessoal começou a anunciar que não tem Deus coisa nenhuma, que isso é bobagem… A grande maioria das pessoas que diz isto não percebe as implicações do que está dizendo. Se o eixo Deus–Diabo era o conduto comportamental humano, simplesmente retirar este eixo acaba com o direcionamento moral de toda a humanidade.</p>



<p>E isto é complicado… Pois nem todo mundo está pronto para isto. Afinal quando você perde o seu Guia Rex da Moral e dos Bons Costumes vai ser obrigado a achar sozinho o caminho para casa. E tome de pegar ônibus errado e tentar entrar em rua de contra mão. Sem a presença do Deus para julgar os Homens nós mesmos somos obrigados a conduzir este julgamento.</p>



<p>Afinal, se Deus está morto o Diabo também está!</p>



<p>E isto significa que não podemos mais jogar nossa mesquinhas esperanças em uma entidade superior que parece não ter mais nada a fazer a não ser ficar tomando conta da gente, e não poderemos mais jogar nossas culpas no malvadão que quer nossas almas para fazer suflê. E que todos nos viremos com o tal do &#8220;livre arbítrio&#8221;.</p>



<p>Era esta a idéia de Nietzsche ao declarar Deus morto: que já está na hora da humanidade assumir a responsabilidade por seus próprios atos e destino. Thelema procura lidar com esta não necessidade de um &#8220;censor&#8221; externo. A partir do momento em que se reconhece que a única lei possível é a realização da Vontade perde-se a necessidade da filosofia crime/castigo osiriana. Pois se os seus atos são simplesmente conseqüências da sua Vontade então você sabe que é responsável por cada um deles e suas conseqüências. Não há mais culpa a ser redimida, mas sim falhas a serem corrigidas. Não há mais castigo pelo pecado, mas o aprendizado do erro. Não há mais vergonha dos atos, mas a aceitação plena dos mesmos.</p>



<p>A mentalidade osiriana treme ao ouvir que &#8220;Deus está morto&#8221; por medo, pois não está ainda pronta para assumir as responsabilidades por si. A mentalidade do Æon de Hórus é diferente. Ela assume seus atos e lembra–se daquela citação da Missa Gnóstica, &#8220;eu sou só, não existe Deus onde estou&#8221;. E dá um sorriso satisfeito</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">1549</post-id>	</item>
		<item>
		<title>A Palmeira de Deborah</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/a-palmeira-de-deborah/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Moisés Cordovero]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 May 2024 15:08:41 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cabala]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Sabedoria]]></category>
		<category><![CDATA[Traduções]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://quetzalcoatl-oto.org/desenv/?p=1438</guid>

					<description><![CDATA[Capítulo I Desde tempos imemoriais os pregadores apontaram para o fato de que o principal ensinamento da religião é &#8220;tu deves andar em Teus caminhos&#8221;. A doutrina da Imitatio Dei teve muitos significados diferentes, dependendo da noção que o devoto tenha sobre a natureza de Deus. No Judaísmo esta doutrina sempre teve um caráter ético.... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/a-palmeira-de-deborah/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading">Capítulo I</h2>



<p>Desde tempos imemoriais os pregadores apontaram para o fato de que o principal ensinamento da religião é &#8220;tu deves andar em Teus caminhos&#8221;. A doutrina da <em>Imitatio Dei</em> teve muitos significados diferentes, dependendo da noção que o devoto tenha sobre a natureza de Deus. No Judaísmo esta doutrina sempre teve um caráter ético. &#8220;Como Ele é misericordioso, sejam assim misericordiosos; como ele é compassivo, sejam assim compassivos&#8221;.</p>



<p>O Talmude prega isto de forma explícita. O Deus da Agadá veste os nus, visita os doentes, alegra o noivo e a noiva, conforta os enlutados. Ser como Deus é realizar atos de caridade. Mas como alguém pode ser como o inescrutável Ain Sof? A Tradição diz: &#8220;Imitem as midoth de Deus&#8221;. Para o Agadista as midoth são traços de caráter; mas, para os cabalistas, elas são as Sefiroth. E como alguém pode ser como as Sefiroth? Este é o problema ético da Cabala, e o Tomer Deborah é uma tentativa de se encontrar uma solução.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo II</h2>



<p>Para que o homem possa se assemelhar ao seu Criador no Mistério de Kether, ele deve possuir as seguintes características, os quais são maiores na Providência Divina:</p>



<p>Primeiro: A mais abrangente é a qualidade da humildade, a qual depende de Kether, pois está acima de todas as outras qualidades, e mesmo assim não ergue a si mesma e nem se mantém orgulhosa, mas de fato desce e olha para baixo todo o tempo. Existem duas razões para o seu comportamento: A qualidade de Kether se envergonha de olhar para cima, para a sua Causa, embora o seu Emanador sempre olhe para baixo para dar o seu benefício; mas ela, Kether, sempre olha para baixo. Assim também deveria o homem sempre se envergonhar de olhar para o alto e de ser soberbo, e deveria olhar para baixo e minimizar a sua importância tanto quanto possível. Esta qualidade geralmente depende da cabeça, pois nenhum homem se torna orgulhoso a não ser levantando a sua cabeça. Ademais, não existe ninguém tão paciente e humilde quanto nosso Deus na qualidade de Kether, a qual é o mais alto grau da misericórdia, pois nenhuma imperfeição, nenhum pecado ou severo julgamento (dos mundos inferiores) ou qualquer outra causa a impede de supervisionar ou de mandar para baixo a sua Influencia, ou de constantemente conceder benefícios para os que estão abaixo de si. Os homens deveriam emular este comportamento: Nenhuma causa no mundo deveria impedi-lo de fazer o bem aos outros; e nem o pecado ou as ações desapropriadas de qualquer homem deveriam ficar em seu caminho e impedi-lo de fazer o bem para aqueles que necessitam de sua beneficência a todo momento. Assim como Deus provê para as necessidades de todos os seres, grandes e pequenos — desde o touro selvagem até os ovos de um verme — e nada retém, pois se Ele os privasse de sua atenção eles não poderiam existir sequer por um simples momento, e por causa disto Ele cuida de todas as coisas e espalha Suas mercês sobre todas as coisas; assim deveria o homem estender a sua misericórdia para todas as criaturas e nada considerar indigno de suas vistas. Mesmo a criatura menos importante deveria ser aos seus olhos muito importante, e ele deveria dar a ela o máximo de atenção e prestar serviço a todos os que necessitem de seus ofícios. De forma geral esta qualidade depende de Kether, e é chamada de Mistério da Cabeça.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo III</h2>



<p>Como deve um homem agir para se acostumar com a imitação de Divina Qualidade da Sabedoria?</p>



<p>Apesar de seu caráter muito elevado e misterioso, a Sabedoria Superna (Hokmah) estende-se sobre todas as coisas que existem. Sobre esta qualidade nós encontramos escrito: &#8220;Quão grandes são tuas obras, Ó Senhor, Tua as criastes todas com Sabedoria&#8221; (Sl CIV, 24). Assim deve se comportar o homem: Sua sabedoria deve se encontrar em toda parte, pronta a dar seus benéficos ensinamentos para todos os homens, a cada um de acordo com a sua habilidade para entender. Toda Sabedoria que ele pode conceder a outro, que ele assim o faça, e que nada o impeça de assim agir.</p>



<p>Agora, Hokmah tem duas faces: A Face superior está voltada para Kether, e esta face nunca olha para baixo, mas apenas recebe influência do alto. A segunda, a Face inferior, volta-se para baixo para supervisionar a Sefirah na qual a sua Sabedoria está se expandindo. O homem deve também combinar em si estes dois aspectos. Em certos momentos ele deve se entregar totalmente à contemplação em solidão sobre o seu Criador, para aumentar a sua sabedoria e aperfeiçoá-la. Mas nos outros momentos ele deve ensinar aos demais sobre esta sabedoria que o Senhor lhe conferiu. Assim como a divina Qualidade de Hokmah (Sabedoria) concede a cada sefirah abaixo de acordo com suas medidas e necessidades, assim deve o homem conceder da sua sabedoria a todos de acordo com suas inteligências, e de acordo com o que ele julgue benéfico ao recebedor. Ele deve se guardar de ensinar mais do que a inteligência do seu pupilo pode entender, para que assim não lhe cause danos. Desta mesma forma, a Sefirah Superior não derrama nas Sefiroth Inferiores mais do que elas podem receber.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo IV</h2>



