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	<title>Frater Hrw &#8211; Oásis Quetzalcoatl</title>
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		<title>A Dialética da Receptividade</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 12 Feb 2026 21:48:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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					<description><![CDATA[Passividade, Individuação e União dos Opostos na Práxis Thelêmica Abstract Este estudo refuta a interpretação reducionista de Thelema como uma filosofia de hedonismo ou imposição tirânica do ego, propondo em seu lugar uma &#8220;dialética da receptividade&#8221;. Argumenta-se que a eficácia da Verdadeira Vontade depende intrinsecamente do equilíbrio entre a força projetiva (Baqueta) e a receptividade... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/a-dialetica-da-receptividade/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h2 class="wp-block-heading">Passividade, Individuação e União dos Opostos na Práxis Thelêmica</h2>



<h3 class="wp-block-heading">Abstract</h3>



<p>Este estudo refuta a interpretação reducionista de Thelema como uma filosofia de hedonismo ou imposição tirânica do ego, propondo em seu lugar uma &#8220;dialética da receptividade&#8221;. Argumenta-se que a eficácia da Verdadeira Vontade depende intrinsecamente do equilíbrio entre a força projetiva (Baqueta) e a receptividade estratégica (Cálice), visando não a conquista unilateral, mas a união do microcosmo com o macrocosmo. Através de uma análise comparativa que integra a simbologia da Missa Gnóstica — com ênfase na primazia ontológica da Sacerdotisa — à psicologia da individuação de Jung e ao idealismo alemão, demonstra-se que a passividade constitui um poder magnético essencial para a realização da Grande Obra. A conclusão estabelece que a maturidade na práxis thelêmica exige a dissolução das fronteiras do ego e a integração ética e mística com o &#8220;Não<em>–</em>Eu&#8221;, validando a fórmula de &#8220;Amor sob Vontade&#8221; como um mecanismo técnico de união e não de isolamento.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Palavras-Chave</h3>



<p>Thelema; Verdadeira Vontade; Passividade Mágicka; Individuação; Missa Gnóstica; Não-Eu; União dos Opostos; Dialética.</p>



<p>Faze o que tu queres será o todo da Lei.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Introdução</h2>



<p>No estudo das novas religiões e do esoterismo ocidental, o sistema de Thelema, fundado pelo ocultista britânico Aleister Crowley no início do século XX ev, é frequentemente alvo de interpretações superficiais e reducionistas. O axioma central, “<em>Faze o que tu queres será o todo da Lei</em>” {Liber AL vel Legis, o Livro da Lei, Cap. I, vers. 40], é comumente confundido com uma licença para o hedonismo desenfreado ou para a imposição tirânica do ego sobre o ambiente. Tal interpretação, embora disseminada na cultura popular e mesmo em certos círculos acadêmicos, revela uma compreensão fundamentalmente equivocada da teologia e da prática ritualística (ou <em>Magick</em>) de Thelema.</p>



<p>Uma análise mais rigorosa e hermeneuticamente responsável da filosofia thelêmica revela que a <em>Vontade</em> (<em>Thelema</em> em grego) não opera no vácuo, nem se configura como mera imposição solipsista do desejo individual. Para que a Verdadeira Vontade seja efetiva e se manifeste em sua plenitude cósmica, ela exige uma contraparte essencial e indispensável: a <em>receptividade</em>, a <em>passividade estratégica</em> e a capacidade de <em>união</em> com o <em>Não–Eu</em>. Este artigo busca explorar, de forma sistemática e aprofundada, como a passividade (simbolizada ritualisticamente pelo Cálice e pela Sacerdotisa) é tão fundamental quanto a atividade da Baqueta na realização da Grande Obra.</p>



<p>É imperativo estabelecer, desde o princípio, que <strong>a compreensão de Thelema como uma filosofia de imposição unilateral da vontade individual sobre o mundo constitui uma interpretação fundamentalmente imatura e errônea</strong>, frequentemente adotada por aqueles que permanecem nos estágios preliminares da práxis ou que se aproximam do sistema com preconceitos externos. O objetivo final de Thelema não é a conquista tirânica do ambiente pelo ego inflado, mas precisamente o oposto: a <em><strong>união extática do eu com o não</strong></em><em><strong>–</strong></em><em><strong>eu</strong></em>, ou, em termos herméticos tradicionais, a <em><strong>conjunção do microcosmo com o macrocosmo</strong></em> — que é, em essência, a realização da chamada Grande Obra. Qualquer interpretação que negligencie ou minimize este telos soteriológico reduz Thelema a uma caricatura grosseira de si mesma.</p>



<p>Argumentaremos que Thelema não se apresenta como uma filosofia de individualismo egoico, mas sim como um complexo sistema de <em>individuação</em> no sentido proposto por Carl Gustav Jung e de união mística entre o sujeito e o objeto, entre o <em>Eu</em> e o <em>Não–Eu</em>. Para tanto, mobilizaremos não apenas as fontes primárias do corpus thelêmico (especialmente o <em>Liber AL vel Legis</em>, o <em>Liber CL vel לענ De Lege Libellum</em> e o <em>Liber Astarté vel Berylli</em>), mas também estabeleceremos diálogos com tradições filosóficas orientais (Budismo Clássico) e ocidentais (idealismo alemão de Schelling e Hegel, empirismo de Hume e existencialismo de Sartre).</p>



<h2 class="wp-block-heading">1. Baqueta e Cálice como Complementares Dialéticos</h2>



<h3 class="wp-block-heading">1.1. A Simbologia Hermética das Armas Elementais</h3>



<p>Na simbologia thelêmica, derivada em parte da tradição da Hermetic Order of the Golden Dawn e da Cabala Hermética, a <strong>Baqueta</strong> (ou Bastão, <em>Wand</em>) representa a Vontade projetiva, a força ativa e o princípio masculino ou Yang. Tradicionalmente associada ao elemento Fogo e à letra hebraica <em>Yod</em> (י), a Baqueta é a ferramenta mágica da imposição, da direção consciente da energia e da transformação ativa do ambiente. Em termos psicológicos, ela simboliza a capacidade do ego de estabelecer objetivos, planejar e executar ações deliberadas.</p>



<p>Contudo, tanto Crowley quanto seus exegetas mais rigorosos enfatizam que a Magia não é apenas projeção unidirecional. A contraparte indispensável é o <strong>Cálice</strong> (ou Taça, <em>Cup</em>), que representa o <em>Entendimento</em> (<em>Binah</em> na Árvore da Vida cabalística), a receptividade, o princípio feminino ou Yin e o elemento Água, associado à letra hebraica <em>Heh</em> (ה). Se a Baqueta é a capacidade de fazer, o Cálice é a capacidade de receber, conter, nutrir e dar forma. Psicologicamente, representa a abertura à experiência, a empatia, a capacidade de escuta profunda e a receptividade ao inconsciente.</p>



<h3 class="wp-block-heading">1.2. A Esterilidade da Vontade Isolada</h3>



<p>O trabalho mágico não ocorre pela mera imposição da vontade do magista sobre o universo; isto é, pelo uso isolado da Baqueta. Tal abordagem resultaria em dispersão de energia, frustração e, em última análise, fracasso mágicko. Ele exige que o magista se torne um <em>receptáculo capaz</em> de conter e nutrir as forças universais. A eficácia mágica depende da criação de um vácuo psíquico e espiritual que <em>atrai</em> as energias necessárias, em vez de tentar forçá–las.</p>



<p>O <strong>Sinal de Puella</strong> (o sinal da <em>Menina</em> ou da donzela), utilizado em rituais como o <em>Liber Reguli</em>, exemplifica essa atitude de abertura e receptividade passiva. Neste gesto ritual, o praticante se posiciona com as mãos em concha, formando um triângulo invertido sobre o peito e a genitália (replicando a imagem central no quadro <em>O Nascimento de Vênus</em>, do pintor renascentista Sandro Botticelli), simbolizando o útero cósmico ou o Cálice que aguarda o influxo divino. O magista se coloca não como o emissor primário, mas como o recipiente sagrado que aguarda ser preenchido pela energia divina. Esta postura corporal e mental é essencial em diversas operações mágicas, especialmente nas invocações de forças planetárias ou divindades.</p>



<p>Sem o Cálice para receber e dar forma, a energia da Baqueta dispersa–se no vácuo; sem a receptividade, a Vontade torna–se estéril e improdutiva. Esta é uma lei fundamental da termodinâmica espiritual: a energia precisa de um recipiente para se condensar e manifestar. Como observa Dion Fortune em sua obra <em>Magia Aplicada</em>, citada frequentemente em contextos thelêmicos: <em>“O ocultista não tenta dominar a Natureza, mas sim entrar em harmonia com essas grandes Forças Cósmicas e trabalhar com elas.”</em>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">2. A Sacerdotisa e a Missa Gnóstica</h2>



<h3 class="wp-block-heading">2.1. Estrutura e Simbolismo da Missa Gnóstica</h3>



<p>A importância teológica da passividade é dramatizada de forma explícita no ritual central da Ordo Templi Orientis (O.T.O.): a <em>Missa Gnóstica</em> (<em>Liber XV</em>). Diferentemente das liturgias patriarcais tradicionais do cristianismo, nas quais o divino é representado exclusivamente por figuras masculinas ativas (Deus Pai, Cristo) e o feminino é relegado a papéis de submissão passiva (a Virgem Maria como mera receptora), a Missa Gnóstica <strong>eleva a Sacerdotisa a um papel de preeminência ontológica e litúrgica</strong>.</p>



<p>A Sacerdotisa representa uma pletora de divindades femininas, mas, para o contexto deste artigo, iremos focar em <em>Nuit</em>, a deusa do espaço infinito e das possibilidades ilimitadas, bem como a alma receptiva universal. Ela não é uma assistente passiva no sentido de submissão hierárquica, mas a <em>detentora de um poder primordial de atração, contenção e magnetismo espiritual</em>. No ritual, é a Sacerdotisa, através de sua passividade magnética e receptiva, que <em>desperta</em> o Sacerdote (que representa <em>Hadit</em>, o ponto infinitesimal de consciência) e o capacita para a realização do Sacramento da Missa.</p>



<h3 class="wp-block-heading">2.2. A União como Sacramento</h3>



<p>O clímax do ritual, o momento de maior intensidade mística, dramática e simbólica, não é uma conquista solitária do Sacerdote, mas a <strong>consumação da união</strong> entre a Lança (símbolo da Vontade ativa e do princípio masculino) e o Cálice (símbolo da Receptividade e do princípio feminino), através da partícula (<em>semen</em>) do Bolo de Luz (também chamado Hóstia) que estava depositado sobre a Pátena (<em>ovulum in utero</em>). Esta união ritual representa e efetiva a <em>aniquilação da sensação de separação</em> entre sujeito e objeto, entre o eu e o cosmos.</p>



<p>A proclamação litúrgica central da Missa (<em>“Não há parte de mim que não seja dos deuses</em>”) expressa precisamente esta dissolução das fronteiras do ego. O participante reconhece que sua identidade individual não é uma fortaleza isolada, mas uma manifestação transitória e porosa do divino. Esta percepção só é possível através da <strong>abertura radical ao Outro, ao Não–Eu</strong>, representado tanto pela divindade quanto pela comunidade de participantes.</p>



<p>Portanto, a Missa Gnóstica demonstra liturgicamente que a eficácia espiritual em Thelema depende da capacidade de <strong>se abrir ao Outro</strong>, e não de dominá–lo através da imposição unilateral da vontade egoica. A passividade da Sacerdotisa não é fraqueza, mas <strong>poder magnético</strong>: o poder de atrair, conter e transformar.</p>



<h2 class="wp-block-heading">3. Individuação versus Individualismo: O Diálogo com Jung</h2>



<h3 class="wp-block-heading">3.1. A Distinção Conceitual Fundamental</h3>



<p>É crucial, para uma compreensão adequada de Thelema, distinguir o objetivo thelêmico do mero <em>individualismo egoico</em>, uma distinção que encontra paralelo notável na psicologia analítica de Carl Gustav Jung. Enquanto o individualismo moderno, tal como propagado pelo neoliberalismo e pela cultura do narcisismo, busca reforçar as fronteiras do ego e satisfazer desejos superficiais e condicionados socialmente, Thelema alinha–se mais proximamente ao conceito junguiano de <strong>Individuação</strong>.</p>



<p>Para Jung, a individuação é o processo psicológico de integração dos opostos — consciente e inconsciente, persona e sombra, <em>anima</em> e <em>animus</em> — para formar um <em>Self</em> total e integrado, qualitativamente distinto do ego fragmentado e defensivo. Este <em>Self</em> não é uma ampliação do ego, mas sua <strong>relativização</strong><strong> diante de uma totalidade maior </strong>que o engloba e transcende.</p>



<h3 class="wp-block-heading">3.2. A Verdadeira Vontade como Individuação</h3>



<p>De forma análoga, em Thelema, a descoberta da <em>Verdadeira Vontade</em> exige que o praticante transcenda os desejos do ego condicionado e as construções sociais artificiais (a <em>falsa vontade</em>) para encontrar sua <em>órbita natural</em> no cosmos, seu propósito ontológico único e necessário. O <strong>ego inflado</strong>, aquele que se imagina como o centro absoluto do universo, isolado e auto–suficiente, é, na verdade, um <em>obstáculo</em> à Verdadeira Vontade, pois cria uma ilusão de separação do Todo.</p>



<p>O trabalho mágico e místico, portanto, envolve frequentemente a <em>dissolução</em> desse ego para permitir que a Vontade Universal flua através do indivíduo sem as distorções do egoísmo. Apenas através desta <em>morte mística do ego</em>, um ato supremo de passividade e entrega, representado na simbologia thelêmica pelo “derramar do Sangue dos Santos no Cálice de Babalon”, pode emergir o <em>Mestre do Templo</em>, cuja vontade individual tornou–se perfeitamente transparente à Vontade Cósmica.</p>



<p>Em ambos os sistemas — junguiano e thelêmico — o objetivo não é a extinção da individualidade (como em certas interpretações equivocadas do Budismo), nem sua hipertrofia egoica, mas sua <strong>realização autêntica</strong> através da integração harmônica com a totalidade. A verdadeira individualidade só emerge quando deixa de se opor defensivamente ao coletivo e ao inconsciente, abraçando–os como partes constitutivas de si mesma.</p>



<p>Portanto, <strong>o praticante que busca impor sua vontade sobre o mundo permanece numa compreensão pré–iniciática e infantil de Thelema</strong>. Ele confunde o ego condicionado (a falsa vontade) com a Verdadeira Vontade, e imagina erroneamente que sua realização espiritual consiste em fortalecer as fronteiras do eu contra o não–eu. Esta postura não apenas falha em realizar a Grande Obra, mas a obstrui ativamente. A verdadeira maturidade thelêmica reconhece que a <strong>Vontade individual só se realiza através da uniãocom o cosmos</strong>, não através de sua conquista. A imposição gera resistência e conflito; a receptividade gera harmonia e realização. <strong>O objetivo final não é o domínio do microcosmo sobre o macrocosmo, mas sua fusão extática</strong>, a dissolução das fronteiras ilusórias que separam o sujeito do objeto.</p>



<h2 class="wp-block-heading">4. A Filosofia da União e o Não–Eu</h2>



<h3 class="wp-block-heading">4.1. O Budismo Clássico: Anatta e a Dissolução do Ego Substancial</h3>



<p>A práxis thelêmica pode ser interpretada proveitosamente através de lentes filosóficas orientais que desconstroem a rigidez do sujeito cartesiano. O Budismo Clássico, que exerceu forte influência sobre o pensamento de Crowley (especialmente após sua estadia no Sri Lanka e seus estudos com Allan Bennett), ensina que o sofrimento (<em>dukkha</em>) advém fundamentalmente do apego a um <em>eu ilusório</em> (<em>anatta</em>, não–eu) e aos desejos compulsivos (<em>tanha</em>).</p>



<p>Thelema adapta e reinterpreta esta percepção ao sugerir que “<em>vontade pura, desembaraçada de propósito, liberta do desejo de resultado, é em todo modo perfeita.”</em> (como afirmado no <em>Liber AL vel Legis</em>, II:44). Esta formulação aproxima–se notavelmente do conceito de <em>nishkama karma</em> (ação desapegada) do <em>Bhagavad Gita</em> hindu e do <em>wu wei</em> (não–ação ou ação espontânea) taoísta. A verdadeira Vontade não é um desejo neurótico que busca gratificação, mas um movimento espontâneo e natural que ocorre quando as camadas artificiais do ego são removidas.</p>



<p>A receptividade, neste contexto, significa <strong>abandonar a fixação no eu que deseja</strong> e permitir que a ação surja naturalmente da percepção clara da situação, uma percepção que só é possível quando o ego cessa de filtrar tudo através de suas ansiedades e projeções.</p>



<h3 class="wp-block-heading">4.2. O Idealismo Alemão: Schelling e Hegel sobre Sujeito e Objeto</h3>



<p>Podemos também traçar paralelos frutíferos com a dialética do idealismo alemão, particularmente nas obras de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling e Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Para Schelling, em sua <em>Filosofia da Identidade</em>, sujeito e objeto, espírito e natureza, não são entidades fundamentalmente separadas, mas polaridades de uma identidade absoluta subjacente. A separação é uma ilusão produzida pela reflexão limitada.</p>



<p>Em termos thelêmicos, podemos interpretar a <em>Vontade</em> como a Tese (o movimento do sujeito), o <em>Mundo/Não–Eu</em> como a Antítese (a resistência do objeto), e a <em>Grande Obra</em> (a realização mágicka completa) como a Síntese superior que supera e preserva ambos. A Vontade só se realiza plenamente ao encontrar e se unir ao seu oposto dialético, o cosmos que inicialmente parece externo e resistente.</p>



<p>Hegel, em sua <em>Fenomenologia do Espírito</em>, demonstra como a consciência só atinge sua plena realização (<em>Geist</em>, Espírito Absoluto) através do doloroso processo de negação e reconhecimento do outro. A famosa dialética do senhor e do escravo ilustra que a dominação unilateral (a imposição da Vontade sem receptividade) é insatisfatória e alienante; apenas no reconhecimento mútuo há verdadeira liberdade.</p>



<p>A persistência de Crowley de que “<em>Amor é a lei, amor sob vontade</em>” [Liber AL, I:57] reflete precisamente essa necessidade hegeliana de união e reconhecimento. O Amor (<em>Agape</em>) é o método dialético de unir o sujeito ao objeto, de reconciliar a Vontade com o Mundo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">4.3. Hume e Sartre: A Vacuidade do Ego como Condição para a Autenticidade</h3>



<p>Filósofos empiristas e existencialistas também oferecem insights valiosos. David Hume, em seu <em>Tratado da Natureza Humana</em>, argumentou famosamente contra a existência de um <em>eu substancial e imutável</em>. Quando Hume volta sua atenção introspectivamente para dentro de si mesmo, não encontra um <em>eu</em> permanente, mas apenas <strong>um feixe ou coleção de diferentes percepções</strong> em constante mudança.</p>



<p>Jean–Paul Sartre, posteriormente, em <em>O Ser e o Nada</em>, desenvolveu a noção de que a consciência é fundamentalmente <strong>nada</strong> (<em>néant</em>), não no sentido de inexistência, mas no sentido de que ela é pura <strong>transcendência</strong>, sempre projetando–se para além de si mesma, n<strong>unca coincidindo consigo mesma</strong>. A existência precede a essência; não há um <em>eu</em> dado previamente, mas apenas a liberdade radical de se fazer.</p>



<p>Em Thelema, essa <strong>vacuidade essencial do ego</strong> não é uma limitação, mas o espaço necessário para a manifestação da divindade. <strong>O magista deve </strong><strong>esvaziar–se</strong><strong> (passividade) para ser preenchido pela Verdadeira Vontade (atividade).</strong> Como na metáfora frequentemente utilizada: se o copo já está cheio de ego, preconceitos e condicionamentos, não pode receber o vinho da vida divina. A receptividade é, portanto, a condição de possibilidade para qualquer realização autêntica.</p>



<h2 class="wp-block-heading">5. A União como Chave Soteriológica: Liber CL e Liber Astarté</h2>



<h3 class="wp-block-heading">5.1. Liber CL vel לענ De Lege Libellum: A Liberdade na Interconexão</h3>



<p>A literatura técnica e teológica de Crowley reforça sistematicamente que a imposição viril da vontade é apenas metade da equação mágica. O texto <em>Liber CL vel </em><em>לענ </em><em>De Lege Libellum</em> (<em>Uma Sandália, Um Pequeno Livro sobre a Lei</em>), classificado como um documento da Classe D (instrução oficial) pela ordem Astrum Argentum, esclarece que a liberdade thelêmica e a Vontade operam necessariamente em um contexto de <strong>interconexão cósmica</strong>, onde o Amor (união) é a lei que guia e tempera a aplicação da Vontade.</p>



<p>Este texto traz de volta o trecho do Livro da Lei, ampliando o conceito de que “<em>todo homem e toda mulher é uma estrela</em>” [Liber AL, I:3], Não estrelas isoladas flutuando no vácuo, mas estrelas em um sistema gravitacional mútuo, onde cada órbita é determinada não apenas pela própria massa e momento, mas também pela atração de todas as outras estrelas. <strong>A liberdade não é o isolamento solipsista, mas a capacidade de seguir a própria órbita verdadeira em harmoniacom todas as demais órbitas</strong>.</p>



<p>Assim, a realização da Vontade individual pressupõe o reconhecimento e o respeito pelo <em>Não–Eu</em> — pelos outros seres, pelo ambiente natural, pelo cosmos como um todo. <strong>A tirania sobre o </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong> não é uma expressão da Verdadeira Vontade, mas sua perversão egoica.</strong> A verdadeira Vontade, quando descoberta e seguida, alinha–se naturalmente com a ordem cósmica, sem fricção nem conflito.</p>



<h3 class="wp-block-heading">5.2. Liber Astarté vel Berylli: A Devoção como Dissolução Extática</h3>



<p>Mais explicitamente ainda, o <em>Liber Astarté vel Berylli</em> (Liber CLXXV), também classificado como Classe D, instrui o praticante na arte da <em>Bhakti Yoga</em> ou união pela devoção, a adaptação thelêmica ocidental do caminho devocional hindu. Nesta prática, o magista adota uma postura de <strong>total passividade e adoração</strong> a uma divindade escolhida (que pode ser Astarté, Ísis, Apolo, Cristo, ou qualquer arquétipo divino com o qual o praticante ressoe).</p>



<p>O método prescreve que o devoto organize sua vida inteiramente em torno dessa divindade, estabelecendo práticas diárias rigorosas de oração, invocação, contemplação e oferendas, tratando a entidade como um amante divino. O praticante deve <strong>suprimir deliberadamente o ego e a vontade pessoal</strong> para se tornar um <strong>veículo transparente</strong><strong> da divindade</strong>. A intensidade emocional e a concentração exclusiva visam dissolver gradualmente as fronteiras psicológicas entre adorador e adorado.</p>



<p>O objetivo final não é a submissão servil a um deus externo (como na religião exotérica convencional), mas a <strong>união mística</strong> (<em>Samadhi</em> ou <em>Unio Mystica</em>). Quando a devoção atinge seu ápice, a distinção entre sujeito (o magista) e objeto (a divindade) colapsa. Não há mais <em>devoto</em> e <em>deus</em>, mas uma unidade indissolúvel. Como afirma a proclamação da Missa Gnóstica: ”<em>Não há parte de mim que não seja dos deuses</em>”.</p>



<p>O sucesso na Magick, conforme demonstrado pelo <em>Liber Astarté</em>, não é a conquista ou dominação do universo pelo mago (uma fantasia de poder egoico), mas a <strong>dissolução do mago no universo</strong>: um ato supremo de receptividade e passividade onde o praticante se torna o Cálice que contém a totalidade do cosmos.</p>



<h3 class="wp-block-heading">5.3. Ágape: O Amor como Operador Técnico da União</h3>



<p>O conceito de <em>Ágape</em> (Amor) em Thelema não é sentimental, mas <em>técnico</em>. É definido como o <strong>instinto de união</strong> — a força que compele o sujeito a sair de si mesmo e se integrar ao objeto. Significativamente, na Gematria grega (<em>isopsēphía</em>), tanto <em>Thelema</em> (Vontade) quanto <em>Ágape</em> (Amor) somam 93, indicando sua identidade essencial ou complementaridade perfeita.</p>



<p>A fórmula completa, “<em>Amor é a lei, amor sob vontade</em>”, sugere que enquanto a Vontade define a <em>direção</em> (a órbita da estrela), o Amor é o <em>método</em> (a força gravitacional) que conecta essa estrela ao corpo infinito do universo (Nuit), permitindo a interação, a troca e a existência manifestada. Sem Amor, a Vontade seria apenas um vetor abstrato no vácuo; sem Vontade, o Amor seria uma fusão indiferenciada e caótica.</p>



<p>O Amor, portanto, é o agente que <em>dissolve o ego</em> e permite que a consciência individual se expanda e se integre ao Todo. <strong>Praticantes que enfatizam apenas a Vontade e ignoram o Amor são descritos criticamente como “vivendo à </strong><em><strong>Meia Lei”</strong></em>: uma versão incompleta e distorcida de Thelema que r<strong>esulta em egoísmo, conflito e alienação</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">6. O Não–Eu na Práxis Cotidiana</h2>



<h3 class="wp-block-heading">6.1. A Sacralidade do Outro</h3>



<p>A compreensão da importância do <em>Não–Eu</em> tem profundas implicações éticas e sociais. Se, como afirma o <em>Liber AL</em>, “<em>Todo homem e toda mulher é uma estrela”</em>, então<strong> cada </strong><em><strong>Outro</strong></em><strong> (cada </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>) é um ser soberano com sua própria trajetória sagrada e inviolável.</strong> O reconhecimento do <em>Não–Eu</em> implica reconhecer a divindade e a autodeterminação inerentes ao outro.</p>



<p>Quando um thelemita olha para outra pessoa, ele é instruído a ver não um objeto a ser manipulado ou um obstáculo a ser removido, mas uma <em>manifestação do corpo de Nuit</em>, uma parte do Todo divino do qual ele próprio é parte. <strong>Amar o </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>é, paradoxalmente, amar a si mesmo e à totalidade da existência</strong>, pois a distinção entre <em>Eu</em> e <em>Não–Eu</em> é, em última análise, uma convenção útil mas não uma verdade metafísica absoluta. Ou, como é dito em <em>Liber CL</em>: “<em>no Caminho do Amor, o Mal aparece como ‘tudo o que tende a impedir a União de quaisquer duas coisas’.</em>”</p>



<h3 class="wp-block-heading">6.2. A Ética da Não–Interferência</h3>



<p>O impacto prático do conceito de <em>Não–Eu</em> nas relações sociais é a formulação de uma <strong>ética da não–interferência</strong>. Se cada indivíduo é uma estrela com sua órbita própria (sua Verdadeira Vontade), então a liberdade de cada um é sagrada e inviolável. O reconhecimento do <em>Não–Eu</em> implica respeitar que o outro tem um caminho único que não deve ser perturbado por imposições externas.</p>



<p>O conflito social, nesta perspectiva, não surge do exercício legítimo da Vontade, mas da <em>desordem</em>, quando uma <em>estrela</em> sai de sua órbita verdadeira (por ignorância, medo ou condicionamento) e invade o caminho de outra. Se todos estivessem cumprindo suas Verdadeiras Vontades, haveria uma harmonia natural, como engrenagens perfeitamente ajustadas em um mecanismo cósmico.</p>



<p>Eticamente, <strong>qualquer tentativa de impor a própria vontade egoica sobre o </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>, de manipular, coagir ou desviar outra pessoa de seu caminho autêntico, seja ou não através de meios mágicos ou ritualísticos, é classificada como </strong><em><strong>magia negra</strong></em>. Portanto, a relação com o <em>Não–Eu</em> exige um respeito absoluto pela autonomia alheia; não como um limite externo à própria liberdade, mas como sua condição de possibilidade.</p>



<h3 class="wp-block-heading">6.3. Cooperação versus Competição</h3>



<p>Contrariando a visão de que Thelema promove o isolamento competitivo, a doutrina enfatiza que a liberdade individual é <strong>dependente da liberdade coletiva</strong>. O ser humano não evoluiu para viver no vácuo; somos fundamentalmente sociais. A <strong>tapeçaria de interações sociais não é um obstáculo acidental à liberdade, mas seu tecido constitutivo</strong>.</p>



<p>O thelemita deve compreender que, enquanto houver restrição ou tirania no <em>Não–Eu</em> (na sociedade mais ampla), sua própria liberdade está potencialmente comprometida. <strong>A liberdade de um indivíduo valida e confirma a liberdade dos outros</strong>. Em uma sociedade thelêmica ideal, a cooperação harmônica baseada no reconhecimento mútuo da soberania de cada estrela supera a competição predatória baseada no medo e na escassez.</p>



<p>Ao dizer ao outro “<em>Faze o que tu queres será o todo da Lei”</em>, o indivíduo está concedendo ao <em>Não–Eu</em> a mesma dignidade e liberdade que reclama para si, criando assim um fundamento para uma irmandade universal baseada não na conformidade, mas na <strong>autonomia mútua</strong>.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Conclusão</h2>



<p>Em suma, Thelema não é uma apologia à tirania do ego, nem uma glorificação do individualismo narcisista contemporâneo. É, ao contrário, um <strong>sistema complexo e sofisticado de autorrealização</strong> que exige o equilíbrio dinâmico e a integração harmônica entre atividade e passividade, entre imposição e receptividade, entre Vontade e Amor.</p>



<p>Retornando ao argumento central deste estudo: <strong>a interpretação de Thelema como uma doutrina de imposição da vontade individual sobre o cosmos (ou sobre o outro) representa uma compreensão fundamentalmente imatura e equivocada</strong>, típica daqueles que permanecem presos nas camadas exotéricas e superficiais do sistema. O praticante maduro compreende que <strong>o verdadeiro objetivo de Thelema é a união do microcosmo com o macrocosmo</strong>: a realização da Grande Obra através da <strong>dissolução das fronteiras ilusórias entre o </strong><em><strong>eu</strong></em><strong> e o </strong><em><strong>não–eu</strong></em>. Esta união não aniquila a individualidade, mas a <strong>transfigura</strong>, revelando que a verdadeira soberania individual reside não na oposição ao Todo, mas na participação consciente e harmônica na ordem cósmica.</p>



<p>Utilizando o linguajar simbólico apropriado, a Baqueta deve ser temperada e completada pelo Cálice; a projeção assertiva da Vontade deve ser equilibrada pela recepção contemplativa do Entendimento. O Sinal de Puella, a Sacerdotisa na Missa Gnóstica e as práticas devocionais do <em>Liber Astarté</em> demonstram que a <strong>passividade não é fraqueza, mas um dos maiors poderes de um magista</strong>, um <em>poder magnético</em>, o poder de atrair, conter, nutrir e transformar.</p>



<p>Através do processo de individuação (no sentido junguiano) e da união mística com o <em>Não–Eu</em> (no sentido budista, hegeliano e thelêmico), o thelemita não busca impor–se tiranicamente sobre o mundo, mas tornar–se um <strong>canal desimpedido</strong> para a expressão da ordem cósmica. <strong>O objetivo final não é a conquista do universo, mas a </strong><strong>dissolução extática no universo</strong><strong>, realizando assim a fórmula sagrada de </strong><em><strong>Amor sob Vontade</strong></em><strong>.</strong></p>



<p>Como afirma o <em>Liber AL vel Legis</em> [I:42-43]: “<em>Deixai aquele estado de multiplicidade limitado e repugnante. Assim com vós todos; tu não tens direito senão fazer a tua vontade. Fazei isso, e nenhum outro dirá não.</em>” Esta passagem, corretamente compreendida, não é um convite ao hedonismo ou à tirania, mas uma instrução para descobrir e realizar a Verdadeira Vontade, aquela Vontade que, por estar perfeitamente alinhada com o cosmos, não encontra resistência legítima, pois reconhece e respeita a soberania de todas as outras vontades verdadeiras.</p>