<p>Como deve o Homem treinar-se na Qualidade de Binah (Inteligência)? Através do Arrependimento, pois nada há mais meritório, uma vez que isto corrige todas as imperfeições. Assim como a Inteligência tempera os Julgamentos e destrói-lhes a severidade, assim deve o homem retornar em verdadeira penitência e corrigir toda imperfeição. Qualquer um que viva todos os seus dias em pensamentos de arrependimento faz com que Binah brilhe sobre todos os seus dias. Assim todos os seus dias são passados em Arrependimento; ou seja, ele se identifica com Binah — que é o Arrependimento -e os dias de sua vida são coroados com o Mistério do Arrependimento Superno. Observe: Assim como o Arrependimento contém em si as Raízes de todo Ser, de acordo com o Mistério do Jubileu; e assim como a raiz dos Externos — o Mistério do Rio de Fogo, que é composto de Santidade transformada pelo Mistério de Gevurah também está enraizado aqui, e daqui se expande; e esta expansão é chamada de Ira de Deus (Haron Af), mas pelo Mistério de &#8220;E o Senhor aspirou doce aroma&#8221; (Gn VIII, 21), esta expansão retorna para a sua fonte e os Julgamentos são adoçados, a ira (haron af) é aplacada, e o Senhor &#8220;se arrepende do mal que ele disse que faria&#8221; (Ex XXXII, 14); desta mesma forma pode o homem através de seu arrependimento realizar este Mistério. Não diga que o Arrependimento beneficia apenas a parte santa do Homem, pois a sua parte má também é temperada por esta qualidade. Saibam disto como prova: Cain era mau, e descendia da Serpente, e mesmo assim foi lhe dito &#8220;Se você agir bem, não serás perdoado?&#8221; (Gn IV, 7) Não penses que, por que vistes do lado mau, não pode haver correção para ti. Isto é falso. Se você agir bem, você pode se enraizar no Mistério do Arrependimento, convertendo todas as más ações ao Mistério do Bem aonde estão enraizadas. Pois toda a Amargura Superna está enraizada na doçura, e pode entrar por sua raiz e corrigir-se; assim estes mesmo atos maus podem beneficiar o homem, e as suas culpas voluntariamente cometidas são contadas como méritos. Agora, as ações que ele cometeu testemunham contra ele a partir do Lado Esquerdo; mas quando ele retorna em perfeita penitência ele faz com que estas ações reentrem em suas Raízes Acima; e todos estes acusadores não são destruídos, mas são reconvertidos em bons fiadores, e se tornam enraizados na santidade, como foi o caso do aperfeiçoamento de Cain. Agora, se Cain tivesse realmente se arrependido e se corrigido, então o crime de Adão pelo qual Cain nasceu — este ninho de impureza — teria sido considerado como sendo um mérito, pelo Mistério de &#8220;o Filho purifica o Pai&#8221;. Mas ele escolheu não se arrepender, e por isto todo o Lado Esquerdo fluiu a partir daí. De qualquer forma, todos os ramos do Lado Esquerdo irão no futuro se tornar doces, e irão retornar para serem reparados, pelas razões que nós explicamos: O Homem enraíza o elemento do mal em si mesmo, o adoça, e o faz entrar no Bem. Assim o Homem limpa a Má Inclinação (Yezer Hara), a traz para a Região do Bem, e a re-planta na Santidade.</p>



<p>Este é o grau de Arrependimento no qual o homem deve se conduzir diariamente, e sobre o qual ele deveria meditar todas as vezes. Todo dia ele deveria realizar algum ato de penitência, de forma a passar todos os seus dias em Arrependimento.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo V</h2>



<p>Como deve o homem treinar-se na qualidade de Hesed (Amorosidade)?</p>



<p>A principal entrada para o mistério da Amorosidade é pela via do pleno amor ao Senhor, cuja adoração ele não abandonará por causa alguma, por que nada pode ser comparado ao seu amor por Deus. Por isto compete ao homem primeiro arrumar as condições necessárias à adoração Divina; e, no tempo que sobra após ter cuidado disto, ele pode cuidar de suas outras necessidades. O amor por Deus deve ser firme em seu coração sem se importar se ele recebe bençãos ou sofrimento e castigos. Os últimos devem ser considerados como vindos do amor de Deus por ele, como está escrito: &#8220;Fiéis são as feridas de um amante&#8221; (Prov. XXVII 12). Os rabinos interpretaram o verso: &#8220;E tu deves amar o Senhor&#8230;com toda tua força&#8221;(Deut. VI 2) como indicando que o amor é devido &#8220;apesar da medida com que Ele lida com você, seja ela uma medida de beneficência ou de sofrimento&#8221;. Ou seja, todas as qualidade Divinas devem ser identificadas com Hesed. Ao se fazer isto, o homem descobre que o mistério de sua conduta é tal que mesmo quando provém de Malkuth, — quando se relaciona com a qualidade do julgamento rigoroso — ela mesmo assim está ligada a Hesed. Este é o nível alcançado por Nahum de Ganzo, o qual, tentando ligar toda qualidade ao lado de Hesed,, que é chamado &#8220;o bem&#8221;, costumava dizer diante de todo acontecimento: &#8220;isto, também, é para o bem&#8221;. Ou seja, ele costumava dizer que mesmo aquilo que parece derivar do Lado Esquerdo, e estar ligado à Qualidade da Força, é de fato bom, e está ligado à Amorosidade; assim ele iria contemplar o aspecto positivo do ocorrido, e ocultava o Julgamento dentro deste. A prática e se ligar todas as coisas à Qualidade da Amorosidade é certamente um alto nível de conduta.</p>



<p>&#8220;Quem é piedoso? Aquele que trata gentilmente o seu Criador&#8221;. No Tikkune Zohar este ditado é explicado como que indicando que a gentileza que alguém faz no mundo abaixo deveria ser feita com a intenção de se efetuar a correção correspondente no mundo acima; é isto que significa lidar-se gentilmente com o Criador. Por isto se torna necessário ao homem estudar quais as qualidades de gentileza que existem entre os homens, para que ele possa lidar com todos os homens juntamente com o seu Criador, para assim adquirir a qualidade da gentileza. Assim nós delineamos os pontos seguintes, que constituem as qualidades da gentileza.</p>



<p>Primeiro. Já no nascimento do Homem alguém deve se esforçar para provê-lo com todas as coisas necessárias ao seu sustento. Assim deve-se trazer à mente o nascimento de Tiferet a partir de Binah. Quando ele está se esforçando no parto por causa de Din (Julgamento), Tiferet pode nascer com dificuldade, inclinando-se para o lado dos Poderes (Geburoth). O homem deve se esforçar para corrigir isto o máximo possível, para que Tiferet possa nascer se inclinando para a Direita, para que assim a criança possa nascer sem mácula. É este o significado místico da prece &#8220;Traga o nosso julgamento para a Luz, Ó Temível e Santo!&#8221; Ou seja, possa Tiferet trazer o Julgamento para o lado da luz, i.e. o Lado Direito, ou seja, que ele seja santificado e livre dos Poderes. Nesta prece está incluso a intenção do homem de ligar todos os seus atos à Amorosidade, e trazê-los de Binah para o lado de Hesed. Assim a criança nascerá em perfeito estado de desenvolvimento. Praticamente todas as injunções da Torah são motivadas por este desejo, ou seja, de que os Poderes não despertem o acirrar dos Julgamentos acima, e causem &#8220;parto e duros trabalhos&#8221;, proíba Deus!</p>



<p>Segundo. Visitar e curar os doentes. é bem sabido que a Shekhinah está doente de amor desejosa pela União, e a sua cura está nas mãos do homem, que pode lhe dar o Seu remédio apropriado, como está escrito &#8220;Sustentai-me com passas (ashishot), refresquem-me com maças (Cant II 5). O mistério da palavra ashishot é explicado no Livro do Tikkunim: Todas as coisas que estão ligada à Malkuth — no Lado Masculino a letra Yod, Hesed: e no Lado Feminino a letra He, Gevurah — tornam-se como dois braços sobre os quais Ela é suportada. Qualquer um que efetue este Mistério alivia a Doente em sua moléstia. Ainda; &#8220;refresque-me com maçãs&#8221;: Una-a entre Netzah e Hod, por cujos lugar de descanso ela procura, pois são branco e vermelho, como as maças onde a cor vermelha está unida à branca do lado de Hesed. Assim deve Ela ser visitada e purificada, e persuadida a beber e comer da Superna Generosidade da qual se abstém por que Sua &#8220;alma está aflita com a miséria de Israel&#8221; (Jz XI 16). A Superna Adoentada deve ser tratada assim como o doente terreno, pois Ela está muito doente. Assim nós estudamos: &#8220;Ele (o Santíssimo) está doente, &#8230;um fugitivo e andarilho&#8230;&#8221; (Gen. IV 12): &#8220;Um fugitivo de Seu Lugar no Mundo Vindouro; e um andarilho em busca Dela neste mundo&#8221;. Assim está escrito (Prov. XXVII 8): &#8220;Como um pássaro que vaga em busca do ninho dela&#8221; — ou seja, a Shekhinah — &#8220;assim é o homem que erra longe do seu lugar&#8221;. Ele procura por ela e jura que Ele jamais irá ao retornar ao Seu Lugar até ter restaurado Ela no lugar Dela. Na verdade, Ele está &#8220;ferido por causa de nossas transgressões, esmagado&#8221;- voluntariamente- &#8220;por causa de nossas iniquidades&#8221; (Is LIII 5). Mas o remédio para estes dois sofredores está em nossas mãos, e é nossa obrigação visitá-los, e prover as suas necessidades através de nosso labor na Torah e em seus Mandamentos.</p>



<p>Terceiro. Dar esmolas aos pobres. A partes Supernas correspondentes são Yesod e Malkuth. As &#8220;esmolas&#8221; (zedakah) devidas a eles estão explicadas no Tikuné Zohar: Noventa Améns, quatro Kedushot, Cem Bençãos, cinco Livros da Torah. Todos devem se esforçar por estes pobres de acordo com suas habilidades.</p>



<p>Quarto. Hospitalidade aos viajantes. Os viajantes são Tiferet e Yesod para os quais o homem deve providenciar um abrigo em Malkuth. Pois estes dois são chamados de viajantes por causa do Mistério do Exílio, pois eles são peregrinos em busca do Perdido. assim o Homem deve acomodá-los. Como diz o Zohar &#8220;Vós que andais pelo caminho falai disto&#8221;. (Jz V 10); esta virtude pertence aos que abandonamos confortos do lar por causa do estudo da Torah, pois eles fazem com que os viajantes Supernos se ocupem com as necessidades de Malkuth. Ainda: Qualquer um que separe momentos para o estudo da Torah faz com que Tiferet resida em Malkuth, como o Tikkune Zohar deixa claro. Agora, estes viajantes devem ser providos com comida e bebida e devem ser acompanhados em seu caminho. O Homem deve portanto trazer Tiferet e Yesod até Malkuth e alimentá-los ali. Isto é simbolicamente referido no verso: &#8220;Eu entrei no meu jardim, minha irmã minha noiva: eu colhi minha mirra e minhas especiarias; eu comi meu favo com meu mel&#8221; (Cant V 1). Isto se refere à Influência adequada à guia dos Mundos Inferiores que se expande do lado da Adoçada Gevurah. Aos caminhantes deve também ser dado de beber: &#8220;Eu bebi o meu vinho com o meu leite&#8221; (ibid.). Isto se refere à Influência Interna do Vinho Entesourado e do Mistério do Leite Adoçado que une Tiferet com Malkuth — Jacob com Rachel, Gevurah com Netzah ou Hod, como o Raya Mehemna explica. Finalmente o anfitrião deve ao viajantes o acompanhamento. Ele deve trazer o seu próprio Self e Alma para habitar com eles, e acompanhá-los na Imagem Superna. Assim deve ele se esforçar para trazer as outras Sephiroth para acompanhá-los. Muitas e grandiosas coisas estão inclusas nesta reparação. Para fazer um rápido resumo: o Homem deve tentar fazer tudo o que puder pelo seu próximo, e ter em mente, ao realizar os seus atos qual a relação que eles tem com os Mistérios Supernos. Assim ele poderá estar certo de que realmente os efetuou acima, estando plenamente versado nos mistérios. A melhor prática é mencionar oralmente o intento apropriado que se pretende efetuar Acima com o seu ato abaixo, e assim ele cumpre a descrição das Escrituras: &#8220;em tua boca, e em teu coração, é que deves fazê-lo&#8221; (Dt XXX 14).</p>



<p>Quinto. As obrigações dos vivos com os mortos. O paralelo superno para esta atividade é muito difícil de se conceber, pois se trata do Mistério do Desaparecimento das Sefiroth e do seu retorno aos seus bainhas acima. De que forma tão cuidadosa elas precisam ser arrumadas, e lavadas da impureza e vestidas de branco. As Sephiroth devem ser limpas pelo calor branco no fogo da boas ações, e assim serem elevadas ao Mistério da Unidade e unidas Acima. Elas devem ser carregadas acima dos ombros, o que é o Mistério da elevação das Sephiroth, uma após a outra, até que estejam elevadas acima dos ombros, o qual é o ponto de junção do braço com o tronco. Acima deste ponto está oculto o Mistério que não pode ser concebido. No enterro dos mortos deve-se ter em mente o seguinte verso &#8220;E Ele o enterrou no vale&#8221; (bagai) (Dt XXXIV 6), que nós traduzimos por &#8220;pelas treze sendas da Misericórdia&#8221; que dependem de Kether. Assim os enterrados elevam-se ao Éden Superno — Hokmah dentro de Kether. É preciso grande concentração de pensamento para efetuar este Mistério.</p>



<p>Sexto. Conduzir a Noiva à câmara nupcial. Todos os Mistérios da Unificação estão implicados aqui, pois todas as preces e unificações (yihudim) são conhecidas como o mistério de trazer a noiva à câmara nupcial. Principalmente, está nos mistérios das preces em suas várias categorias, na forma como elas estão arrumadas em sua sucessão na liturgia: primeiro, as leituras sacrificiais, depois os Salmos de Louvor, as Preces recitadas enquanto se está sentado, as quais contém a Shemah e suas bençãos, e finalmente a amidah, a qual é recitada em pé, e as demais reparações que se seguem. Todas essas são gentilezas prestadas ao noivo e à noite, cuidando-se de suas necessidades, e os preparando para a União.</p>



<p>Sétimo. Trazer a paz entre um homem e o seu próximo. Ou seja, entre Tiferet e Yesod. Estas duas Sephiroth algumas vezes afastam-se uma da outra, e é necessário aperfeiçoa-las e repará-las, para que se tornem iguais, unidas em amor e afeição. Isto é realizado através de boas ações. Pois quando Yesod se inclina para a esquerda e Tiferet para a direita elas se opõem uma à outra. e este estado perdura até Yesod ser levada à se inclinar também para a direita. Quando existe alguma imperfeição de pecado no mundo (não permita Deus!) existe ódio mútuo entre as Sephiroth, e não há qualquer união ou conexão entre elas. Aquilo que é dito aqui sobre as Sephiroth Tiferet e Yesod é igualmente verdadeiro sobre qualquer outras duas Sephiroth situadas em lados opostos, uma na direita e outra na esquerda, como, por exemplo Hokmah e Binah, ou Hesed e Gevurah, ou Netzah e Hod. A obrigação do Homem é trazer paz entre elas. É isto o que significa trazer paz entre um homem e seu próximo, ou entre um homem e sua esposa. Assim, por exemplo, Yesod traz paz entre Tiferet e Malkuth. Toda esta pacificação é um ato de benevolência para com o Superno.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo VI</h2>



<p>Como deve o Homem treinar-se na qualidade de Gevurah (Poder)?</p>



<p>Saiba que todos os atos que despertam a Má Inclinação de fato despertam os Fortes Poderes, assim deve-se evitar despertar um para não despertar o outro. A razão pela qual o homem foi criado com duas inclinações — uma boa e a outra má — é que uma corresponde à Amorosidade e a outra ao Poder. O Zohar, entretanto, afirma que a Boa Inclinação foi dada ao homem para o seu proveito próprio; mas a Má Inclinação foi dada a ele por causa de sua esposa. Quão doces são estas palavras! Agora, Tiferet, quando impregnada por Hesed, inclina-se ao Lado Direito, e toda a sua conduta é direcionada em direção ao lado Direito pela Boa Inclinação. Mas a Fêmea está no Lado Esquerdo, e todas as suas ações são dirigidas pelos Poderes. Por isto não se deve despertar a Má Inclinação por si mesma, pois neste caso o Homem Superno seria levado a agir com os Poderes e destruiria o mundo; pois todo despertar da Má Inclinação em direção ao lado dos Poderes que o homem causa por causa de seus interesses próprios, causa imperfeições no Superno. Por causa disto pode-se ver por que a raiva e outras paixões semelhantes são tão desprezíveis: elas fortalecem os Poderes Severos. De fato a Má Inclinação deveria ser agrilhoada e presa de tal forma que nenhuma ação pudesse despertá-la no corpo do homem — nem a paixão sexual, nem o desejo por lucro, nem a raiva, nem a busca de honra. Entretanto, por causa de sua esposa, ele poder gentilmente despertar a sua paixão gentilmente, em direção ao lado dos Julgamentos Amenizados, vestindo-a bem e providenciando-lhe uma habitação adequada. Mas ele deveria dizer: Ao vesti-la eu estou de fato removendo imperfeições da Shekhinah, a qual é adornada por Binah, a qual compreende todos os Poderes, mas que é amenizada pela multidão de Misericórdias. Assim todas as imperfeições do lar são na verdade perfeições da Shekinah, amenizadas a partir do Lado da Má Inclinação que foi criada para servir a vontade de ninguém mais alem do seu Criador. Por isto o homem não deveria ter a intenção de obter prazer físico destas coisas. Ele deve prepará-las para o profundo gozo na realização do Preceito — uma Divina União Superna. Assim fazendo, ele ameniza todos os Julgamentos e os aperfeiçoa Lado Direito. Este deve ser a sua aproximação à todas as formas de paixão que lhe vem da sua Má Inclinação. Ele deve usá-las primariamente para o benefício da mulher que o Senhor apontou como sendo a sua companheira. Toda paixão deve ser vertida em canais de adoração Divina e unidas ao lado Direito.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo VII</h2>