<p>A Grande Obra, portanto, é simultaneamente <strong>individuação</strong> (tornar–se plenamente o que se é) e <strong>união</strong> (dissolver–se no que transcende o eu). Esta aparente contradição é resolvida na percepção de que o eu mais autêntico e individualizado é precisamente aquele que <strong>compreendeu sua identidade fundamental com o Todo</strong>. Como proclama a Missa Gnóstica: “<em>Não há parte de mim que não seja dos deuses</em>”.</p>



<p>Assim, a passividade e a receptividade revelam–se não como meras virtudes complementares à Vontade, mas como <strong>condições essenciais</strong> para sua realização. <strong>Sem a capacidade de se abrir, de receber, de se dissolver e de se unir ao </strong><em><strong>Não–Eu</strong></em><strong>, a Vontade permanece uma abstração estéril, um desejo egoico condenado à frustração.</strong> É apenas através da dança dialética entre Baqueta e Cálice, entre Vontade e Amor, entre atividade e passividade, que a Obra se consuma e o magista realiza sua verdadeira natureza como uma estrela consciente no corpo infinito de Nuit.</p>



<p>Amor é a lei, amor sob vontade.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Bibliografia</h2>



<p>BHAGAVAD GITA. Tradução de Rogério Duarte. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. [Referência ao conceito de <em>nishkama karma</em>].</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>Gems from the Equinox</strong>: Instructions by Aleister Crowley for his own Magical Order. Edição de Israel Regardie. Tempe, AZ: New Falcon Publications, 1988. [Contém os Libers citados: <em>Liber Astarté vel Berylli</em> e instruções sobre o <em>Sinal de Puella</em>].</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>Magick: Liber ABA, Book 4</strong>. Edição de Hymenaeus Beta. York Beach: Weiser Books, 1997. [Contém o <em>Liber XV (Missa Gnóstica)</em> e <em>Liber V (Liber Reguli)</em>].</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>O Livro da Lei: Liber AL vel Legis</strong>. Tradução de Marina Della Valle. Rio de Janeiro: Madras, 2018.</p>



<p>CROWLEY, Aleister. <strong>The Equinox, Vol. III, No. I</strong> (The Blue Equinox). Detroit: Universal Publishing, 1919. [Fonte original do <em>Liber CL vel </em><em>לענ </em><em>De Lege Libellum</em>].</p>



<p>FORTUNE, Dion. <strong>A Magia Aplicada</strong>. Tradução de Antônio Carlos Silva. São Paulo: Pensamento, 1982.</p>



<p>HEDENBORG WHITE, Manon. <strong>The Eloquent Blood</strong>: The Goddess Babalon and the Construction of Femininities in Western Esotericism. Oxford: Oxford University Press, 2020. [Sugestão acadêmica contemporânea para fundamentar a análise da Sacerdotisa e da receptividade na O.T.O.].</p>



<p>HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. <strong>Fenomenologia do Espírito</strong>. Tradução de Paulo Meneses. 9. ed. Petrópolis: Vozes, 2014. [Referência à dialética do senhor e do escravo e à união sujeito-objeto].</p>



<p>HUME, David. <strong>Tratado da Natureza Humana</strong>. Tradução de Débora Danowski. 2. ed. São Paulo: UNESP, 2009. [Referência à crítica do &#8220;eu substancial&#8221;].</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>Aion: Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo</strong>. Tradução de Dom Mateus Ramalho Rocha. 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2011. (Obras Completas de C.G. Jung; v. 9/2). [Referência ao processo de individuação e ao Self].</p>



<p>JUNG, Carl Gustav. <strong>O Eu e o Inconsciente</strong>. Tradução de Dora Ferreira da Silva. 26. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. (Obras Completas de C.G. Jung; v. 7/2).</p>



<p>RAHULA, Walpola. <strong>What the Buddha Taught</strong>. New York: Grove Press, 1974. [Referência clássica para os conceitos de <em>Anatta</em> (não-eu) e <em>Dukkha</em> citados].</p>



<p>SARTRE, Jean-Paul. <strong>O Ser e o Nada</strong>: Ensaio de ontologia fenomenológica. Tradução de Paulo Perdigão. 24. ed. Petrópolis: Vozes, 2015. [Referência à consciência como &#8220;nada&#8221; e transcendência].</p>



<p>SCHELLING, Friedrich Wilhelm Joseph. <strong>Sistema do Idealismo Transcendental</strong>. Tradução de Ruben Dario. Petrópolis: Vozes, 2010. [Referência à Filosofia da Identidade].</p>
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		<title>Mamãe, Quero Ser Thelemita</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/mamae-quero-ser-thelemita/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 Oct 2025 15:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
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<p>Está certo que não se vê muito adolescente dizendo que quer ser Thelemita. Pelo menos, não tantos quanto dizem que querem ser youtubers. Até porque, cá entre nós, dá mais trabalho ser Thelemita. Mas sempre tem uma meia dúzia de gatos pingados que dizem isso. Só que aí a gente tem de começar se perguntando uma coisa: afinal de contas, o que é ser um Thelemita?</p>



<p>Para a grande maioria das pessoas da patota ocultista, a definição de Thelemita é um chato que se acha a última bolacha do pacote, anda todo vestido de “trevoso” e sai por aí fazendo um monte de besteira dizendo que “é da lei”. E, admitamos, na maior parte das vezes estão certos. Por uma pequena sorte do destino, porém, nem sempre. Dá para achar por aí uma turma séria que tenta entender mais que bodega é essa de Thelema e se aprofundar em algo mais espiritual do que sexo, drogas e rock’n’roll (nada contra nenhum deles).</p>



<p>Porque não importa se você encara Thelema como uma filosofia ou uma religião, ou um método de magia, tem uma coisinha ou outra que não dá para deixar de lado quando se fala nisso. Porque, se formos levar em conta a inexistência de dogmas em Thelema, fica meio complicado em definir o que é, na dura, um Thelemita. Mas essas supracitadas coisinhas podem ser encaradas como uma espécie de mínimo do mínimo. E você, claro esclarecido Joãozinho, pode me perguntar quais são.</p>



<p>E eu respondo.</p>



<p>Ou, pelo menos, tento responder.</p>



<p>Um Thelemita é alguém que entende que todo e qualquer ser humano é uma divindade por si, vendo-se como responsável por cumprir um papel específico no Grande Esquema das Coisas<strong>®</strong>&nbsp;e buscando cumprir esse papel.</p>



<p>Pois é. É isso.</p>



<p>E aí eu já consigo escutar o povo querendo saber onde é ficou o Livro da Lei, onde entram uma penca de juramentos e as Ordens, que fim levou Magick, para que serve aquele monte de ritual e por aí vai. Pois é. No fim das contas, não precisa mesmo de nada disso.</p>



<p>Opa! Calma lá! Não disse que essas coisas (e outras mais) não servem para nada e que a gente pode largar tudo isso e ir tomar uma cerveja no boteco da esquina. Aliás, por incrível que pareça, dá para seguir com tudo isso e ir tomar uma cerveja no boteco da esquina. Acontece que mesmo essa minha definição de Thelemita é ainda total e completamente aberta a interpretações pessoais. Ou seja, não define xongas. É apenas a ideia abstrata de um Thelemita. Tipo caverna de Platão, sabe? Só que com luz estrobo.</p>



<p>Mas pensemos bem. A própria ideia da Lei de Thelema diz que lá pelos idos de 1904 a humanidade entrou em um novo paradigma espiritual. Não a Dagmar que só anda de preto. Nem o Zequinha que faz o Estrela Rubi toda vez que enxerga um crucifixo. Toda a humanidade.</p>



<p>Repita comigo: Toda. A. Humanidade.</p>



<p>Deu para sacar agora?</p>



<p>Isso significa que, de uma forma ou de outra, essa ideia base do Ser Humano como responsável por suas escolhas, decisões e seu próprio destino, sem um Deus ou um Diabo para jogar as suas responsabilidades às costas é algo que vai despertando no íntimo de cada um de nós quer tenhamos ou não consciência disso. Mas claro que cada um vai reagir a isso de uma forma diferente. Em alguns isso vai atuar com um baita “cacete, é isso mesmo” enquanto para outros a consequência dessa linda sementinha vai ser um berro de desespero que daria orgulho a qualquer scream queen de filme de terror adolescente. Mas não adianta. Está lá.</p>



<p>Mas isso também significa que tem muita gente por aí que está fazendo coisas como “seguir sua Verdadeira Vontade” sem nunca ter ouvido falar no Crowley, Liber AL vel Legis, Thelema ou nada do tipo. Mas eles sentiram esse novo modo de ser dentro de si e tocaram o barco adiante em suas vidas. Vai dizer que são menos Thelemitas por conta disso?</p>



<p>Outros ouviram falar disso tudo e usam como muletas para sair tocando o terror em cima de tudo quanto é Cristão e Wiccan enquanto se divertem pacas no próximo show da sua banda favorita de trash metal. Mas… Vai dizer que são menos Thelemitas por conta disso?</p>



<p>E, por certo, existem até aqueles que ficam se enfiando em Ordens iniciáticas, fazem um monte de rituais, estudam os textos do Crowley, meditam… Alguns até só se alimentam de couve e tomam sol no traseiro. Vai dizer que são menos Thelemitas por conta disso?</p>



<p>Talvez (e talvez seja só talvez mesmo) o que faz a diferença entre os ditos Thelemitas e os que se dizem não Thelemitas seja a consciência tomada dessa mudança e sua aceitação ou a inconsciência e negação. Alguns talvez conheçam o termo e outros talvez não.</p>



<p>Ou talvez a diferença não passe de uma etiqueta que grudamos em nossos traseiros.</p>



<p>Vai dizer que seriamos menos Thelemitas por conta disso?</p>
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		<title>Crowley Já Morreu, Pombas!</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/crowley-ja-morreu-pombas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Oct 2025 15:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
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<p>Pronto. Falei! Crowley está morto e enterrado (eu sei, eu sei). Há quase cem anos, aliás, para alegria de muita gente. Então, eu pergunto, por que é que ainda sentimos o peso de sua mão morta em nossos ombros? Por que diabo temos de nos ater que nem um bando de cegos a seus escritos? Sinto que causei certo desconforto na plateia… Vejo uns e outros com cara de quem comeu angu velho… Afinal de contas, argumenta aquela simpática velhinha da terceira fila, esse menino não é da tal da O.T.O., que propaga a tal de Thelema que o Crowley propôs? Sim, minha doce senhora, isto tudo está correto. Mas então a O.T.O. deixou de ser uma ordem Thelêmica, perspicazmente inquire o garotão de cabelo azul no fundo do salão? Muito pelo contrário, respondo eu, a Ordem é cada vez mais e mais Thelêmica! Mas agora que está armada a confusão, deixem–me explicar algumas pequenas coisas.</p>



<p>Antes de tudo, devemos nos lembrar bem do que é Thelema: uma [filosofia / religião / estilo de vida / whatever, que saco] que busca potencializar o indivíduo, permitir a cada um a plena realização de sua vida, uma religião que propõe a ligação direta entre o indivíduo e sua própria concepção de divino. Todo o resto gira em torno disto, com a miríade de variações que apenas uma filosofia/religião não dogmática poderia acomodar sem resultar em sopapos e bofetões. Bem… De vez em quando rolam uns sopapos e bofetões. Mas isto não vem ao caso agora. O que importa neste momento é que tenhamos em mente que o Crowley criou foi uma série de métodos, práticas e formas de se alcançar o fim proposto por uma<br>ideia que, acredito eu, ele mesmo não tinha muita noção do que era.</p>



<p>Pronto… Mais comoções no público…</p>



<p>Sim, meu senhor. Sim, minha senhora. Eu estou afirmando aqui que o senhor Aleister Crowley, também conhecido como, Mestre Therion, Carecão, ou como queira chamá–lo, não tinha plena noção do que deveria ser a filosofia Thelêmica. (Duvida? Dá uma conferida em AL II:76.) Afinal de contas, pensem bem… Será que Mendel tinha plena noção do que era a genética? Ou que Einstein tinha plena noção de todas as possibilidades da Teoria da Relatividade? É claro que não. Por mais geniais que estas pessoas fossem é óbvio que não poderiam pegar aquela pequena semente que tinham em mãos e descrever toda a árvore que ela viria a se tornar. Da mesma forma, Crowley lançou a semente do pensamento libertador de Thelema mas não lhe seria possível vislumbrar o crescimento desta semente no futuro; não lhe seria possível prever os rumos que a sociedade iria tomar e como Thelema poderia incluir–se nesta sociedade.</p>



<p>Pois o mundo de hoje é muito, mas muito diferente daquele que Crowley conheceu. Não apenas a tecnologia atingiu conquistas inimagináveis por alguém que tenha vivido na primeira metade do Séc. XX ou antes (deixemos Roger Bacon de lado) como todo o modo de ser das pessoas alterou–se radicalmente. Nossa forma de agir ou mesmo de pensar, nossa forma de encarar o mundo e com ele nos relacionarmos muito pouco tem a ver com aquela que Crowley conheceu. Veja o próprio comportamento deste que foi chamado de “o pior homem do mundo”. Ele se drogava, transava alucinadamente com homens e mulheres, pintava quadros ruins e escrevia coisas estranhas, gostava desta história de magia, tinha um monte de seguidores… Ora bolas! Será que ele era um astro de alguma banda de rock e eu não<br>sabia? (Sim, minha senhora, eu já vi a contracapa de Sgt. Pepper’s…) Ou seja, nenhuma das atitudes tão escandalosas e “demoníacas” de Crowley receberia tanta atenção assim hoje em dia. Ele seria apenas mais um. Entretanto, esta foi a forma que ele encontrou, há um século anos, mais ou menos, para mostrar a uma sociedade ainda sob as asas do pensamento vitoriano, que era possível a uma pessoa comportar–se de uma forma não convencional, segundo os seus próprios desígnios, desde que, é claro, mantivesse a responsabilidade por seus atos. Funcionou, naquele tempo e naquele lugar. Funcionou, com aquela estrutura social e psicológica.</p>



<p>Porém não estamos mais naquele tempo e lugar. Não temos mais a mesma estrutura social ou psicológica. Nossa realidade é outra mas algumas pessoas continuam aferrando–se ao pensamento de Crowley como se fosse o único caminho possível. Estas pessoas convenceram–se de que a melhor (quiçá única) forma de serem “verdadeiros thelemitas” é seguindo passo a passo o que ele escreveu, disse ou fez. Simplesmente emulam a forma de agir e pensar de outra pessoa. Isto é o que mais longe está de ser um thelemita! E é por isto que eu digo e repito: Crowley está morto e ainda bem que ele está morto! Não<br>digo que seus escritos devam ser queimados em praça pública, que seu nome seja relegado ao limbo ou outra bobagem desta. Mas temos de manter em mente que, por mais que Newton tenha criado a moderna Física, que ainda estudemos seus conceitos e utilizemos suas fórmulas, não nos atemos só ao que Newton criou. Um físico busca novas idéias, novas teorias, novas formas de encarar a física — mesmo que estas novas formas contestem a própria física Newtoniana! A isto se chama evolução.</p>



<p>O mesmo se dá em Thelema. A obra de Crowley foi seu marco inicial, e seus rituais e escritos formam a base de estudo da filosofia, da religião e do sistema mágico. Isto é óbvio e não deve jamais ser descartado. O erro se dá, porém quando o estudante passa a ver a compreensão da obra crowleyana como o objetivo de seus estudos e não como um ponto de partida. Desde então o mundo já deu mais voltas do que discurso de político e uma das tarefas a que devemos dedicar nossos estudos é justamente a adaptação de Thelema a esta nova realidade, ao aqui e agora. Não nos prendermos apenas aos rituais que nos foram legados por Crowley as criarmos outros. Não nos atermos apenas à leitura obsessiva e discussão interminável sobre os escritos dele; gerarmos pensamentos novos, fomentarmos novas discussões.</p>