<p>Como deveria o Homem treinar-se na qualidade de Tiferet (Beleza)?</p>



<p>Não há dúvida que a qualidade de Tiferet refere-se ao estudo da Torah. Entretanto o homem deve estar sempre alerta para não se orgulhar de seu conhecimento da Torah, para não causar um grande mal. Pois ao se tornar orgulhoso ele faz com que a qualidade de Tiferet, que é a Torah, levante e se afaste dele. Mas quem quer que aja humildemente com o seu conhecimento da Torah faz com que a qualidade de Tiferet desça e se abaixe, derramando sua influência para baixo.</p>



<p>Abaixo de Tiferet estão quatro Esferas, e a estas correspondem três tipos de homens (N.T.·. pois Netzah e Hod são consideradas uma). Primeiro: Aquele que se mantém afastado de seus pupilos faz com que Tiferet se mantenha afastada e acima das Esferas de Netzah e Hod (Eternidade e Esplendor) as quais são os &#8220;instruídos pelo Senhor&#8221;, os pupilos de Tiferet. Mas aquele que se desce e ensina a Torah amorosamente faz com que Tiferet igualmente desça e derrame a sua influência sobre seus pupilos. Por isto deve-se lidar agradavelmente com seus pupilos, ensinando-os apenas o que podem compreender; e em seu mérito Tiferet derramará influência sobre eles de acordo com o grau que merecem.</p>



<p>Segundo: Aquele que se orgulha de seu conhecimento da Torah diante dos pobres e deles abusa, como no caso do Rabi Simeon ben Elazar, a quem o profeta Elias apareceu como um feio, desprezível, sujo mendigo, para prová-lo; a quem Rabi Simeon desprezou até Elias revelar a sua verdadeira identidade e reprová-lo por sua injúria. Qualquer um que mostre arrogância para com os pobres faz com que Tiferet aja com arrogância com Yesod e não derrame influência sobre ela; mas quando um homem trata os pobres com a consideração apropriada Tiferet brilhará sobre Yesod. Assim o pobre deveria sempre parecer grande aos olhos do sábio, e ele deveria se aproximar dele. Assim ele faz com que Tiferet acima una-se a Yesod, e ele próprio torna-se unido a ela.</p>



<p>Terceiro: Aquele que age com arrogância com os ignorantes por causa de seu conhecimento superior faz com que Tiferet erga-se e afaste-se de Malkuth (Reino) e pare de derramar influência sobre ela. Assim compete ao homem que se misture com todas as criaturas, e seja considerado por todos os homens. O am haarez (lit. homem da terra, ignoramus) está estabelecido abaixo, no Mistério chamado &#8220;Terra, e se um homem o chama de burro, (proíba Deus!) ele os rebaixa às cascas, e não merecerá mais ter um filho versado na Lei, como ensina o Talmude. Antes deve o sábio tratá-los gentilmente, de acordo com seus modos, assim como Tiferet verte luz sobre Malkuth de acordo com o pobre entendimento desta, pois a inteligência das fêmeas é fraca. Por este princípio ele nunca deve forçar (o conhecimento) sobre os fracos de mente, que são incluídos na classe designada &#8220;pó da terra&#8221;. Assim os antigos Sábios nunca se orgulhavam de seu aprendizado, como vemos em estórias tais como a do Rabi Hamnuna e do Rabi Hama ou daquele Ancião que fugiu quando eles tentaram beijá-lo, por quê desejava não tirar benefício algum de seu conhecimento superior da Torah.</p>



<p>Finalmente, quando engajado em argumentações sobre pontos da Lei a única intenção do homem deveria ser endireitar a Shekhinah e adorná-la com a Qualidade de Tiferet; ou seja, encontrar o verdadeiro sentido da Lei. Isto é o que os Sábios chamavam &#8220;uma disputa em prol do Nome do Céu&#8221;: Hesed e Gevurah misturam-se em Tiferet, concordando com ele em sua interpretação da Lei. Mas toda disputa que não for deste tipo deve ser evitada, pois Tiferet não cuidará de nada fora disto. Mesmo disputas sobre o significado da Torah, se o objetivo for apenas contradizer, leva a pessoa a um mau fim no Inferno (proíba Deus!). Não existe disputa que não cause imperfeições em Tiferet, a não ser discussões sobre a Torah feitas em Nome do Céu. Pois tais vias levam à Paz e terminam no Amor. Quando se procura o seu próprio prazer na Torah causa-se imperfeições na Qualidade Divina e se a seculariza; mas se ele trabalha sobre a Lei pelo prazer do Altíssimo, bendita seja sua parte! O fulcro disto tudo é: Que o homem refine suas opiniões no cadinho do Pensamento e submeta-se à diligente auto-exame; e se ele encontrar um traço de qualquer coisa indigna em si que ele arrependa-se disto. Ele deveria sempre confessar a verdade, para que assim Tiferet, que é a qualidade da Verdade, esteja sempre presente com ele.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo VIII</h2>



<p>Como deveria o Homem treinar-se nas Qualidades Netzah, Hod e Yesod (Eternidade, Esplendor e Fundação)?</p>



<p>Alguns dos métodos para a reparação de Netzah e Hod são comuns a ambos, ao mesmo tempo em que cada um também tem métodos de reparação aplicáveis apenas a si.</p>



<p>Como primeiro passo o homem deve ajudar estudantes da Torah e assegurar o seu sustento, tanto através de contribuições financeiras quanto por atitudes, como supri-los em suas necessidades — ou seja, alimentação — ou satisfazendo qualquer outra de suas necessidades para que eles possa prosseguir em seus estudos sem se perturbarem. Ele não deveria nunca depreciar o seu estudo, para que não estudem desatentos; mas deve honrá-los e louvá-los por seus bons atos, para que se sintam encorajados em seus trabalhos. Da mesma forma, deveria cuidar da obtenção dos livros necessários, da manutenção da Casa de Estudos, e tais outros assuntos pelos quais os estudantes da Torah são encorajados e apoiados. Todas essas ações dependem das duas qualidades Netzah e Hod e cada uma tem dentro de si os meios de alcançá-las, em um maior ou menor grau. Quanto mais se honra a Torah, e a apóia pelas palavras de sua boca, por seu serviço pessoal, ou através de contribuição financeira, ou despertando em outros o interesse pela causa da Torah e de seu apoio, mais ele se torna fixo e arraigado nessas duas Esferas, pois essas são chamadas &#8220;os sustentadores&#8221; e &#8220;aqueles que a retém&#8221; (Prov. III, 18).</p>



<p>Quanto aos estudantes da Torah, eles deveriam aprender com todo mundo, como dizem as Escrituras, &#8220;De todos os meus professores recebi entendimento&#8221; (Sl. CXIX, 99); pois a maestria da Torah não pode ser alcançada quando recebida de apenas um Mestre. Quem se torna de pupilo de todo mundo, merece se tornar uma carruagem para Netzah e Hod, &#8220;os instruídos pelo Senhor&#8221; (Isa. LIV, 13); e aquele que lhe ensina Torah está na categoria de Tiferet, que derrama sua influência para baixo, em direção de Netzah e Hod. Assim, o estudante que está recebendo instruções tem o mérito de fazer com que Tiferet lance sua luz em Netzah e Hod, e está de fato identificado com essas qualidades. Quando ele lê as Escrituras, que são do Lado Direito, ele tem uma relação pessoal com Netzah; quando ele estuda Mishnah, que é do Lado Esquerdo, tem uma relação pessoal com Hod; e a Gemarah, que inclui a ambas, provando as declarações da Mishnah através de evidências Escriturais, causa a reparação de ambas as Esferas.</p>



<p>Agora, portanto, como deve-se treinar na qualidade de Yesod (Fundação)? O homem deveria ser cuidadoso em sua fala de tal forma que não seja levado a pensamentos que resultem na emissão de sêmen. É desnecessário adicionar que deve-se evitar a fala grosseira; deve-se guardar mesmo de conversação limpa que faça surgir pensamentos excitantes. Isto está implicado na passagem das Escrituras &#8220;Não permita que sua boca leve a sua carne à culpa&#8221;(Ecl. V, 5); ou seja, não permita que sua boca pronuncie palavras que causem culpa na carne santa, o sinal do pacto, por uma emissão. E ainda está escrito, &#8220;Por quê motivo deveria Deus se irar à sua voz?&#8221; (ibid.). Agora, se a conversação grosseira está aqui indicada, por quê a Escritura fala de trazer à culpa? Já não entrou ele na culpa? Mas o significado aqui é o de que mesmo se a palavra em si não for pecaminosa, mas pura, ela deve ser evitada se for excitante. Agora podemos entender a construção do verso &#8220;&#8230; traze a sua carne à culpa&#8230; por quê deveria o Senhor se irar à sua voz?&#8221;. A saber, uma vez que a voz é a causa do pecado, Deus ficará irado por sua pronunciação, mesmo quando a fala per si é permitida; pois pelo mal que resulta da fala, a fala e a voz se tornam retroativamente malignas. Assim deve o sinal do pacto ser guardado contra o mau pensamento, para que não resulte da destruição da semente.</p>



<p>Uma precaução a mais: A qualidade de Yesod é sinal do pacto do Arco (i.e. o arco-íris); e o Arco Superior nunca é estirado a não ser para mandar setas para a qualidade de Malkuth (reino), que é o alvo para o qual as setas são destinadas. Da mesma forma as gotas seminais, que são lançadas como setas, devem ser reservadas para a criação de ramos e frutos. Assim como o Arco Superior nunca é estendido a não ser para o fim já mencionado, assim o homem nunca deve estender o seu arco, i.e. causar a sua ereção, a não ser contra o objetivo apropriado, que é a sua mulher no momento de sua pureza, que é o momento apropriado para o acasalamento. Mas se ele estica o seu arco em outros momentos ele portanto causa imperfeição nessa Qualidade, Deus proíba! O homem deve se guardar com todo cuidado, e sua principal defesa é se manter livre dos maus pensamentos.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo IX</h2>



<p>Como deve o Homem treinar-se na Qualidade de Malkuth (Reino)?</p>



<p>Em primeiro lugar, o homem deveria não se orgulhar de suas posses, mas considerar-se em todos os momentos um homem pobre, estando diante de seu Criador como um pobre e suplicante mendicante. Para se treinar nesta qualidade, mesmo que ele seja muito rico, deve considerar que nada que tenha realmente lhe pertença; mas deve pensar de si como se fosse abandonado, sempre necessitando das misericórdias do seu Criador, como se não possuísse nada além do pão que come. Seu coração deve ser submisso, e seus hábitos abstêmios. Acima de tudo, ele deve praticar humildade durante a prece, pois este é um encantamento maravilhoso; e quanto a aqueles que agem de modo diverso as Escrituras dizem: &#8220;então seja o teu coração erguido, e esqueças tu o senhor teu Deus&#8221; (Deut. VIII 14); pois onde há orgulho, existe esquecimento, por causa das Cascas Exteriores. Davi praticou excelentemente esta virtude quando disse, &#8220;Eu estou solitário e aflito&#8221; (Sal. XXV 16). Pois do que lhe valem sua mulher e filhos quando é julgado pelo Criador, ou na hora em que sua alma o deixa? Podem eles o acompanhar além da sepultura? Que ajuda podem prestar além da entrada na tumba? Por isto compete ao homem manter-se humilde e corrigir-se pelo Mistério inerente a esta Qualidade.</p>



<p>Uma segunda maneira de se acomodar a esta Qualidade é elucidada no Zohar, e trata-se de um meio muito importante, sem dúvida. Deve-se ir para um banimento voluntário, de lugar à lugar, por amor ao Nome dos Céus; e então se tornará uma carruagem para a Shekinah exilada.. Que se imagine: Aqui estou eu e minha casa; aqui estão os meus instrumentos; mas o que fará a Glória Superna uma vez que a Shekinah foi exilada e seus instrumentos não estão com ela, pois tiveram que ser deixados para trás por causa do seu banimento? Assim pensando o Homem irá contrair a sua vaidade o máximo que puder, como está escrito, &#8220;Orna-te para ir ao cativeiro&#8221; (Jer. XLVI 19). Seu coração irá se tornar submisso no exílio, e se inclinará à Torah; e então a Shekinah estará com ele. Assim deve-se separar constantemente da sua casa de repouso, como Rabi Simeão e seus associados costumavam fazer para se engajarem no estudo da Torah. Da mais alta excelência é a prática de se caminhar de um lugar para outro a pé, sem cavalo ou carruagem.</p>



<p>Outra das qualidades incluídas em Malkuth, e talvez mais importante do que todos os outros tipos de adoração, é temer o Glorioso e Temível Deus. O Temor é uma qualidade muito perigosa e se torna facilmente impura pela admissão dos Externos; pois se ele teme o sofrimento ou a morte ou o inferno, ele na verdade teme os Externos, pois tudo isto deriva dos Externos. O principal temor é o temor do próprio Deus. Por isto, o Homem deveria ter as seguintes coisas em mente:</p>



<p>Primeiro, a grandeza do Criador sobre todas as coisas. Embora o homem tema o leão ou o urso ou o salteador, ou o fogo ou o precipício, estes são apenas os Seus agentes menores. Por que ele então não deveria temer o Grande Rei? O temor de Deus deveria estar sobre o homem por causa de Sua suprema grandeza, e ele deveria dizer, Como pode o desprezível homem pecar contra tão grande Senhor? Se Ele fosse um urso o devoraria! Mas o Santo, bendito seja, suporta o abuso. Por causa disso não deveria ele temer Suas Grandeza e Terror?</p>



<p>Em segundo, o Homem deveria sempre ter em mente a Providência de Deus, como se estivesse constantemente sendo vigiado e observado. Um escravo sempre teme na presença de seu mestre. Da mesma forma, o homem está sempre na presença de seu Criador, e Seu olho o observa em todos os seus caminhos. Assim deveria ele viver com medo, pois como pode ele ousar transgredir qualquer um de Seus Mandamentos em Sua presença?</p>



<p>Em terceiro, como Ele é a Raiz de todas as almas, e todas elas estão enraizadas nas Sefiroth, e o pecador causa imperfeições em Seu Palácio, como deveria o homem não temer tornar a Residência do Rei suja com seus erros</p>



<p>Quarto, o homem deve notar que as imperfeições causadas por seus atos tiram a Shekinah de seu lugar no alto; e ele deveria se sentir muito amedrontado, pois como pode ele cometer um erro tão grave a ponto de banir o desejo do Rei por sua Rainha? O temor a Deus governado por estas considerações é o temor que enraíza o homem na perfeição da qualidade de Malkuth, e por estes meios ele pode se unir a ela.</p>



<p>O homem deveria tomar precauções para que a Shekinah se una a ele não o deserte. (*Zohar: Homem e Mulher). Assim, ante de tomar uma esposa, a Shekinah certamente não está com ele, pois a Shekinah se manifesta ao Homem a partir do Lado Feminino. O homem se encontra entre duas fêmeas — entre a fêmea material, neste mundo inferior que é como uma tumba, de onde tira o seu sustento, vestuário e intercurso sexual, e a Shekinah acima que permanece pronta a abençoá-lo com todas essas coisas, para que ele possa dá-las para a sua esposa de fé. Isto é análogo a Tiferet, que está entre duas fêmeas, a Mãe Superna (Binah) que derrama influencia sobre ele, e a Mãe Inferior, Malkuth que dele recebe comida, vestuário e obrigações conjugais — ou seja, Amorosa gentileza, Justiça e Misericórdia, como é bem sabido. Agora, a Shekinah não se manifestará ao Homem a não ser que ele assemelhe-se às Existências Superiores, como acabamos de explicar.</p>