<p>E é por isto que eu, mais uma vez digo: Crowley está morto. Mas Thelema está viva e é nossa obrigação, enquanto thelemitas, mantê–la viva e bem, de fazê–la evoluir, adaptar–se como é de sua própria natureza. Pois o Livro da Lei é uma obra viva que evolui e muda com o tempo e para cada pessoa, não um pedaço morto e enterrado de papel.</p>



<p>Por favor, não o transformem nisso.</p>
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		<title>Babalon e a Nova Prostituta Sagrada</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/babalon-e-a-nova-prostituta-sagrada/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 Aug 2025 14:52:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminino]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
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					<description><![CDATA[Resumo Este artigo examina Babalon, uma das figuras mais intrigantes (e controversas) do sistema thelêmico de Aleister Crowley. Longe de ser apenas mais uma deusa esotérica, Babalon representa um fascinante paradoxo: ela é simultaneamente a &#8220;Grande Mãe&#8221; acolhedora e a &#8220;Grande Prostituta&#8221; transgressora. Este estudo explora como essa figura aparentemente contraditória funciona como um poderoso... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/babalon-e-a-nova-prostituta-sagrada/">Leia mais</a></div>]]></description>
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<h2 class="wp-block-heading">Resumo</h2>



<p>Este artigo examina Babalon, uma das figuras mais intrigantes (e controversas) do sistema thelêmico de Aleister Crowley. Longe de ser apenas mais uma deusa esotérica, Babalon representa um fascinante paradoxo: ela é simultaneamente a &#8220;Grande Mãe&#8221; acolhedora e a &#8220;Grande Prostituta&#8221; transgressora. Este estudo explora como essa figura aparentemente contraditória funciona como um poderoso símbolo de transformação espiritual, desde suas origens na rebelião adolescente de Crowley contra sua mãe religiosa até suas ressignificações contemporâneas por comunidades feministas e LGBTQIA+ que descobriram nela uma aliada inesperada na luta contra o patriarcado.</p>



<h2 class="wp-block-heading">As Origens: De vilã bíblica a heroína thelêmica</h2>



<h3 class="wp-block-heading">A Grande Transformação Simbólica</h3>



<p>Para entender Babalon, precisamos primeiro conhecer sua &#8220;versão original&#8221; &#8211; a Prostituta da Babilônia do Apocalipse. No texto bíblico, ela aparece montada numa besta de sete cabeças, vestida de púrpura e escarlate, segurando uma taça dourada cheia de&#8230; bem, coisas que fariam até um marinheiro corar. Tradicionalmente, essa figura representava tudo o que estava errado com o mundo: corrupção, luxúria, idolatria.</p>



<p>Crowley olhou para isso e pensou: &#8220;Espera aí, por que ela tem que ser a vilã? E se ela for na verdade a grande heroína da história?&#8221; Foi uma inversão brilhante. Em vez de destruir santos, Babalon os liberta. Em vez de representar corrupção, ela representa a coragem de transcender limitações morais artificiais. A Besta que ela monta não é mais sua inimiga, mas seu parceiro de dança cósmico.</p>



<p>É como se Crowley tivesse reescrito Star Wars fazendo Darth Vader ser o verdadeiro herói que estava tentando libertar a galáxia do puritanismo dos Jedi (ok, reconheço não ser o autor dessa ideia). Uma mudança de perspectiva completa que transforma todo o significado da história.</p>



<h3 class="wp-block-heading">O Contexto Psicológico: Terapia Através da Teologia</h3>



<p>A história pessoal de Crowley ajuda muito a entender essa transformação. Quando ele tinha 11 anos, seu pai morreu, deixando-o sozinho com uma mãe que se tornou ainda mais rígida e controladora. Emily Crowley não era exatamente o tipo de mãe que você gostaria de levar para conhecer seus amigos &#8211; especialmente se esses amigos fossem demônios.</p>



<p>Imagine a seguinte cena: você é um adolescente questionador em uma família vitoriana ultra-religiosa. Sua mãe, furiosa com suas perguntas &#8220;impertinentes&#8221; sobre a Bíblia e comportamentos pouco convencionais, aponta o dedo para você e declara: &#8220;Você é a Besta do Apocalipse!&#8221; A maioria das crianças teria corrido para o quarto chorando. Crowley correu para o quarto pesquisando.</p>



<p>Claro, um historiador estaria tendo convulsões com essa visão um tanto quanto colorida da juventude de Crowley. Mas serve para ilustrar como é que a coisa se passava na cabeça dele.</p>



<p>Porque, de um ponto de vista psocológico, foi dos traumas de Crowley por ter nascido em uma comunidade um tanto quanto fanática religiosa e, ainda por cima, sendo criado por uma mãe um tanto cruel que muito do que viria a, anos mais tarde, ser Babalon, nasceu &#8211; não de uma revelação mística pura, mas de um dos casos mais épicos de &#8220;eu vou mostrar para vocês&#8221; da história do ocultismo. Crowley pegou a Prostituta da Babilônia, o símbolo máximo da depravação na tradição cristã, e disse: &#8220;Esta é minha deusa&#8221;. Foi como transformar o maior insulto de sua mãe em seu maior poder mágico.</p>



<h3 class="wp-block-heading">As Visões Enochianas: Quando o Simbolismo Ganha Vida</h3>



<p>A revelação completa de Babalon não veio de uma única experiência, mas através de uma série de visões obtidas usando o sistema mágico Enochiano &#8211; uma espécie de &#8220;telefone divino&#8221; desenvolvido no século XVI pelo Dr. John Dee (que também era matemático e espião da rainha Elizabeth I, porque aparentemente naquela época você não podia ter apenas um emprego). E nesse trabalho já se antevê a figura de Babalon, mas ainda como a Prostituta da Babilônia bíblica, não ainda como a deusa que hoje conhecemos.</p>



<p>Claro que o sistema de Dee não tinha nada a ver com Thelema, na verdade, refletia toda uma cosmovisão cristã (até porque na época e lugar, não tinha outra). Crowley pegou esse sistema, deu uma banana para a cosmovisão cristã e enfiou a thelêmica nele no lugar. Ao invés de usár o Enochiano para saber qual a opinião de um bando de anjos sobre como eram as coisas, usou para explorar os 30 Æthyrs ou &#8220;paraísos&#8221;, como se estivesse subindo níveis em um videogame espiritual, em um processo de iluminação contínuo e progressivo. A grande diferença é que em vez de coletar moedas de ouro, ele estava coletando insights sobre a natureza da realidade e encontrando deusas transformadoras.</p>



<p>A revelação de Babalon manifestou-se progressivamente através dos Æthyrs. No 14º Æthyr (LIK), foi revelada a grafia precisa &#8220;Babalon&#8221; (distinguindo-a da &#8220;Babilônia&#8221; bíblica). No 12º Æthyr (ZOM), Crowley visualiza-a como Guardiã do Abismo, &#8220;mulher&#8221; que é tanto portal para iluminação quanto Mãe das Abominações. A visão detalha o &#8220;mistério de suas prostituições&#8221;, onde ela &#8220;cedeu a si mesma a tudo o que vive&#8221;, tornando-se &#8220;Senhora de Todos&#8221; através de sua &#8220;servidão a cada um&#8221;.</p>



<p>No 9º Æthyr (ZIM), surge a Filha de Babalon, descrita como Virgem do Eterno, representando nova consciência nascida da dissolução do ego. Esta progressão transforma a travessia do Abismo de experiência singular em ato de cosmogonia, onde o adepto se torna participante ativo unindo-se à deusa para manifestar novo universo.</p>



<p>Imaginem receber essa visão: uma deusa que abraça literalmente tudo &#8211; o bom, o mau, o feio, o bonito, o santo, o profano. Ela não discrimina, não julga, simplesmente aceita. Para alguém criado em uma religião obcecada com pureza e condenação, isso deve ter sido como encontrar água no deserto. E esta se tornou a questão da Grande Prostituta: não uma figura de depravação, de sexo selvagem em roupa de couro, mas do mais puro, completo e absoluto Amor, um Amor que transforma o ego de quem a alcança e a ela se entrega na mesma plenitude em um novo ser, um Bebê cósmico que renasce em seu útero.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Questão da &#8220;Prostituta Sagrada&#8221;: Desmascarando um mito antigo</h2>



<h3 class="wp-block-heading">O Problema com as Fontes Históricas</h3>



<p>Antes de mergulharmos mais fundo na teologia de Babalon, precisamos falar sobre um elefante na sala: a ideia da &#8220;prostituta sagrada&#8221; na antiguidade. Por muito tempo, acreditamos que civilizações antigas tinham mulheres que se prostituíam nos templos como parte de rituais religiosos. Era uma história fascinante que aparecia em todos os livros sobre religião antiga.</p>



<p>Há apenas um problema: provavelmente nunca existiu.</p>



<p>Pesquisadores como Stephanie Budin e Julia Assante passaram décadas examinando evidências e chegaram a uma conclusão surpreendente: a &#8220;prostituição sagrada&#8221; é basicamente um mito urbano antigo que começou com Heródoto (que, convenhamos, às vezes era mais interessado em uma boa história do que em fatos verificados) e foi sendo perpetuado por 2.000 anos de má interpretação e wishful thinking.</p>



<p>É como aquela história que todo mundo &#8220;conhece&#8221; sobre como os vikings usavam capacetes com chifres &#8211; todo mundo acredita, aparece em todos os filmes, mas na verdade não há evidência arqueológica de que isso tenha acontecido (em tempo: capacetes com chifres vieram de óperas do século XIX, não de campos de batalha medievais).</p>



<h3 class="wp-block-heading">O Que Realmente Existia: O <em>Hieros Gamos</em></h3>



<p>O que realmente existia na antiguidade era algo chamado <em>hieros gamos</em> &#8211; &#8220;casamento sagrado&#8221;. Mas isso era bem diferente da prostituição. Imagine mais como uma peça teatral cósmica onde um sacerdote-rei e uma sacerdotisa-rainha representavam a união de divindades como Inanna e Dumuzid.</p>



<p>O objetivo não era sexual, mas simbólico: garantir que a terra fosse fértil, as colheitas abundantes e a comunidade próspera. Era como um ritual de boa sorte em escala civilizacional. Nada de dinheiro trocando de mãos, nada de prostituição &#8211; apenas uma encenação sagrada para manter o cosmos funcionando adequadamente. Mas, principalmente, nada da ideia da submissão de uma mulher a um homem para que este tivesse algum tipo de experiência divina.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Babalon: Uma &#8220;Prostituta&#8221; Diferente</h3>



<p>Então, se a prostituição sagrada histórica provavelmente não existiu, o que faz de Babalon uma &#8220;prostituta sagrada&#8221;? A resposta é que ela redefine completamente o conceito.</p>



<p>Babalon é &#8220;prostituta&#8221; não porque entrega seu corpo a um barbudo, mas porque se entrega completamente a tudo que existe. Ela não discrimina &#8211; aceita santos e pecadores, heróis e vilões, homens e mulheres, o sublime e o ridículo. É uma receptividade universal sem julgamentos.</p>



<p>Mas &#8211; e este é um &#8220;mas&#8221; importante &#8211; ela cobra um preço muito específico por essa união: seu sangue. Não sangue literal (embora alguns praticantes tenham interpretado assim), mas o &#8220;sangue&#8221; simbólico que representa seu ego, sua identidade, tudo que você pensa que é.</p>



<p>É como se ela dissesse: &#8220;Quer minha aceitação total? Quer experimentar o amor incondicional? Perfeito. Mas você vai ter que deixar para trás tudo que pensa que sabe sobre si mesmo.&#8221; Não é exatamente uma transação comercial tradicional.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Jornada do Adepto: Como se tornar Ninguém para se tornar Tudo</h2>



<h3 class="wp-block-heading">O Cálice Flamejante: Mais que uma Metáfora</h3>



<p>O símbolo central de Babalon é seu cálice dourado &#8211; não uma simples taça, mas um verdadeiro Graal que ela ergue em chamas de amor e morte. Este cálice representa uma das ideias mais radicais em todo o esoterismo: que a verdadeira transformação espiritual requer a completa dissolução do ego.</p>



<p>Pense nisso como um alquimia psicológica extrema. Na alquimia tradicional, você pega chumbo (matéria bruta) e o transforma em ouro através de vários processos, incluindo a <em>nigredo</em> &#8211; literalmente &#8220;enegrecimento&#8221; ou putrefação. O Cálice de Babalon funciona da mesma forma: você &#8220;despeja&#8221; seu ego nele, ele passa pela dissolução completa. Não é que o ego deixe de existir, mas o que emerge é algo completamente transformado. </p>



<p>A parte mais interessante? Babalon não força ninguém a sacrificar o ego seu Cálice. Ela simplesmente existe no Abismo &#8211; aquele vazio existencial que separa a consciência comum da iluminação &#8211; oferecendo a opção. É como se ela dissesse: &#8220;Aqui está o caminho. Se quiser atravessar, você sabe o preço.&#8221;</p>



<h3 class="wp-block-heading">O Bebê do Abismo: Renascimento Cósmico</h3>



<p>O que acontece depois que você &#8220;morre&#8221; no Cálice de Babalon é onde as coisas ficam realmente interessantes. Você não simplesmente desaparece &#8211; você renasce como o &#8220;Bebê do Abismo.&#8221; É como respawnar em um videogame, exceto que agora você tem um avatar completamente diferente.</p>



<p>Este &#8220;bebê&#8221; não é uma criança literal, mas um novo tipo de consciência que transcendeu a dualidade e a identidade individual. É você, mas não é você. É como se a pessoa que você era fosse um personagem em uma peça, e agora você descobriu que é na verdade o ator que estava interpretando o personagem o tempo todo.</p>



<p>A metáfora do &#8220;útero&#8221; de Babalon é perfeita aqui. Assim como um bebê precisa do útero materno para se desenvolver, esta nova consciência precisa do &#8220;útero&#8221; da deusa para crescer até estar pronta para emergir completamente transformada.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A Cidade das Pirâmides: Destino Final dos Transformados</h3>



<p>O destino final desta jornada é a &#8220;Cidade das Pirâmides&#8221; &#8211; que soa como algo de um filme de fantasia, mas na verdade representa um estado de consciência onde todos os adeptos que passaram por essa transformação residem coletivamente.</p>



<p>As pirâmides são símbolos perfeitos aqui porque representam tanto estabilidade (essas estruturas duram milênios) quanto transformação (elas eram, afinal, construídas para facilitar a jornada dos mortos para uma nova vida). A &#8220;cidade&#8221; sugere que a iluminação não é uma experiência solitária, mas algo que conecta você a uma comunidade de consciências transformadas. Um grupo de homens, mulheres, pessoas não binárias, seja o que for, que passou a enxergar o mundo sob uma nova perspectiva.</p>



<p>É como se depois de passar pelo processo mais individual e solitário imaginável &#8211; a dissolução completa do seu ego &#8211; você descobrisse que não está sozinho, mas faz parte de algo muito maior.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Babalon no Tarô: Um mapa visual da transformação</h2>



<h3 class="wp-block-heading">A Sequência Iniciática nas Cartas</h3>



<p>Crowley e Lady Frieda Harris criaram o Tarô de Thoth não apenas como um baralho divinatório, mas como um mapa visual completo da jornada espiritual thelêmica. Quatro cartas específicas contam a história da aproximação e união com Babalon de forma quase cinematográfica.</p>



<p><strong>A Alta Sacerdotisa (II)</strong>: Nossa história começa aqui, com a necessidade de olhar para dentro. É como o primeiro ato de um filme onde o protagonista percebe que há algo mais na vida além da rotina diária. A Sacerdotisa representa aquele momento de &#8220;espera, há algo que não estou vendo aqui?&#8221;</p>



<p><strong>A Imperatriz (III)</strong>: Esta é a &#8220;porta&#8221; &#8211; literalmente, já que a carta corresponde à letra hebraica Daleth. É quando você começa a entender que existe um princípio criativo feminino poderoso no universo, algo bem diferente das imagens limitadas da feminilidade que a sociedade nos oferece.</p>



<p><strong>O Carro (VII)</strong>: Aqui as coisas ficam sérias. Esta carta representa o momento em que você desenvolve disciplina e vontade suficientes para enfrentar o Abismo. Note que o auriga no Tarô de Thoth (que é uma representação de Hórus, a divindade representativa do novo Eon) não tem rédeas &#8211; ele controla as esfinges opostas apenas com a força de sua Vontade. </p>



<p><strong>Luxúria (XI)</strong>: A grande final. Esta é Babalon em toda sua glória, montando a Besta e segurando o cálice flamejante. Mas preste atenção na expressão corporal dela &#8211; não é lasciva ou maliciosa. É radiante, alegre, quase brincalhona. Ela não está forçando ninguém; está simplesmente oferecendo a transformação final com um sorriso.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A Inversão das Expectativas</h3>



<p>O que é brilhante nesta sequência é como ela inverte completamente nossas expectativas sobre poder e feminilidade. A jornada começa com introspecção passiva (Sacerdotisa) e termina com uma figura feminina ativa e poderosa (Luxúria/Babalon) que oferece a transformação mais radical possível.</p>



<p>E note que em nenhum momento Babalon é apresentada como vítima ou como servindo aos propósitos de outra pessoa. Ela é claramente a figura no comando, aquela que detém as chaves para a transcendência. É uma inversão completa do arquétipo da &#8220;donzela em perigo&#8221; que domina tantas tradições espirituais.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A Era Moderna: Quando Babalon encontra o Século XX</h2>



<h3 class="wp-block-heading">Jack Parsons e o Perigo do Literalismo</h3>



<p>A história de Babalon no século XX tem alguns capítulos fascinantes, incluindo um que serve como excelente exemplo de &#8220;como não fazer magia&#8221;. Jack Parsons, cientista de foguetes e praticante thelêmico, decidiu que queria literalmente invocar Babalon para a Terra física. Não como experiência interior, não como trabalho psicológico, mas como uma mulher real que seria a encarnação da deusa.</p>



<p>O resultado foi a &#8220;Operação de Babalon&#8221; &#8211; um ritual elaborado que incluiu música de Prokofiev, magia Enochiana e uma viagem ao deserto de Mojave. Parsons acreditava ter sucesso quando conheceu Marjorie Cameron, uma artista que ele imediatamente declarou ser a manifestação de Babalon.</p>



<p>O problema? Cameron não sabia de nada disso. Ela foi essencialmente tratada como um &#8220;elemento&#8221; a ser invocado, não como uma pessoa com agência própria. Parsons transformou um arquétipo de empoderamento feminino em um objeto de fantasia masculina. Foi como tentar usar uma Ferrari como carrinho de mão &#8211; tecnicamente você pode tentar, mas vai perder completamente o ponto.</p>



<p>A falha de Parsons é instrutiva porque mostra o que acontece quando você perde de vista a natureza simbólica e psicológica dos arquétipos espirituais. Babalon não é uma mulher para ser encontrada &#8220;lá fora&#8221; &#8211; ela é uma força transformadora para ser encontrada dentro da própria consciência.</p>



<h3 class="wp-block-heading">A Revolução Feminista: Babalon Se Liberta de Seus Criadores</h3>



<p>Aqui é onde a história fica realmente interessante. A partir dos anos 1990, algo notável aconteceu: mulheres e pessoas da comunidade LGBTQIA+ começaram a reivindicar Babalon para si mesmas, transformando-a de uma fantasia masculina em um símbolo genuíno de empoderamento.</p>



<p>A pesquisadora Manon Hedenborg White documentou esta transformação em seu trabalho etnográfico. O que ela descobriu foi fascinante: praticantes femininas estavam ativamente reescrevendo o significado de Babalon, desafiando interpretações históricas e criando novas formas de se relacionar com o arquétipo.</p>



<p>O &#8220;ofício&#8221; da Mulher Escarlate &#8211; que na visão de Crowley era um cargo nomeado por uma figura masculina &#8211; tornou-se algo &#8220;auto-nomeado.&#8221; Mulheres não esperavam mais que algum homem as declarasse &#8220;Mulher Escarlate&#8221;; elas simplesmente assumiam o título baseadas em sua própria experiência e autoridade.</p>



<p>É como se Babalon tivesse finalmente escapado das limitações de seus criadores originais e encontrado sua voz autêntica. A deusa que sempre foi sobre transcender limitações finalmente transcendeu as limitações de sua própria tradição.</p>



<h3 class="wp-block-heading">Babalon e a Comunidade Queer: Transcendendo Binários</h3>



<p>Para a comunidade LGBTQIA+, Babalon oferece algo especialmente poderoso: um arquétipo divino que não se encaixa em categorias binárias tradicionais. Ela não é nem &#8220;donzela&#8221; nem &#8220;puta&#8221; no sentido convencional &#8211; ela transcende completamente essa dualidade artificial.</p>



<p>A jornada iniciática de dissolução no Cálice de Babalon ressoa fortemente com experiências de transição e fluidez de gênero. A ideia de &#8220;morrer&#8221; para uma identidade antiga e renascer como algo novo é uma metáfora poderosa para qualquer pessoa que tenha questionado ou transcendido as categorias de gênero que lhe foram atribuídas no nascimento.</p>



<p>Além disso, a receptividade universal de Babalon &#8211; sua aceitação de tudo que existe sem julgamento &#8211; oferece uma alternativa refrescante às tradições religiosas que historicamente marginalizaram pessoas queer. Aqui está uma deusa que literalmente abraça tudo, incluindo aspectos da sexualidade e identidade que outras tradições consideram &#8220;abominações.&#8221;</p>



<h2 class="wp-block-heading">As Contradições Produtivas de Babalon</h2>



<h3 class="wp-block-heading">O Paradoxo do Poder Feminino</h3>



<p>Uma das tensões mais interessantes em Babalon é como ela simultaneamente serve e domina. Na narrativa thelêmica tradicional, seu papel parece ser facilitar a jornada do adepto (implicitamente masculino). Mas olhando mais de perto, ela é claramente quem tem o poder na relação.</p>



<p>Pense nisso: ela é quem estabelece os termos da transformação. Ela é quem possui a chave para a transcendência. O adepto pode escolher se aproximar dela, mas não pode ditar as condições da união. É como se ela fosse uma professora de arte marciais extremamente poderosa &#8211; ela vai te ensinar, mas apenas se você estiver disposto a seguir completamente as regras dela.</p>



<p>Esta dinâmica inverte completamente as expectativas tradicionais sobre poder e gênero. Em vez do típico &#8220;herói masculino salva donzela passiva,&#8221; temos &#8220;figura feminina poderosa oferece transformação ao ego masculino disposto a se submeter completamente.&#8221;</p>



<h3 class="wp-block-heading">Libertação Através da Rendição</h3>



<p>Outro paradoxo fascinante é como Babalon oferece libertação através da rendição total. Ela não liberta você dando-lhe mais poder sobre sua vida; ela o liberta destruindo completamente sua identificação com qualquer vida particular.</p>



<p>É como se ela dissesse: &#8220;Quer ser livre? Perfeito. Primeiro você vai ter que desistir de tudo que pensa que quer libertar.&#8221; É uma forma muito radical de terapia &#8211; em vez de fortalecer o ego, ela oferece transcendê-lo completamente.</p>



<p>Esta abordagem ressoa com tradições místicas ao redor do mundo que enfatizam a rendição do ego como caminho para a iluminação. Mas Babalon adiciona uma dimensão única: ela torna este processo sensual, celebratório, até mesmo divertido. Não é uma renúncia sombria, mas uma festa cósmica da transformação.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Conclusão: O Fogo Escarlate continua queimando</h2>



<p>Em sua jornada de transformação, Babalon apresenta uma das mais belas e importantes características de Thelema: a capacidade de se auto-analisar, se transformar e de readequar a um novo olhar sobre o mundo. E olha como ela mostra que esta jornada se faz na pessoa, na divindade ou mesmo no pensamento thelêmico como um todo!</p>



<p>Babalon começou como a solução criativa de um adolescente rebelde para um problema familiar complicado. Aleister Crowley transformou o maior insulto de sua mãe puritana em sua maior fonte de poder mágico, criando uma deusa que desafiava tudo que sua educação religiosa representava.</p>



<p>Mas arquétipos poderosos têm vida própria. Babalon cresceu além das intenções de seu criador, tornou-se maior que suas origens psicológicas, transcendeu até mesmo as limitações de sua própria tradição. Ela provou que símbolos genuinamente transformadores não ficam presos às circunstâncias de sua criação.</p>



<p>Hoje, Babalon continua sendo uma força subversiva &#8211; não mais apenas contra o cristianismo vitoriano, mas contra qualquer sistema que tente limitar a expressão autêntica da sexualidade, espiritualidade ou identidade. Ela se tornou uma aliada para qualquer pessoa disposta a questionar autoridades artificiais e abraçar sua própria transformação radical.</p>



<p>O Fogo Escarlate de Babalon queima mais brilhante que nunca, iluminando caminhos para tipos de liberdade que nem mesmo Crowley poderia ter imaginado. E talvez isso seja exatamente o que toda boa deusa deveria fazer &#8211; superar constantemente as expectativas de seus devotos e continuar oferecendo possibilidades de transcendência que ainda não conseguimos nem sonhar.</p>



<p>Afinal, que tipo de deusa seria se pudéssemos controlá-la completamente? Babalon permanece perigosa, impredizível e transformadora &#8211; exatamente como deveria ser. O Abismo ainda está lá, o Cálice ainda está flamejante, e o convite para a dissolução e renascimento continua aberto para qualquer um corajoso o suficiente para aceitar.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h2 class="wp-block-heading">Bibliografia</h2>



<ul class="wp-block-list">
<li>BATISTA, K.F. O Debate Historiográfico Acerca da Ideia de &#8220;Prostituição Sagrada&#8221; no Antigo Crescente Fértil. <em>Revista Vernáculo</em>, nº 28. UFPA, 2011.</li>



<li>CROWLEY, A. <em>O Livro da Lei</em>. Oásis Quetzalcoatl, 2025.</li>



<li>CROWLEY, A. <em>A Visão e a Voz</em>. Red Wheel/Weiser, 1999.</li>



<li>CROWLEY, A. <em>O Livro de Thoth</em>. Red Wheel, 1981.</li>



<li>MONTALVÃO, S.A. O Mito Da Prostituição Na Antiga Mesopotâmia: uma dissociação de seus respectivos &#8220;papéis&#8221; da sexualização. <em>Caminhos</em>, v. 18, nº 2. PUC-GO, 2020.</li>



<li>PARSONS, J.W. <em>Liber 49</em>. Thelema, 1949.</li>



<li>QUALLS-CORBETT, N. <em>A Prostituta Sagrada: a Face Eterna do Feminino</em>. Paulus Editora, 1997.</li>



<li>WHITE, M.H. <em>O Sangue Eloquente: A deusa Babalon e a construção das feminilidades no esoterismo ocidental</em>. Academic, 2019.</li>
</ul>
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		<title>Mestres Também Vão ao Banheiro</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/mestres-tambem-vao-ao-banheiro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Jan 2025 17:55:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
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					<description><![CDATA[Sempre acho graça na forma como as pessoas imaginam os chamados &#8220;mestres&#8221;, seja na forma como estes se apresentem. Podem ser os altos iniciados de ordens mágicas ou líderes de fraternidades místicas. Podem ser gurus ou iogues. Sacerdotes e sacerdotisas de várias religiões e por aí vai. Não adianta. É só o sujeito chegar a... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/mestres-tambem-vao-ao-banheiro/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sempre acho graça na forma como as pessoas imaginam os chamados &#8220;mestres&#8221;, seja na forma como estes se apresentem. Podem ser os altos iniciados de ordens mágicas ou líderes de fraternidades místicas. Podem ser gurus ou iogues. Sacerdotes e sacerdotisas de várias religiões e por aí vai. Não adianta. É só o sujeito chegar a um determinado nível de sua evolução espiritual particular que todo mundo à sua volta já coloca nele um crachá de &#8220;mestre&#8221; e o apartam do resto da raça humana, como se eles se tornassem algum tipo de criatura especial. Talvez azul.</p>



<p>É claro que aqui eu não estou falando daquela turminha que tem uma especial predileção para agitar os braços em praça pública ou fazer 845 postagens em redes sociais dizendo &#8220;olhem para mim, eu sou um mestre&#8221;. Esses não contam. Estou falando do pessoal que chegou lá de verdade, por esforço próprio. E sabe que não adianta nada ficar alardeando isso.</p>



<p>Em geral esses mestres são vistos pelo &#8220;cidadão ocultista médio&#8221; (também conhecido como &#8220;esquisotérico&#8221;), ao qual daremos o nome genérico de Zé, como seres sobre-humanos, completamente infalíveis e perfeitos. O Zé pensa nessas pessoas como sempre tendo pensamentos iluminados, livres de erros e das falhas mesquinhas da mente humana. Quase como se tivessem recebido um certificado ISO 9000 espiritual. Os mestres, na concepção de Zé, não têm as preocupações mundanas que todos temos, tais como pagar contas, ir ao supermercado ou mesmo dar um pulinho no banheiro. Não, eles são perfeitos em corpo e mente.</p>



<p>Até que o nosso amigo Zé conhece um desses mestres.</p>



<p>Oh, a glória! Oh, a dádiva! Oh, momento inesquecível!</p>



<p>Oh, a p*t@ decepção&#8230;</p>



<p>Ele acaba descobrindo que um mestre é igualzinho a qualquer outro ser humano. Que com toda a sua sabedoria ele faz também as suas bobagens. Que com toda a sua ascensão espiritual ele também xinga e tem pensamentos mesquinhos. Caramba! Ele até — abominação das abominações — come hambúrgueres e bebe Coca-Cola!</p>



<p>Que horror!</p>



<p>Como é possível que um mestre, um ser superior, um ascensionado, alguém que trabalhou sua vida inteira para atingir um nível mais alto de consciência seja tão&#8230; tão&#8230; humano! Mas é assim mesmo. Um grande mago, um grande mestre, guru, buda ou seja lá como queira chamar não é mais nem menos do que um ser humano como qualquer outro, dotado das mesmas forças e fraquezas que qualquer um de nós. Ele ri e chora, ama e odeia, tudo igualzinho a todo mundo.</p>



<p>Então podemos concluir que toda essa história de mestres, ascensão espiritual e coisa e tal é uma tremenda balela; deixemos isso para lá e vamos tomar uma cervejinha lá no botequim.</p>



<p>Certo, vamos para o botequim, nada contra. Só que aí é que entra a vantagem do verdadeiro mestre. Ele vai tomar sua cervejinha no boteco sem deixar de lado seu lado espiritual. Pois ser um mestre não significa abdicar da sua humanidade, do cotidiano, da vida mundana. Isso é ser alienado, não espiritualizado. Um mestre não é alguém perfeito, sem máculas, ou &#8220;pecados&#8221;. Não é alguém que não erra ou que não possui sentimentos (ditos) &#8220;negativos&#8221;. Ele tem e passa por tudo aquilo que todos nós passamos.</p>



<p>A diferença está no nível de consciência que o mestre mantém em todos os processos da vida, do seu dia-a-dia. Quando ele vai tomar a cerveja ele estará mantendo uma plena consciência em seus atos, pensamentos e sensações. Então ele não apenas irá beber a cerveja como, muito provavelmente, irá apreciá-la muito mais do que eu ou você. Mas não por ter um paladar melhor, apenas por ter mais consciência do que seu paladar está lhe dizendo. Um mestre se aborrece e odeia; mas sabe exatamente porque está se aborrecendo ou odiando e lida com isso de forma plena e consciente, sabendo muito bem como lidar com estes sentimentos e não sendo controlado por eles. Um mestre ama e se apaixona, mas sabe deixar estes sentimentos debaixo de sua rédea para que possa colocá-los de lado quando eles não lhe forem convenientes, trazendo-os de novo à tona quando puder apreciá-los de forma plena e sem prejuízos. Um mestre faz lá suas besteiras e idiotices, sim, mas não tenta fugir das responsabilidades que elas acarretam e aprende com elas, ao invés de fingir que nada aconteceu.</p>