<p>Existem tempos em que o homem separa-se de sua esposa por um destes três motivos: primeiro, por causa de sua impureza menstrual; segundo, por causa de sua preocupação com o estudo da Torah, pelo o que ele se abstém de se aproximar dela durante a semana; terceiro, por causa de suas viagens, durante as quais ele se abstém da licença (sexual). Durante estes momentos a Shekinah se une ao Homem e permanece com ele, para que em nenhum instante ele esteja só, como uma coisa a parte, mas seja todo o tempo um Homem completo — Macho e Fêmea. Uma vez que a Shekinah permanece em relação conjugal com o homem ele deve tomar cuidado para que ela não o deixe quando parte em suas viagens. Ele deve se apressar em recitar as preces ordenadas para os viajantes, e engajar-se no estudo da Torah, pois, em tais circunstancias, a Shekinah, que é chamada de Guardiã dos Caminhos, esteja constantemente ao seu lado, como acontece com todos aqueles que evitam o pecado e se engajam na contemplação da Torah. Da mesma forma, quando sua esposa está impura, a Shekinah fica ao seu lado se ele observa a separação apropriadamente. A noite em que ela se imerge, ou a véspera do Sabath, ou a noite quando retorna de uma viagem, são consideradas ocasiões propícias para a união conjugal mandatória. Nestas ocasiões a Shekinah está sempre aberta para receber almas santas; e por isto ele deveria então conhecer a sua esposa, e a Shekinah estará com ele.</p>



<p>O Zohar ensina que o intercurso deve ser feito apenas quando a Shekinah está em seu local apropriado, ou seja, entre os dois braços. Mas em épocas de perturbação pública, quando a Shekinah não está &#8220;entre dois braços&#8221;, isto é proibido. Assim diz o livro do Tikkune Zohar: Aquele que aspira a se unir com a filha do Rei de tal forma que ela nunca o deixe deve primeiro adornar-se com todos os tipos de ornamentos e belos aparatos. A referência é às qualidades mencionadas acima. Depois de ter se reparado apropriadamente ele deve querer recebê-la enquanto se ocupa com a Torah e carrega o jugo dos seus Mandamentos através do Mistério da União Incessante — e veja! ela imediatamente se casará com ele nunca se afastará dele. A União é condicionada pela própria limpeza e santificação que ele faz de si mesmo; e após ter alcançado as purificações necessárias e as santificações, ele deve assumir as obrigações de garantir o seu sustento, o seu vestuário e as obrigações conjugais, que são as três coisas que um homem deve à sua mulher. Primeiro, ele deve por todos os seus atos fazer com que a influência do Lado Direito desça sobre ela, pois isto é a sua comida. Em segundo, ele deve protegê-la do Lado dos Poderes, ou seja, do Lado Esquerdo, para que os Externos não reinem sobre Ela. Como ele a protege? Providenciando para que nenhum aspecto da Inclinação para o Mal, como o desejo carnal, ou a esperança de honra e coisas semelhantes entrem em sua realização dos Mandamentos. Pois quando a Má Inclinação está presente me um preceito, a Shekinah foge dele, como de uma nudez vergonhosa. Por isto ele deve cobrir sua nudez e ocultá-la constantemente para que os Externos não a governem. Desta forma, todos os seus atos serão pelo Nome do Céu, livres da Má Inclinação. Filactérios e corner-fringes também são potentes defensores desta Qualidade contra a regência dos Externos; por isto ele deveria fazer uso constante deles. Em terceiro lugar o homem deve se unir com a Qualidade de Tiferet durante o tempo indicado para a recitação da Shema e durante os momentos em que ele se afasta para estudar a Torah. E quando ele aponta um momento para a realização de qualquer mandamento, que ele o considere como sendo o momento do intercurso conjugal com a Shekinah , que é a filha do Rei. Todos estes usos são intimados no Tikkune Zohar.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Capítulo X</h2>



<p>No Zohar, Seção Bereshith, o Rabi Simeão dá um excelente e nobre conselho baseado na Torah sobre como o Homem deve se unir à Superna Santidade e conduzir-se de acordo, assim nunca se separando das Sephiroth. A conduta do Homem com respeito à união com as Sephiroth é condicionada pelo tempo; ou seja, ele deve saber qual Sephiroth governa determinado momento, e unir-se a ela efetuando a reparação referente à Sefirah governante. Comecemos pela noite, quando o homem vai para a cama. Nesta hora a Força regente é Lilah (noite), que é de Malkuth. Quando o homem se retira, o sono é semelhante a morte, e a árvore da Morte reina. O que deve fazer o homem (para impedir isto)? Que ele faça a reparação apropriada, aliando-se ao Mistério da Santidade, ou seja, com a Qualidade de Malkuth em seu aspecto santo. Para assim fazer, que ele, ao se recolher, aceite o jugo do Reino do Céu completamente e com total consciência no coração. É meia-noite que ele se levante e lave as suas mãos das Cascas que reinam sobre elas, remova o mal de sua carne e recite a benção apropriada. Então ele deve reparar e aperfeiçoar a Shekinah ocupando-se com a Torah. A respeito de tal pessoa é dito &#8220;Quando tu te deitares &#8220;vigiará por ti&#8221; — contra os Externos — &#8220;e quando tu despertas falará contigo&#8221; (Prov. VI 22). Ela irá se ligar a ti, e tu a Ela, e a imagem de sua alma irá ascender ao Paraíso junto com a Shekinah que lá entra com os retos. A Qualidade de Tiferet também virá para se entreter com ele e os outros justos em Sua companhia, pois todos atentam para a sua voz. Assim o homem escapa de fato da morte, junto com Ela, e de fato a retorna para o Mistério da Vida acima, ligado ao Mistério do Paraíso! E a luz de Tiferet, que brilha sobre os justos no Paraíso começa a brilhar sobre ele.</p>



<p>Ao nascer do dia ele deve ir à Sinagoga e unir-se aos Três Patriarcas. Na porta da Sinagoga deve recitar o seguinte verso: Quanto a mim, na abundância de Tua amorosidade virei à tua casa; eu me inclinarei em direção ao Teu santo templo em temor a Ti. (Sl V 8). Assim ele se inclui no Mistério do Tifereth Adão (&#8220;A Beleza do homem&#8221;- Isaías XLIV 13), a combinação de Hesed, Gevurah, e Tifereth. Ao entrar na Sinagoga e recitar estes versos ele intende se referir aos Três Patriarcas. &#8220;Na abundância de tua amorosidade &#8220;refere-se a Abraão; &#8220;eu me inclinarei&#8221; refere-se a Isca, pois ao seu lado é atribuído todo o inclinar-se, que é a submissão da estatura de alguém quando se encontra a Qualidade da Justiça (Din), e se é posto de lado por ela. Pois ao assim fazer ele põe fora a má hora, trazendo copiosas misericórdias do alto e a adoçando. &#8220;Em temor a ti&#8221; refere-se a Jacob como está escrito &#8220;Quão terrível é este lugar!&#8221;(Gen. XXVIII 17). O adorador assim se identifica com os Patriarcas em pensamento, palavra, e ato: em pensamento, ao tê-los em mente; em palavra, pela recitação da passagem; e em atos, ao se curvar diante de Seu santo templo ante da prece.</p>



<p>Quando ele se encontra na Sinagoga, sua boca é um fonte de onde flui a prece. Ao se identificar com Yesod, a origem da Fonte, a Fonte que é a Sinagoga, é aberta, e ele corrige ou repara a Shekinah pela kavanoth que coloca na prece. Deixando a Sinagoga, ele ascende pelo Mistério da Torah, e se torna identificado com ele através do Mistério da Qualidade de Yom (Dia), pelo qual se conduz até a hora da prece de Minha (Entardecer), quando se identifica com Gevurah. Assim na manhã ele se identifica com Hesed pela sua prece; o estudo da Torah durante o dia o identifica com Tiferet; e no entardecer ele se torna identificado com Gevurah. Todas essas identificações são feitas através da Qualidade do Yom, pelo qual ele agora se dirige à Sinagoga para identificar-se com Gevurah como fez pela manhã com Hesed.</p>



<p>Entre essas identificações, ele une a Shekinah a si mesmo através de seu repasto, quando ele faz gentileza &#8220;esta pobre&#8221;. Como Hillel o Ancião c costumava dizer, &#8220;Um homem reto considera a vida (nefesh) do seu animal&#8221; (Prov. XII 10). Ou seja, o seu intento de comer a sua refeição deve ser o de lidar gentilmente com a sua alma animal, e uni-las aos níveis superiores através do Mistério da comida. Após ter se identificado com Gevurah na hora da prece Minha, ele aguarda pelo anoitecer, do quando Tiferet desce até Malkuth, e ele fica com ela, pois se uniu a ela no início da noite. Ele novamente entra na Sinagoga e faz as identificações apropriadas por meio da escada já mencionada. Então Tiferet retorna ao seu lugar de descanso. Ele então deixa a Sinagoga identificado apenas com Malkuth, pois realizou esta identificação pelo Mistério de sua Aceitação do Jugo do Reino dos Céus. Assim ele periodicamente identifica-se durante todo o dia com as Esferas, e a todo instante com a Luz predominante.</p>



<p>Este conselho é encontrado principalmente no Zohar, Seção Bereshit, e aquilo que não foi tirado de lá é encontrado em outras Seções deste trabalho. É um conselho abrangente pelo qual o Homem pode se identificar sempre com a Santidade, para que a Shekinah nunca se afaste de sua cabeça.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">1438</post-id>	</item>
		<item>
		<title>A Ética e Thelema</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/a-etica-e-thelema/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Leviathan]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 May 2024 18:42:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://quetzalcoatl-oto.org/desenv/?p=1360</guid>

					<description><![CDATA[Faze o que tu queres será o todo da Lei. Freqüentemente o pensamento do homem se depara com questões universais, questões que não perdem a sua atualidade, pois estão sempre se renovando, frente a novas interrogações ou sendo analisadas por ângulos inéditos. A questão que retoma nossas atenções, nos dias de hoje, é a Ética1... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/a-etica-e-thelema/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Faze o que tu queres será o todo da Lei.</p>



<p>Freqüentemente o pensamento do homem se depara com questões universais, questões que não perdem a sua atualidade, pois estão sempre se renovando, frente a novas interrogações ou sendo analisadas por ângulos inéditos. A questão que retoma nossas atenções, nos dias de hoje, é a Ética<sup>1</sup> e sua prima, não menos importante, a moral<sup>2</sup>.</p>



<p>Atualmente presenciamos um movimento aparentemente caótico da humanidade, frente a problemas críticos, como a produção de clones (animais e humanos), a produção de sementes através de manipulação genética, assim como de microorganismos para a o desenvolvimento de armas biológicas; a manipulação da economia mundial, a qual favorece absurdamente a concentração de renda nas mãos de poucas pessoas no mundo inteiro, permitindo com isso que mais de 5 bilhões de pessoas se encontrem abaixo do nível de pobreza; como o egocentrismo, egoísmo e soberba dos políticos, que defendem um sistema hipócrita, que se baseia em uma igualdade utópica e racionalmente inatingível e que prometem o que não são capazes de cumprir, seja por incompetência ou por impossibilidade estratégica do sistema ao qual defendem, já que o mesmo sustenta sua existência através do desnível social e ignorância do povo; como pelo desenvolvimento de indústrias de nenhuma utilidade social, que somente crescem por serem do ramo armamentista ou por estarem baseadas em alguns meios estratégicos de domínio de massas, com o ramo das comunicações, etc&#8230; Tudo isso, conseqüência do fenômeno capitalista, ou seja, a ação incentivada pela troca pecuniária com lucro, ou seja, com o acréscimo dos recursos empenhados. Essa tendência, que foi desenvolvida a partir da valorização do comércio, que na Idade média baixa, se dava entre feudos europeus e o oriente, através de mercadores foi se aprimorando, até produzirem aglomerados de empresas, incentivando tendências humanas degenerativas, como: cobiça, avareza e soberba, hoje materializadas no financiamento de guerras para enriquecimento de indústrias, na manutenção da pobreza, como estratégica para fins políticos, artimanhas econômicas para posterior financiamento de campanhas eleitorais; desvio e manipulação de recursos sociais, prejudicando a população, etc&#8230;</p>



<p>Essas características se desenvolveram e fizeram o homem perder o seu metrum, palavra latina que se refere àquela medida, pela qual o homem é Homem e não outra coisa ou ser. O metrum do Ser Humano<sup>3</sup> pode ser conhecido através da Ética.</p>



<p>Podemos então partir para uma primeira conclusão sobre a Ética, ela é uma virtude ou melhor, capacidade humana, aparentemente não existindo no animal ou em outros reinos no planeta terra, e através dela é sustentado os limites do Ser Humano.</p>



<p>Porém nos dias de hoje, com o avanço e supremacia das ciências, o conceito de Ética ficou preso nessa concepção, tornado-a limitada a visão científica. O que resulta sempre numa tendenciosidade quanto da utilização do termo, referente à área de quem a utiliza. Como não existe uma ciência do homem e se existisse, seria corrupta, pois o homem não pode ser comprovado experimentalmente, nem teorizado racionalmente, devería-se entregar a conceituação e compreensão do termo Ética a orientação filosófica, que apesar de sua limitação racional, estaria mais apta a indicar uma visão mais ampla do tema.</p>



<p>A Ética está presente no conhecimento do homem há muito tempo, não se pecaria por excesso, se fosse presumida a idade de cinco mil anos, pois estaríamos respaldados pela famosa epopéia hindu, conhecida como Mahabarata, onde Crishna, o Senhor dos Mundos, orienta Arjuna e seus irmãos, sobre a postura Ética do Homem.</p>



<p>Mas para não nos distanciarmos da proposta e limitação filosófica, seria conveniente partir do primeiro filósofo a tratar a Ética de forma estruturada e fundamentada conceitualmente: Sócrates.</p>



<p>Sócrates inaugura a concepção metafísica no conhecimento do homem ocidental, permitindo uma visão analítica<sup>4</sup> do homem. Essa visão metafísica é dada a partir da premissa de que o &#8220;o Homem é a sua Alma<sup>5</sup>&#8220;. Então se o Homem é a sua Alma, não é o seu corpo ou qualquer outro constituinte do mesmo.</p>



<p>Para Sócrates<sup>6</sup>, a Ética estava relacionada com a Virtude, que estava intimamente ligada com a consciência; o mal, ou a falta de virtude estava relacionada com a ignorância. Restrição que influenciou muito o pensamento grego da época, concluindo que se a pessoa conhecia a virtude, não poderia cometer más ações, imprimindo uma Ética prática. Possivelmente um reflexo do comportamento Pitagórico<sup>7</sup>.</p>



<p>Aqui poderíamos visualizar algo muito próximo de um dos pilares da Filosofia Thelêmica, o &#8220;Faze o que tu queres será o todo da Lei&#8221;, sendo somado ao &#8220;tu não tens direito senão  fazer a tua vontade&#8221;. Pois a consciência que é concebida nessa época, não está relacionada ao estado psicológico ao qual estamos acostumados a compreender essa definição, mas a um estado de compreensão da verdade, talvez próxima a concepção de Verdadeira Vontade. Pois na época a Virtude era aquilo que aprimorava e concretizava plenamente a natureza do Homem.</p>



<p>Para entendermos melhor o conceito de Sócrates sobre Alma, vamos analisar o que pensavam os contemporâneos de Sócrates sobre a constituição do homem.</p>



<p>A cultura Helênica da época, via o homem como um ser formado de três esferas: Soma (Corpo Material), Psyché (Alma) e Nous (Espírito). Fazendo um paralelo com a Estrutura Septenária da composição do Homem, do conhecimento hindu, a qual chegou até os nossos dias, através de H. P. Blavatzky, teremos que na primeira esfera, denominada de Soma, se encontram os corpos: físico (Sthula-Sharira) e o energético (Prana), e na esfera denominada de Psyché, se encontram os corpos: emocional (Linga-Sharira), o mental inferior (Kama-Manas) e parte do mental superior (Manas), restando à última esfera, o corpo mental superior (Manas) e o restante da Tríade Superior (Buddhi e Atma). Essa visualização apresenta-se melhor, se compararmos o sistema hindu, com o Caduceu de Hermes, síntese esotérica do sistema de conhecimento grego.</p>



<p>Esclarecendo a concepção socrática, podemos ver que não estamos falando de uma alma como é concebida, durante a baixa idade média, pelo cristianismo, e depois difundida erroneamente por centenas de anos, mas sim de um conceito mais amplo de alma, envolvendo emoções, mente e espírito. Estruturando portanto, a porção que é própria do homem como Ser Humano<sup>8</sup>, e assim possibilitando o fornecimento dos pré-requisitos necessários para que se afirme, ser a Ética, eminentemente humana<sup>9</sup>.</p>



<p>Aristóteles, faz uma releitura da Ética em Sócrates, que é muito bem demonstrada numa montagem feita por Givanni Reale, costurando alguns conceitos aristotélicos:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>O homem é principalmente razão, mas não apenas razão. Com efeito, na alma &#8220;há algo de estranho à razão, que a ela se opõe e resiste&#8221;, mas que, no entanto, &#8220;participa da razão&#8221;. Mais precisamente: &#8220;A parte vegetativa não participa em nada da razão, ao passo que a faculdade do desejo e, em geral, a do apetite participa de alguma forma dela enquanto a escuta e obedece.&#8221; Ora, o domínio dessa parte da alma e sua redução aos ditames da razão é a &#8220;virtude ética&#8221; a virtude do comportamento prático.</p>
</blockquote>



<p>Porém Aristóteles ainda salienta que somente através do que ele chamou de dianoética, ou seja, de basearmos a ética sobre dois pilares atemporais, como a sabedoria (Phrónesis)<sup>10</sup> e a sapiência (Sophía)<sup>11</sup>, chegaríamos a &#8220;felicidade perfeita&#8221;.</p>