<p>Um mestre é livre. Pois está livre de seus desejos e, mesmo assim, continua mergulhado neles.</p>



<p>É isso que torna alguém realmente um mestre, não conhecimento acumulado, títulos ou meramente pose. Muito menos uma roupa esquisita ou um monte de penduricalhos. Ou um nome de perfil na rede social. O que diferencia um verdadeiro mestre do &#8220;cidadão comum&#8221; não é uma auréola em torno da sua cabeça, mas simplesmente que o mestre realmente está vivendo sua vida e não meramente existindo.</p>



<p>Na verdade todos agimos como mestres em vários momentos de nosso dia: quando damos toda a nossa atenção a alguma coisa, quando agimos por decisão e não por impulso, quando buscamos aprender com nossos erros ao invés de simplesmente dizer &#8220;desculpe&#8221; e deixar para lá&#8230; Nestes momentos somos mestres. O truque consiste em não viver isso apenas em alguns momentos aleatórios de nossas vidas mas fazer com que isso seja o estado constante com que passamos o dia. E isso não acontece de uma hora para outra, em um passe de mágica.</p>



<p>É um trabalho.</p>



<p>Aperfeiçoa-se o espírito tal como um atleta aperfeiçoa seu corpo. Tal qual um músico trabalha sua arte até se tornar um maestro. Um atleta está constantemente flexionando seus músculos ou realizando pequenos movimentos que imitam o do esporte que pratica. Um pianista volta e meia está movendo seus dedos como se estivessem frente ao teclado. Eles não fazem isso por vaidade mas para manter um treinamento constante de suas habilidades. O mestre é a mesma coisa. Constantemente está praticando seus exercícios, está se auto-observando e observando o mundo. E é assim que ele não apenas se torna um mestre mas se mantém como um. Porque, assim como o atleta pode perder o tônus muscular se parar de praticar esportes e o pianista perde a agilidade dos dedos se parar de praticar, o mestre também irá perder suas &#8220;qualidades especiais&#8221; se deixar seus exercícios, práticas e observações de lado. Se um mestre não é chegar lá e pronto. É um exercício de vida</p>



<p>Para toda a vida.</p>
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		<title>E o Altar está Vazio</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/e-o-altar-esta-vazio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 11 Dec 2024 22:37:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Thelema]]></category>
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					<description><![CDATA[E olha só que beleza! Estamos no Novo Eon, o Eon de Hórus, da Lei de Thelema, da Liberdade, do Ser Humano visto como divino e essa caboja toda! E estamos nele desde 1904, por aquele calendário chato e sem graça do velho Eon. Caramba, isso dá mais de 120 anos, é muito tempo, não... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/e-o-altar-esta-vazio/">Leia mais</a></div>]]></description>
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<p>E olha só que beleza! Estamos no Novo Eon, o Eon de Hórus, da Lei de Thelema, da Liberdade, do Ser Humano visto como divino e essa caboja toda! E estamos nele desde 1904, por aquele calendário chato e sem graça do velho Eon. Caramba, isso dá mais de 120 anos, é muito tempo, não é? Bom, pelo menos é muito tempo para mim, que não estava lá. E aposto um bolinho de luz mofado que você também não estava.</p>



<p>Mas, quer saber?&#8230; Um século não é assim tanto tempo. Afinal estamos falando de EONS! E um Eon é, sim, muito, muito tempo. E com, muito, muito tempo, uma série de tropos e práxis (que são maneiras chiques de se referir a formas de agir e pensar) vão se estabelecendo como verdades absolutas e incontestáveis, como maneiras naturais de se pensar e agir. Depois de, sei lá!, uns dois mil anos, algumas ideas estão tão estabelecidas na nossa cachola que qualquer outra que as contraponha é imediatamente rechaçada como heresia, impossibilidade, não natural e por aí vai. Isso quando, na verdade, simplesmente fomos condicionados (ou esquecemos de) a não pensar ou agir de outra forma que não aquela.</p>



<p>&#8220;Tá&#8221;, pergunta o proverbial Joãozinho, &#8220;e o que é que tudo isso tem a ver com o Novo Eon?&#8221;</p>



<p>E, olha, até que foi uma boa pergunta.</p>



<p>Acontece que viemos de uns bons milênios com a ideia de que precisamos de divindades lá fora. Sejam dos panteões do Eon de Ísis ou divindades monoteístas (ou quase isso) do Eon de Osíris. Aprendemos ao longo de nossa história como Seres Humanos de que são apenas aqueles deuses e deusas que podem nos trazer conforto, resolver nossos problemas, nos guiar espiritualmente, elevar nossos espíritos e mais um bando de coisas. Colocamo-nos no colo das divindades, as reverenciamos como o ápice de Tudo o Que Existe, jogamos para elas nossos problemas e, muitas vezes, nossas responsabilidades. Em suma, nos curvamos obedientemente e subservientemente a deuses e deusas.</p>



<p>Mas aí surge um pensamento novo: o de que não precisamos de deuses e deusas para explicar o mundo e nossas vidas.</p>



<p>Não, não estou falando de Thelema. Estou falando de ateísmo. Pois é, o ateísmo não surgiu anteontem como uma negação do metafísico, ainda que os primeiros sujeitos a se identificarem como ateus só apareceram no séc. XVIII. O ateísmo surgiu mesmo como um grupo de filósofos que, ainda que não negassem a existência dos deuses passaram a tentar explicar o mundo sem recorrer a eles.</p>



<p>Então, o assunto aqui é ateísmo? Não, é Thelema mesmo.</p>



<p>Mas Thelema não nega os deuses. Diacho, tem um monte deles, até! Mas traz uma ideia diferente: a de que o próprio Ser Humano é a divindade. Na Missa Gnóstica o Sacerdote, na Segunda Oração ante o Véu diz: </p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Oh, segredo dos segredos que estás oculto no ser de tudo que vive, a Ti não adoramos pois aquele que adora é também Tu. Tu és Aquilo e Aquilo sou Eu. Eu sou a chama que queima em todo coração do homem e no núcleo de toda estrela. Eu sou Vida e o doador da Vida, no entanto, o conhecimento de mim é o conhecimento da morte. Eu estou só: não há Deus onde Eu estou.</p>



<p class="has-text-align-right">Liber XV &#8211; A Missa Gnóstica</p>
</blockquote>



<p>&#8220;Mas&#8221;, e lá vem Joãozinho de novo, &#8220;depois não diz &#8216;não há parte de mim que não seja dos deuses&#8217;?&#8221;</p>



<p>Bom, o Crowley tem algo a dizer sobre isso:</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>Alegrem-se, ó irmãos, somos todos da substância divina. Não pensamos, nem sentimos, nem percebemos, nem somos, qualquer outra coisa senão aquele Todo-Generoso, Todo-Belo, aquele Senhor em seu esplendor e seu êxtase que vem e vai em sua carruagem no alto, dando luz e louvor, mas não move nem profere nenhuma Voz! Pois não há nada no Universo que não seja dessa Unidade – regozije-se! regozije-se! Todos os caminhos são espectros, no prisma da consciência, dessa Luz Única</p>



<p class="has-text-align-right">Extraído de &#8220;Not the Life and Adventures of Sir Roger Bloxam&#8221;</p>
</blockquote>



<p>E como podemos ler isso. Bom, você pode interpretar da forma que quiser. Mas a minha pobre leitura é a de que o que você está dizendo ali não é uma entrega de si a uma divindade. É uma declaração pública de que você reconhece que não há diferença entre você e a Divindade. Aliás, não essa ou aquela divindade, não o Deus X ou a Deusa Y, mas a própria ideia de Divindade. Bolas, por isso que não há deus algum onde você está: <strong>você é o deus (ou deusa) que está ali</strong>.</p>



<p>Porém, o que é que nós, thelemitas bem thelemitões e thelemitonas fazemos? Vamos até os altares do Velho Eon e tiramos de lá as figura de Jesus, de Maria ou de qualquer outro santo. Afinal, são coisas do Velho Eon e devem ser descartadas. E, em seu lugar, colocamos imagens de Ra-Hoor-Khuit, Babalon, Nuit ou qualquer outra.</p>



<p>E continuamos agindo frente a essas divindades da mesmíssima forma que um cristão age frente a Jesus: reverenciamos, nos submetemos, colocamos nossas vidas no colo deles.</p>



<p><strong>Cacilda! Qual a diferença, então, entre essa ou aquela divindade?</strong></p>



<p>Que diferença faz essa tal mudança do Eon? Que diferença faz se você se submete e reverencia Jesus ou Babalon? No final das contas, você continua agindo da mesma forma que a humanidade sempre agiu. Porque você não conseguiu ainda aceitar que existe um <strong>outro modo</strong> de agir em relação ao Divino.</p>



<p>Não estou dizendo que você deve pegar sua fé, seu amor por esse ou aquele deus ou deusa e jogar pela janela. Vai que vai na cabeça de alguém e machuca&#8230;</p>



<p>O que estou dizendo é que um dos grandes conceitos de Thelema é que você não está abaixo do Divino ou deve servi-lo ou se submeter a esse Divino, seja lá como ele se manifeste para você.</p>



<p><strong>VOCÊ É O DIVINO!</strong></p>



<p>O grande altar que você precisa aprender a montar não é aquele cheio de imagens disso ou daquilo. É um altar vazio. Com um espelho nele.</p>



<p></p>
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		<title>Deus Está Morto!</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/deus-esta-morto/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 09 May 2024 15:52:23 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaios]]></category>
		<category><![CDATA[Filosofia]]></category>
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					<description><![CDATA[&#8220;Deus está morto!&#8221;, bradou Nietzsche. É claro que, logo depois, Deus declarou que Nietzsche é quem estava morto. E pelo visto a palavra final foi do velhote rancoroso. Mas a afirmação do autor de &#8220;Assim Falou Zaratustra&#8221; ainda provoca um arrepio na espinha de muita gente. E não estou me referindo às beatas da paróquia... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/deus-esta-morto/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8220;Deus está morto!&#8221;, bradou Nietzsche. É claro que, logo depois, Deus declarou que Nietzsche é quem estava morto. E pelo visto a palavra final foi do velhote rancoroso. Mas a afirmação do autor de &#8220;Assim Falou Zaratustra&#8221; ainda provoca um arrepio na espinha de muita gente. E não estou me referindo às beatas da paróquia ali da esquina ou ao medo de certos autoproclamados bispos de perderem a clientela. Há uma espécie de horror nato na humanidade que esta frase parece evocar.</p>



<p>Garantir a morte de Deus, este mesmo Deus que — bem ou mal — tem batido ponto nos últimos dois mil anos (ou mais, se considerarmos o currículo anterior), soa por demais decisivo e até mesmo antinatural. Bolas, mas por quê?</p>



<p>Acredito que a melhor resposta a esta pergunta tenha sido enunciada por Dostoiévski. Disse o russo que, se Deus não existe tudo é permitido, e acaba que ninguém precisa de escrúpulos, moral, sentimentos… Pois está enraizada a multimilenar idea do eixo bem–mal servindo de base moral para a humanidade. Quantas vezes você não ouviu alguém falando que uma pessoa que faz algo condenável &#8220;não tem Deus no coração&#8221;? O que faz com que o ser humano se comporte é o monitoramento pavloviano divino. Você é um bom menino? Então ganha biscoito. Não é? Então fica de castigo. Só que o biscoito era um visto no passaporte para o Céu e o castigo era um bate papo muito longo e entediante com o Capeta (sem direito a cerveja).</p>



<p>O grande problema não é que sem Deus a alma humana fica sem berço. O problema é que sem Deus o ser Humano passa a ser seu próprio eixo. Certo, certo…&nbsp;Mas, e daí?</p>



<p>Ocorre que religiões como o Cristianismo (eu disse religiões, não empreendimentos comerciais), Judaísmo, Islamismo e outras possuem esta dicotomia de Bem verus Mal, tudo devidamente herdado de religiões anteriores como o Mitraísmo e o Zoroastrismo. Este tipo de dicotomia construiu maravilhosamente bem as bases morais de nossa sociedade. Ora, fale–se o que quiser dos Dez Mandamentos mas, retirando-se a parte da idolatria que estava lá para garantir o troço, é uma bela regra de conduta, tão boa quanto qualquer livro de boas maneiras hoje. Consideremos que estas religiões lidavam com sociedades em que não vomitar na mesa já era considerado muito chique. Ou seja, uma humanidade bárbara que se deixada à solta provavelmente continuaria espetando uns aos outros só por passatempo.</p>



<p>A humanidade em si não é diferente do indivíduo. Uma criança também precisa de normas severas para poder conviver com o mundo, qualquer um que tenha filhos sabe disto. Você não perde tempo explicando a uma criança de quatro anos que aquela coisa colorida e legal é um autêntico vaso da dinastia Ming que custa uma fortuna e que o Joãozinho (sempre ele, pobre Joãozinho) não pode usá-lo como trave de futebol pois isto quase certamente irá quebrar uma obra de arte preciosíssima e irrecuperável. Ufa! Obviamente o Joãozinho não entenderá patavinas disto. E já era um vaso. Você simplesmente diz &#8220;larga o vaso&#8221; e pronto. Depois que a criança está mais crescida você passa a explicar os porquês (ela mesma cobrará isto). Finalmente um dia você descobre que não precisa mais explicar, a criança já entende que certas coisa são brinquedo e outras não. Ou seja, você vai impondo uma severidade cada vez menor à medida que a maturidade vai chegando. É a mesma coisa com a humanidade como um todo. Já fomos crianças que quebravam não apenas nossos brinquedos como as cabeças, digo, os brinquedos dos outros. Neste contexto, o rígido código moral de uma religião osiriana se faz necessário para impedir que a humanidade, ainda criança faça, besteira. Ou, pelo menos, que não faça besteiras demais.</p>



<p>Se o Æon de Ísis caracterizou–se pela descoberta da vida, o de Osíris foi pela descoberta da moral. Bem, mal, certo, errado… Eram conceitos que o Ser Humano precisava compreender mas que ainda não estava maduro para tanto. Ok, se a explicação não vai ser entendida que se dane a explicação. Não pode e pronto! E se desobedecer… Ai, ai, ai! Para isto coloca-se um eixo comportamental que deve ser seguido sem muitas discussões. Afinal de contas quando não se sabe muito bem para onde ir é melhor ficar na estrada que nos foi indicada mesmo. E para isto as religiões osirianas são bem construídas.</p>



<p>Só que o pessoal começou a anunciar que não tem Deus coisa nenhuma, que isso é bobagem… A grande maioria das pessoas que diz isto não percebe as implicações do que está dizendo. Se o eixo Deus–Diabo era o conduto comportamental humano, simplesmente retirar este eixo acaba com o direcionamento moral de toda a humanidade.</p>



<p>E isto é complicado… Pois nem todo mundo está pronto para isto. Afinal quando você perde o seu Guia Rex da Moral e dos Bons Costumes vai ser obrigado a achar sozinho o caminho para casa. E tome de pegar ônibus errado e tentar entrar em rua de contra mão. Sem a presença do Deus para julgar os Homens nós mesmos somos obrigados a conduzir este julgamento.</p>



<p>Afinal, se Deus está morto o Diabo também está!</p>



<p>E isto significa que não podemos mais jogar nossa mesquinhas esperanças em uma entidade superior que parece não ter mais nada a fazer a não ser ficar tomando conta da gente, e não poderemos mais jogar nossas culpas no malvadão que quer nossas almas para fazer suflê. E que todos nos viremos com o tal do &#8220;livre arbítrio&#8221;.</p>



<p>Era esta a idéia de Nietzsche ao declarar Deus morto: que já está na hora da humanidade assumir a responsabilidade por seus próprios atos e destino. Thelema procura lidar com esta não necessidade de um &#8220;censor&#8221; externo. A partir do momento em que se reconhece que a única lei possível é a realização da Vontade perde-se a necessidade da filosofia crime/castigo osiriana. Pois se os seus atos são simplesmente conseqüências da sua Vontade então você sabe que é responsável por cada um deles e suas conseqüências. Não há mais culpa a ser redimida, mas sim falhas a serem corrigidas. Não há mais castigo pelo pecado, mas o aprendizado do erro. Não há mais vergonha dos atos, mas a aceitação plena dos mesmos.</p>



<p>A mentalidade osiriana treme ao ouvir que &#8220;Deus está morto&#8221; por medo, pois não está ainda pronta para assumir as responsabilidades por si. A mentalidade do Æon de Hórus é diferente. Ela assume seus atos e lembra–se daquela citação da Missa Gnóstica, &#8220;eu sou só, não existe Deus onde estou&#8221;. E dá um sorriso satisfeito</p>
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		<title>Anjos Cabalísticos</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/anjos-cabalisticos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 May 2024 15:51:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Angeologia]]></category>
		<category><![CDATA[Cabala]]></category>
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					<description><![CDATA[Temos um grande problema quando falamos de anjos&#8230; Primeiro a Igreja nos veio com uma imagem deles, imagem esta que foi depois reforçada nos meios ocultistas/esotéricos por figuras como Mônica Buonfiglio. E hoje em dia acostumamo-nos a pensar em anjos como um bando de cópias do Brad Pitt com asas. Alguns com um pouco mais... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/anjos-cabalisticos/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Temos um grande problema quando falamos de anjos&#8230; Primeiro a Igreja nos veio com uma imagem deles, imagem esta que foi depois reforçada nos meios ocultistas/esotéricos por figuras como Mônica Buonfiglio. E hoje em dia acostumamo-nos a pensar em anjos como um bando de cópias do Brad Pitt com asas. Alguns com um pouco mais de bom-senso pensam também em cópias da Gal Gadot com asas. Mas, de uma forma ou de outra, quando começamos a pesquisar um pouco melhor sobre o assunto chegamos à conclusão de que não é bem assim. Aliás, é bom deixar logo claro que os Anjos Enochianos são tão anjos quanto os Demônios Goethicos são demônios (no sentido cristão da coisa). Sendo assim, é melhor começarmos a colocar esta baderna em ordem&#8230;</p>



<p>O conceito de &#8220;anjo&#8221; utilizado em nossa cultura surgiu na Cabalá e então me parece um tanto lógico que procuremos por lá o que eles são, antes de serem modificados pelo cristianismo e por doidos diversos. Anjos não são sujeitos com asas e auréolas. Para dizer a verdade, anjos não são nem mesmo &#8220;sujeitos&#8221;. Ou melhor, anjos não são &#8220;seres&#8221;. Outro conceito errôneo (muito popular, aliás, entre os seguidores da corrente &#8220;New Age&#8221;) é de que os anjos seriam forças poderosas superiores aos reles humanos. Grande, grande erro. Anjos não são superiores aos seres humanos. E, para sermos precisos, vamos passar a chamá-los por seu verdadeiro nome. Deixemos de lado o termo latino &#8220;anjo&#8221; (de &#8220;angelus&#8221;) e usemos o termo hebraico original: melachin (melach, no singular).</p>



<p>Melach é a palavra em hebraico para &#8220;mensageiro&#8221;, pois é isto que é um &#8220;anjo&#8221;: um veículo para uma mensagem (exatamente isto, que nem o Whatsapp). Mas o que é que estes mensageiros carregam para lá e para cá? Simples: levam &#8220;luz&#8221; e &#8220;sombras&#8221;. Pois existem tanto os melachin de luz (os que sobem) quanto os melachin de sombras (os que descem). Consideremos aqui que &#8220;luz&#8221; e &#8220;sombra&#8221; não tem nada a ver com se a lâmpada está ligada ou não. Estas &#8220;luzes&#8221; e &#8220;sombras&#8221; também não estão ligadas ao bom e velho conceito dual de &#8220;bem&#8221; ou &#8220;mal&#8221;. Elas possuem outro significado&#8230; Então de onde viriam estas sombras? Simples&#8230; De nós, seres humanos, mesmo. Isto porque os melachin, estas forças mensageiras, nada mais são do que as palavras que emitimos. Esta é, aliás, a razão porque se diz que existem &#8220;72 anjos cabalísticos&#8221;, os quais são tão somente os 72 nomes de Yeve (&#8220;Deus, a seu dispor&#8221;): 72 seqüências de três letras (hebraicas, é claro!) que quando usadas de forma correta permitem uma conexão com determinadas energias &#8212; de proteção, cura, revelação, etc.. Aliás, é por isto que o judaísta e o cabalista evitam usar certas palavras. Cada palavra geraria um melach e dependendo desta palavra poderia ser gerado um melach de sombra ou de luz, que unir-se-ia a uma energia positiva ou negativa, carregando esta energia para Kether. Um juramento (ou até mesmo uma promessa falada) jamais pode ser leviano neste sentido pois é também um forte melach é gerado nesta hora, conectando a pessoa diretamente à egrégora pela qual foi feito o juramento. Se este não for cumprida fica um &#8220;buraco&#8221; por onde qualquer coisa pode entrar. Por este pensamento, já imaginou quantos buracos você carrega à sua volta?</p>



<p>Outro ponto que foi dito acima é esta idéia de que os anjos seriam aquelas coisas lá em cima olhando para a gente com cara de &#8220;coitadinhos, tão fraquinhos&#8221;&#8230; Os melachin são apenas ferramenteas da divindade (ou da egrégora, conforme queira), feitos para carregarem mensagens ou idéias entre esta divindade e o ser humano. E, sendo ferramentas, não possuem vontade própria; seria muito incômodo se sua chave-de-fenda resolvesse de uma hora para outra que não iria mais apertar parafusos de cabeça chata, só os de cabeça redonda. E, ora bolas, você não acha que um celular é superior a você. Aliás, até mesmo o melach da morte pode ser impedido em sua missão, se a pessoa que o estiver barrando souber quais as conexões energéticas que deve realizar para tanto. Por outro lado, um ser humano é dotado de livre-arbítrio e Vontade (o que não quer dizer que a maior parte das pessoas faça algum uso disto, muito pelo contráio em geral as pessoas apenas reagem à vida). Os anjos não são estrelas, homens e mulheres são. Um melach não pode dominar um ser humano mas um ser humano pode (e com todo o direito até) dominar um melach, mesmo que seja para desfazer uma ordem dada a ele pela divindade.</p>



<p>Um detalhe a ser considerado aqui é o anjo favorito de onze entre oito esquisotéricos, católicos, e velhinhas atravessando a rua: o anjo da guarda (alguém aí falou em Sagrado Anjo Guardião?). Bem, para a Cabalá isto simplesmente não existe. Afinal de contas você não pede para o seu celular te proteger (a não ser que seja um daqueles antigões e você o jogue na cabeça do ladrão). O que existe é o chamado Magid, que não é um melach e sim um reflexo de nós mesmos no o Mundo Superior, além de Kether. Algo como um &#8220;eu sou você depois da iluminação&#8221;. De vez em quando nosso Magid nos dá uma cutucada e recebemos alguma orientação &#8212; é a tal &#8220;proteção do anjo da guarda&#8221;. É claro que alguns sujeitos receberam um cutucão mais forte que outros. Alguns receberam um verdadeiro ippon, como o Crowley (com Aiwass) e Abraão (que não apenas foi &#8220;visitado&#8221; por seu Magid mas como também pelos de seu filho Isaac e de seu neco Jacó).</p>



<p>Esta é uma visão cabalística das coisas. É claro que a egrégora do &#8220;Brad Pitt de asas&#8221; já é consideravelmente forte (apesar de eu ainda preferir a Gal Gadot) e nada impede alguém de lançar mão dela. Mas, como eu costumo dizer às quintas-feiras, é sempre bom saber de que moringa veio a água.</p>
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		<title>Biografia Verdadeira (não autorizada!) de Frater Pendurado</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/biografia-verdadeira-nao-autorizada-de-frater-pendurado/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 May 2024 19:11:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Humor]]></category>
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					<description><![CDATA[Primórdios de Vida Aliste Cróle nasceu em 12 de outubro de 1875 e.v, na fazenda de Clara Dona Quera, na pequena e pacata cidade de Juazeiro do Norte, no Brasil. Seu nome de batismo era Eduardo Alexandre Cróle e nasceu como membro de uma família cheia da grana e devota de Padim Ciço, sendo seu... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/biografia-verdadeira-nao-autorizada-de-frater-pendurado/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h1 class="wp-block-heading">Primórdios de Vida</h1>



<p>Aliste Cróle nasceu em 12 de outubro de 1875 e.v, na fazenda de Clara Dona Quera, na pequena e pacata cidade de Juazeiro do Norte, no Brasil. Seu nome de batismo era Eduardo Alexandre Cróle e nasceu como membro de uma família cheia da grana e devota de Padim Ciço, sendo seu pai um destacado latifundiário da cana de açúcar. Desde cedo mostrou-se rebelde, sendo apelidao por sua mãe de &#8220;Cabra do Apocalipse&#8221; e mudando seu nome para Alisté (que era como uma escravinha costumava chamá-lo de noite) só para não ter o mesmo nome do pai, que morreu quando ele tinha 11 anos.</p>



<p>Sendo rico às pampas e não tendo o que fazer, acabou se metendo em um monte de confusão, desde tocar fogo no casebre das ferramentas até quase matar a mãe do coração quando destruiu a privada tentando comprovar a teoria de que &#8220;vaso ruim não quebra&#8221;. Tendo nascido com &#8220;aquilo roxo&#8221;, aos 10 anos já dava no couro, aos 14 não perdoava nem as cabras da fazenda e aos 17 já ostentava orgulhoso uma verdadeira coleção de doenças venéreas.</p>



<p>Sem saber o que fazer com o filho, Dona Cróle mandou-o para estudar na Capital e ele acabou matriculando-se na universidade, onde especializou-se em matérias como putaria, carteado, bebedeiras, etc.. Ou seja, continuou sendo um tremendo vagabundo, freqüentando mais os bordéis da Zona do Mangue do que as salas de aula. Mas como sua mãe era prima da cunhada de uma irmã do amigo da amante do Imperador D. Pedro II, acabou indo trabalhar no Corpo Diplomático da Coroa Imperial, onde poderia continuar sua vida de libertinagem, porres homéricos e falta do que fazer, mas pelo menos o faria com uma certa classe. Mas, sendo um rapaz esperto, percebeu que mesmo com os polpudos subornos que recebia no serviço público, aquela carreira não lhe garantiria um lugar nos livros de História; quando muito o manteria afastado das colunas policiais.</p>



<h1 class="wp-block-heading">O Envolvimento com a Magia</h1>



<p>Após passar por um porre homérico, regado a muita absinto e anisete, começou a procurar por coisas diferentes para fazer. A leitura do livro de Carlos Ecretause, &#8220;Chovendo Sobre o Molhado&#8221;, colocou-o em contato com a idéia de uma sociedade secreta de grandes iniciados, a qual dirigia os destinos da Humanidade desde o princípio dos tempos, a Grande Fraternidade de Branco. Entre um gole e outro, Cróle resolveu que seu grande objetivo a partir daquele momento seria arrumar uma boquinha juntando-se a esses tais de iniciados. E tanto fez que acabou entrando para um grupo denominado Ordem dos Pedreiros Iluminados, em 1898 , aos 23 anos de idade. Lá assume aquele que seria seu nome mágico mais conhecido: <strong>Pendurado</strong> (do tupinambá &#8220;peren du aratho&#8221;: aquele que não paga suas contas), avançando rapidamente nos vários graus da Ordem em direção ao estado místico de Paha-ra-yíba, de onde diziam vir todos os Verdadeiros Pedreiros, sob os cuidados do Grande Pedreiro, Seu Bené (que também apresentou-o à cachaça, da qual passaria a tomar litros e mais litros por dia). Seu Bené, conhecido como herdeiro espiritual de Pai Mateus, líder dos Pedreiros, saiu do Brasil em 1899, por razões de saúde (o vizinho cornudo voltou do ambulatório) e foi sabe-se lá para onde. Sem ter quem lhe colocasse um freio, Cróle saiu fazendo ainda mais bobagens e acabou sendo chutado para fora da Ordem antes que desse cabo dela.</p>



<p>Dizem que após ser expulso, Cróle mandou uma macumba tão bava para cima da Ordem dos Pedreiros Iluminados que esta deu com os burros n&#8217;água e acabou dividindo-se em grupos menores, tais como a Fraternidade dos Zeladores da Porta Sagrada, a Ordem dos Pedreiros da Santa Pá e outras, todas alegando serem os autênticos descendentes dos míticos Paha-ra-yibans.</p>



<h1 class="wp-block-heading">A Escritura do Livro</h1>



<p>Sabendo que se fosse pego pelos antigos companheiros de Ordem acabaria levando uma sova daquelas, Cróle resolveu fazer uma viagem bem longa. Passando por Ouro Preto, Miracema do Norte e Salvador, foi reenconrar seu antigo mestre, Seu Bené, em Olinda, onde ele dizia estar estudando a Alquimia Sagrada e técnicas milenares de Yoga. Na verdade, Seu Bené estava era fabricando e vendendo ilegalmente cachaça para uma colônia de franceses e gerenciando um pequeno mas bem próspero prostíbulo.</p>



<p>Nessa época, Cróle conseguiu passar sua primeira cantada bem dada na vida e acabou casando com D. Rosinha Quenga, irmã do pintor de paredes Geraldo da Quenga. Cróle achava Rosinha até bem jeitosinha mas não via nada de mais nela. Mas sabia que havia se casado com uma filha-de-santo experiente. Juntos, foram para Salvador, onde se daria a experiência mais importante de sua vida, em março de 1904 . Há muito tempo que Cróle tentava bater um papo com seu Exú-de-Cabeça, através dos métodos descritos no &#8220;Livro das Sagradas Simpatias de D. Amelinha, a Maga&#8221;, sem sucesso. Mas foi na Baixa do Sapateiro, através da interferência de Rosinha Quenga que Cróle veio a encontrar aquele que seria considerado como sendo o seu Exú-de-Cabeça.</p>



<p>De acordo com o diário de Cróle, enquanto ele tentava (sem sucesso), chamar um garçom do hotel para trazer uma birita para sua esposa, esta começou a receber uma mensagem astral de um antigo e já esquecido orixá, chamado Horácio. Sem acreditar no que via, Cróle começou a fazer uma série de testes para verificar o grau de veracidade desta comunicação mas foi convencido por sua esposa que uma prova de Geometria não era a melhor coisa a fazer naquele momento. Mesmo assim, Rosinha, que nem tinha terminado o 1º Grau, conseguiu responder a todas as perguntas. Assim, ele levou-a para tomar uns passes no terreiro de Mãe Mocinha de Oxumaré onde Rosinha apontou-lhe um velhíssimo patuá, escondido em um canto. Quando perguntou a Mãe Mocinha que patuá era aquele, a velha mãe-de-santo disse que era uma herança de sua tataravó, dedicado a um orixá que não se cultuava mais, chamado Horácio.</p>



<p>Após muitas velas acesas, ebós deixados em encruzilhadas, um bocado de trabalho com o tal do Horácio e muitos contos-de-réis no cofre de Mãe Mocinha de Oxumaré, Cróle conseguiu o que queria. Baixou o santo de uma entidade que dizia se chamar Eufói e que lhe fez escrever um livro chamado de Liberal do Lheguelhé, o Livro do Já Sei!. Esse livro tornou-se o ponto central da filosofia de vida de Cróle, ainda que de início ele o tenha perdido em um bordel de Porto Seguro. Crolé chamou a si mesmo de Profeta do Novo Som e disse que o Liberal marcava o fim de uma Era e o início da Era de Horácio, um novo começo para a humanidade!</p>