<p>Realizando um parêntese, vamos focalizar os movimentos humanos nessa época. A grande força do povo helênico era sua capacidade de coesão de homens, sendo fundamental a idéia da Polis<sup>12</sup> grega, que se reflete até em nossos dias, sendo que a característica fundamental do padrão grego era voltar todos os esforços para a Polis e para o Estado, porém, após o pensamento de Sócrates e Aristóteles, e principalmente pelo domínio político de Alexandre Magno, houve uma mudança radical no pensamento dessas pessoas, transferindo o centro das questões, da Polis, para o Individuo, ocorrendo assim uma cisão entre Ética<sup>13</sup> e Política<sup>14</sup>.</p>



<p>Existe a idéia popular de que Ética é uma virtude humana que evita que o homem faça o que bem entender, possibilitado o comportamento social para uma convivência mais digna.</p>



<p>Esse comentário apesar de ser compartido por muitos, não é inteiramente correto, principalmente se analisado pelo ponto de vista filosófico. A Ética realmente é uma virtude, como já decorremos anteriormente, mas não devemos confundir Ética com moral, que também é um conceito humano, mas com a característica social, ou seja, ligada a Polis, a política e a temporalidade.</p>



<p>Ética reflete a idéia de comportamento pessoal, ou seja, a coerência da pessoa com seus pensamentos e sistema de vida. Podemos ver a manifestação dessa coerência na Grécia e mais tarde em alguns períodos em Roma, onde os pensadores formavam Escolas Filosóficas, e publicamente divulgavam os seus pensamentos e por coerência a esses pensamentos, agiam de acordo com os mesmos. Isso era Ética.</p>



<p>Moral vem do latim morus, que designa costumes, que pela tradição romana, estava ligada a convivência social, bastião fundamental da &#8220;comum unidade&#8221;, ou seja, padrões que proporcionavam a convivência de pessoas de diversos grupos diferentes nas cidades romanas.</p>



<p>Então podemos concluir que a Moral é social, a Ética é pessoal. A moral está ligada a lei dos homens, a Ética a Lei Universal; a Moral está restrita a constituição quaternária do homem (matéria, energia, emoções e pensamentos) já a Ética está relacionada à Tríade Superior, ao Espírito<sup>15</sup>.</p>



<p>Fazendo uma conexão com a filosofia Thelêmica, podemos destacar que a finalidade primeira da mesma é atingir o &#8220;Eu superior&#8221; e a partir desse, desenvolver uma Ética própria, a qual permitirá a realização da Verdadeira Vontade, ou seja, a inclinação do seu eu em direção ao seu &#8220;Eu Superior&#8221; e conseqüentemente o cumprimento da sua &#8220;Missão na Terra&#8221;. Porém, para não haverem choques com as intenções de outras pessoas, durante o período em que ainda não se descobriu a Verdadeira Vontade e por tanto, se é incapaz de estabelecer uma Ética, é necessário que haja o estabelecimento de uma estratégia, que evite os confrontos desnecessários. Uma exemplar estratégia foi realizada por R. Descartes, quando procedia a famosa desconstrução de seu pensamento, procurando seu referencial essencial. Para evitar que se perdesse em atitudes que levassem a erros irreversíveis, causados pela ausência de referenciais para julgamento, estabeleceu uma &#8220;moral provisória&#8221;. A moral provisória de Descartes foi baseada em algumas leis do estado francês e por alguns princípios cristãos. O mesmo acontece com a trilha Thelêmica, onde o anseio juvenil se presta a derrubar a acomodação da tradição, permitindo o início da jornada em direção ao &#8220;Si Mesmo&#8221;, mas a maturidade de uma Egrégora, fornece o equilíbrio essencial para chegarmos ao objetivo final.</p>



<p>Então podemos concluir que não existe uma Ética social ou seja, igual para todas as sociedades, já que não existe uma Ética igual para dois homens, pois as Verdadeiras Vontades são individuais e idêntica situação ocorre com a Ética. Porém uma moral provisória, estabelecida para um grupo thelêmico, é coerente e essencial, pois no início do caminho thelêmico, por não haver a sintonia com a Verdadeira Vontade, existe a impossibilidade do estabelecimento de uma Ética e qualquer movimentação do Aspirante se baseando em uma interpretação falha da Filosofia Thelêmica, será inócua, se não perigosa.</p>



<p>Porém, para não cristalizar toda e qualquer movimentação original do Ser ao momento em que ele encontrará a sua Verdadeira Vontade, é reconhecida a constante aproximação do &#8220;Buscador&#8221; com a mesma, o que permite uma permanente adaptação de sua moral provisória<sup>16</sup>, às novas conquistas de consciência, permitindo com isso, uma aproximação gradual de sua Ética.</p>



<p>Então assim é permitida uma nova luz sobre as questões que se referem a Ética e a moral e principalmente em suas referência a filosofia thelêmica, possibilitando com isso, que se norteiem atitudes que visem facilitar a preparação do Aspirante às práticas thelêmicas.</p>



<p>O estabelecimento de Estatutos, Programas de desenvolvimento e estudo, Regras e Padrões, não são de forma alguma contraditórios com a Filosofia Thelêmica, são simplesmente o estabelecimento e formalização de uma instituição essencial para o bom andamento daquele que busca sinceramente o seu Interior, seu Self, sua Verdadeira Vontade, sem que o mesmo se prejudique por uma formulação precipitada dos fundamentos thelêmicos, causada pela falta de maturidade nesses caminhos, que se apresentam tão novos, para uma sociedade tão acostumada com as regras de uma era passada.</p>



<p>Amor é a lei, amor sob vontade.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<ol class="wp-block-list">
<li>A grafia de Ética é feita em caixa alta, para enfatizar a sua característica atemporal e nobre, desenvolvida para o Homem Superior, diferenciando da forma inepta da utilização da mesma palavra, o que atualmente é realizada sem o sentido amplo e fundamentado.</li>



<li>A grafia da palavra moral é realizada com caixa baixa, destacando a sua essência puramente temporal.</li>



<li>O Ser Humano aqui se refere à essência do homem, o que caracteriza o homem como tal.</li>



<li>Análise, como método filosófico de decomposição do todo, observação das partes, partindo dos efeitos para se chegar às causas. Observa-se que esse é um método que inviabiliza a visão do Todo, pois se sabe que o Todo não é resultante da soma das partes, é algo maior.</li>



<li>Alma do grego Psyché.</li>



<li>Sócrates não deixou nenhum escrito, mas conhecemos o pensamento desse, através de escritos de seus discípulos e contemporâneos, como: Platão, Xenofontes e Aristófanes.</li>



<li>Os Pitagóricos, discípulos de Pitágoras, eram conhecidos entre as massas, através do seu comportamento. Foi famosa essa característica, onde se comentava entre os gregos: &#8220;aí passa um Pitagórico&#8221;.</li>



<li>O Ser Humano aqui se refere à essência do homem, o que caracteriza o homem como tal.</li>



<li>Para facilitar a compreensão desse período, vamos demonstrar de forma mais objetiva esse avanço de idéias: a Essência do homem é a sua Alma, então a Alma é pertencente somente ao homem (Alma como a união do trio: Emoções, Mente concreta e Mente superior, que liga o homem ao Espírito). Sabe-se também que a Virtude, leva o homem a Ser o que se é, e como a limitação do homem está na Ética, conclui-se que a Ética é eminentemente humana.</li>



<li>Sabedoria é dirigir a vida através da deliberação do que é bem e mal para o homem. Aplicação do Discernimento.</li>



<li>Sapiência é o conhecimento do bem e do mal. Discernimento.</li>



<li>Cidade</li>



<li>Ética, do grego Ethos, se referindo ao comportamento. Referência ao Indivíduo.</li>



<li>Política, do radical Polis, grego, cidade.</li>



<li>Retomando a concepção Septenária da formação do Homem.</li>



<li>A Moral Provisória é estabelecida pela Ordem ou grupo ao qual pertence o Aspirante ao caminho thelêmico. É comum a rebeldia do aspirante a esse caminho, se dizendo não pertencer a qualquer grupo, porém é uma infantilidade e inconsciência essa atitude, pois se o mesmo não pertencer a algum grupo estabelecido, estará inevitavelmente sob atuação do grupo social ao qual pertence, tendo que se comportar segundo as leis do país e estado ao qual mora e às convenções sociais em que está inserido.</li>
</ol>
]]></content:encoded>
					
		
		
		<post-id xmlns="com-wordpress:feed-additions:1">1360</post-id>	</item>
	</channel>
</rss>