<h1 class="wp-block-heading">O Profeta de Uma Nova Era</h1>



<p>Após a escritura do Livro do Já Sei, Cróle escreveu para seu antigo mestre, Seu Mateus, dizendo que havia chegado o Enguiço dos Deuses e que ele tinha feito um bom acordo com os Mestres dos Secretos e que eles o haviam nomeado Coronel Mágico. Seu Mateus não gostou nada dessa história toda e os dois de pegaram em um arranca-rabo de magia no qual Cróle acabou levando a melhor. Dizem que Seu Mateus chamou até o Cramulhão para puxar o pé de Cróle mas este não se fez de rogado, colocou o chifrudo em uma garrafa e usou-o para dar cabo de Seu Mateus tempos depois.</p>



<p>Em 1907 , Cróle funda o Afoxé do Agogô (AA), primeiro afoxé centrado no Livro do Já Sei!, que havia sido encontrado pela cafetina de Porto Seguro e devolvido a Cróle. Dois anos depois ele começa a publicar &#8220;O Enquiço&#8221;, órgão oficial do AA, publicado no Carnaval e na Festa de São João. Como mais ninguém queria escrever em uma publicação tão xinfrim, a maior parte dos artigos era do próprio Cróle. Nesse mesmo ano, ele separou-se de Rosinha Quenga, que havia preferido ficar lá para as bandas de Porto Seguro mesmo.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Cróle e a Ordem do Terreiro de Oxente</h1>



<p>Em 1910 , a casa de Cróle é invadida por um certo Teodoro Réis, líder da Ordem do Terreiro de Oxente. Réis armou um tremendo barraco dizendo que Cróle havia publicado o Segredo Secreto da O.T.O.. Depois de tomar uma jarra inteira de suco de maracujá, Réis mostrou a Cróle um trecho de um dos cordéis que ele havia impresso tinha convencido os líderes da O.T.O. de que ele praticava uma tal de magia sexual, a qual era usada nos rituais da Ordem. O único modo de fazer Cróle parar de rir foi oferecer uma vaguinha na Ordem para ele também, já que parecia não ter mesmo jeito. Foi o bastante para que Cróle acabasse virando o pai-de-santo da Ordem em 1912 .</p>



<h1 class="wp-block-heading">A Abadia da Telma em Zé Faliu</h1>



<p>Após a Primeira Grande Guerra, da qual nem ouviu falar, Cróle teve uma filha, Popinha, com Léia Hirsuta (também conhecida como Mulher da Luz Escarlate) e, em 1920 ele se muda para uma cidadezinha no Sertão Nordestino chamada Zé Faliu, onde funda a Abadia da Telma. O povo logo apelidou a tal Abadia de &#8220;Casa da Luz Escarlate&#8221;. Lá, Cróle entornava cachaça como nunca, mesmo quando viajava para o Rio de Janeiro ou São Paulo, atrás de dinheiro.</p>



<p>Quando um dos seguidores de Cróle, Raul Amado Dias, morreu por conta da água ruim do açude, a esposa dele, Betina Maria, vendeu a história para um tablóide de Pernambuco. Logo em seguida, os jornais de todo o Nordeste contavam histórias de pactos com o Canhoto e coisas piores, como jantares com Lampião. Já de saco cheio de toda essa história, o governador Cavalcanti bota Cróle e sua turma para fora do estado, deixando bem claro o que lhes aconteceria se voltassem a por os pés por aquelas bandas. Dali, Cróle viajou por diversas províncias, indo acabar em São Paulo.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Os Últimos Anos</h1>



<p>Em São Paulo casou-se novamente, com Maria Tereza, uma espanhola graúda. Nessa época, já havia assumido plenamente a liderança da O.T.O., coisa que muita gente não gostou e saiu da Ordem para fundar outros grupos. Só que todos esses grupos também se chamavam Ordem do Terreiro de Oxente, o que acabou causando uma confusão danada. Em 1934, Cróle se meteu em uma baita confusão com um velha cafetina para quem devia dinheiro. Tentou dar uma de esperto mas acabou levando uma tremenda sova e ficou sem um tostão. Foi durante essa sova que um dos paus-mandados da cafetinha lhe deu o apelido pelo qual seria conhecido: &#8220;o homem mais idiota da face da Terra&#8221;.</p>



<p>Em 1939 publicou um livro chamado &#8220;Oito Conversas Sobre Jonga&#8221; e sugeriu um sinal de vitória para Getúlio Vargas (mas como era muito complicado, Vargas jamais utilizou ). Depois de 1945 passou a morar de favor na Pensão da Restinga, nos arredores do Rio de Janeiro, onde recebeu discípulos de quem nunca mais ouvimos falar.</p>



<p>Frater Pendurado morreu na noite de 1ª de dezembro de 1947, de gripe e ataque cardíaco, em seu cafofo na Restinga de Marambaia. Dizem as lendas que suas últimas palavras foram &#8220;ora, que m***&#8221;, mas ninguém sabe de onde isso veio pois não tinha mais ninguém em casa. No dia 5 de dezembro, foi enterrado como indigente no Cemitério do Cajú.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Nota</h1>



<p>Dizem que houve um sujeito na Inglaterra cuja biografia parece ter se baseado na de Alisté mas que se deu melhor nessa história toda. Por falta de provas documentais, negamos que esse tal de Crowley tenha realmente existido.</p>
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		<title>Gênese Cabalística</title>
		<link>https://quetzalcoatl-oto.org/genese-cabalistica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Frater Hrw]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 May 2024 18:56:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cabala]]></category>
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					<description><![CDATA[Introdução Normalmente os estudos cabalísticos sobre a Criação, a Gênse baseiam-se em uma série de análises gemátricas e temúricas do primeiro livro da Torah. Estas análises podem ser encontradas com uma certa facilidade, inclusive da autoria de grandes nomes da Cabala. Este estudo propõe-se a seguir uma linha diferente, analizando os aspectos filosóficos por detrás... <div class="link-more"><a href="https://quetzalcoatl-oto.org/genese-cabalistica/">Leia mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<h1 class="wp-block-heading">Introdução</h1>



<p>Normalmente os estudos cabalísticos sobre a Criação, a Gênse baseiam-se em uma série de análises gemátricas e temúricas do primeiro livro da Torah. Estas análises podem ser encontradas com uma certa facilidade, inclusive da autoria de grandes nomes da Cabala. Este estudo propõe-se a seguir uma linha diferente, analizando os aspectos filosóficos por detrás do ato de Criação e mostrando com estes aspectos aplicam-se sob uma ótica telêmica ao dia-a-dia.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Breve Histórico da Cabala</h1>



<p>Antes de se estudar a filosofia por detrás da Gênese Cabalística é interessante que tenhamos algum conhecimento da gênese da própria filosofia cabalística. Um breve estudo da história da mesma dá alguma luz sobre a forma de se encarar um texto da Cabala.</p>



<p>Não existem registros da exata época do surgimento da Cabala. Quando de seus primeiros registros escritos — a Torah e o Sepher Yetzirah, em cerca de 515 a.C. — esta já surge como um sistema filosófico, teogônico e mágico completo, denotando um longo desenvolvimento anterior. Este desenvolvimento, acreditam os historiadores, começou quando da escravidão dos hebreus no Egito e depois na Babilônia, onde os traços culturais destes povos foram absorvidos e reinterpretados. Desta longínqua época até a escritura da Torah não existem quaisquer dúvidas de que a Cabala era uma tradição puramente oral, onde já se encontrava a principal divindade, Iohovah.</p>



<p>Em cerca de 450 a.C. os rabis Ezra e Nehemiah puderam finalmente compilar o Velho Testamento do Hebreus, ou como reza a tradição, Moshe escreveu seu Pentateuco. Isto marcou um renascimento do culto da Cabala, dando origem ao que conhecemos hoje como Judaísmo, o qual manteve-se inalterado até 320 a.C., quando Ptolomeu Soter tomou a cidade de Yerushalom (Jerusalém), destruíndo o culto judeu. Seu sucessor, Ptolomeu Philadelphus, entretanto, resgatou o culto e ordenou sua revisão e tradução para o Grego por setenta e dois estudiosos em 277 a.C.. Desde então tanto o Judaísmo quanto o Cabalismo passaram por uma série de provações, tanto oriundas das antigas filosofias e religiões quanto das novas.</p>



<p>Com as imigrações judaicas para a Europa, estas doutrinas foram sendo espalhadas pelo mundo, muitas vezes voltando às suas origens de tradição oral; algumas vezes por conveniência ou tradição, outras vezes como única forma possível ou segura. Isto não apenas gerou uma considerável diferenciação entre a doutrina primitiva e a de então (mais ainda em referência à atual) mas provocou o surgimento de uma diversidade de escolas diferentes. Tais escolas não limitava-se apenas a diferentes interpretações da Torah e da outra grande obra desta filosofia, o Zohar, o &#8220;Livro do Esplendor&#8221;. As diferentes escolar também agregavam ao cabedal de conhecimentos clássicos teorias tais como a &#8220;queda&#8221; da humanidade, o renascimento do homem como mulher e a punição dos pecados cometidos em vidas passadas.</p>



<p>Algo desta tradição, contudo, chegou até escolas iniciáticas não-judaicas e foi incorporado ao compêndio de conhecimento das mesmas e muito deste conhecimento foi a origem da Cabalá Européia e à vertente da Cabala que estudamos dentro da O.T.O., esta herdada da Golden Dawn</p>



<h1 class="wp-block-heading">O Processo de Criação</h1>



<p>O processo de criação do Cosmo pela tradição cabalística é consideravelmente conhecido por toda a civilização ocidental, posto ser esta a origem na cosmogonia cristã. Outrossim, a fonte original traz-nos algumas considerações interessantes, pontos específicos que foram deixados para trás pela filosofia dos seguidores no Nazareno. Uma pequena visualização deste processo se faz agora necessária.</p>



<p>O primeiro ponto a ser considerado é o fato de que o Deus criador é também ele uma criatura. Para o cabalista o princípio criador é a Torah. Aqui deve-se tomar cuidado pois não estamos nos referindo neste ponto ao livro que recebe este nome, mas à força primal de toda a criação, o moto primo de tudo. Em Hebraico, Torah significa &#8220;Lei&#8221;. Antes de ser uma série de regras aplicadas ao ser humano, a Torah é a Lei que rege o funcionamento do Macrocosmo, não apenas a nível moral ou físico mas abrangendo todo o escopo espiritual, físico e energético do Universo. Foi esta Torah, esta &#8220;forma correta de Ser&#8221; que deu origem a Deus. E aqui devemos fazer outra parada pois o Deus cabalístico não é o Deus único e antropomorfizado, mutiliado e limitado a um aspecto patriarcal e masculino, ao qual o homem ocidental está acostumado e sim um complexo de formas-pensamento, de Inteligências, de arquétipos e forças, tanto de âmbito masculino quanto feminino. O Deus criado pela Torah para o gerenciamento da Criação é um Deus completo em si mesmo, o protótipo do Adam Kadmon que viria a seguir. Pois este é o propósito do primeiro passo da Gênese: o estabelecimento de um propósito que moveria todo o processo a seguir em uma direção específica, controlando, organizando e disciplinando as energias envolvidas no processo..</p>



<p>Este processo continua através de seis &#8220;dias&#8221;, apresentando uma série de passos seqüenciais e lógicos. A cada &#8220;dia&#8221; um componente do Universo é diferenciado, criado, analizado e confirmado. Note-se que cada &#8220;dia&#8221; termina com a frase &#8220;e ele viu que isto era bom&#8221;, ou seja, analizou o que havia acontecido. Note-se aqui que o termo &#8220;dias&#8221; pode — e deve — ser interpretado na forma de &#8220;eras&#8221; e não de períodos formais baseados na rotação planetária. Ou seja, Deus utiliza seis eras, seis etapas diferentes para a Criação. Estudos gemátricos e temúricos indicam que esta criação estava direcionada completamente para a etapa final, o sexto dia, a criação do Ser Humano. Este Ser Humano primordial é criado &#8220;à imagem e semelhança de Deus&#8221;, ou seja, é criado não como uma entidade subserviente e sim como uma divindade em potencial.</p>



<p>Após a última etapa do processo é dada aos Melachin (os anjos cabalísticos) a tarefa de nomear as coisas no Universo. Um ponto fundamental a ser lembrado aqui é a importância atribuída pela Cabala aos nomes. Na Tradição Cabalística um nome não é apenas um rótulo a ser dado a alguma coisa. Um nome deve representar a essência daquilo que nomeia. Algo só pode ser criado se àquilo puder ser dado um nome correto. Note-se então que se as coisas no Cosmo não possuíam um nome elas ainda não existiam de fato. Eram apenas potencialidades presentes em Kether. Entretanto os Melachin não conseguem dar às coisas seus nomes, ou seja, eles falham em transformar estas potencialidades na realidade de Malkhut.. Quem toma esta tarefa e a executa é Adam Kadmon. Com isto, o Ser Humano é premiado com o Livre Arbítrio, enquanto aos Melachin resta permanecerem como meras ferramentas entre a divindade superna e a divindade materializada.</p>



<p>Finalmente, é criada, a partir de Adam Kadmon, a figura de Chava (Eva), que atuaria como sua companheira (gerando também a figura de Adam). O restante da história, envonvendo frutas, árvores e serpentes é mais do que conhecido por todos. Esta alegoria possui uma interpretação diferente dentro da Cabala do que a dada pelo Cristianismo. Porém esta interpretação foge do escopo deste trabalho e não será comentada aqui.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Interpretação Filosófica</h1>



<p>As famosas primeiras palavras originais do Gênese mosaico são &#8220;bereshit barah Elohin et&#8221;. São extensos e numerosos os estudos que tratam destas palavras e seria redundantemente exaustivo repetí-los todos aqui em íntegra. Para os fins deste estudo, basta-nos a colocação de que estas palavras já trazem em si a idéia da Criação com a Morada (a letra Bet) do Homem e como uma bênção (bracha). Consideremos que uma moradia, um lar, evoca a idéia de proteção e conforto, da mesma forma que a idéia de bênção reforça a idéia de proteção. Isto coloca-se contra o conceito do mundo material como um local de provação e tormentos. Uma casa abençoada não poderia ser um Vale de Lágrimas mas ao contrário, um local de êxtase e regozijo. Estas palavras trazem também um ponto interessante na figura de Elohim. Em geral o nome &#8220;Elohim&#8221; costuma ser traduzido simplesmente como &#8220;Deus&#8221;. Porém o mais correto seria &#8220;Deusas&#8221; posto ser Elohim não um princípio masculino e sim feminino e a palavra denotar um plural e não um singular. Não sendo um deus castrado em sua androgenia, pode utilizar a faceta de energia sexual que for mais conveniente para cada caso. E são as justamente as energias femininas de geração que realizam a Gênese.</p>



<p>Existe também fator tempo a ser considerado. É esta a chave para a compreensão dos seis dias de criação do Cosmo na cosmogonia cabalística. Esta divisão do processo em seis etapas reflete a estrutura de criação colocada pelo caminho da Espada Flamejante da Otz Chain (a árvore da Vida). Ou seja, o processo de formação a partir de Kether em direção a Malkhut, passando pelos mundos Arquetípico, Criativo, Formulativo e Ativo. E, a partir da correspondência entre Macro e Microcosmo podemos revelar este mesmo processo na estrutura do Adam Kadmon, onde o processo de criação passa mais explícitamente por seis etapas: Yechidah, Chiah, Neschama, Ruach, Nephesh e Gulph. Isto indica, fundamentalmente duas coisas. A primeira delas é a necessidade que o processo criativo tem de uma disciplina. Sem uma correta disciplina estas energias postas em movimento não adquirem a estrutura necessária para passarem de meros arquétipos a objetos existentes. Cada passo do processo deve ser executado de forma ordeira, em seu momento correto para que o objetivo seja alcançado. E da mesma forma que o processo da Gênese seguiu tais parâmetros, em nossas gêneses pessoais — e em qualquer outra atividade que seja executada — o sucesso só é alcançado se esta mesma filosofia de ação for seguida. O Ser Humano foi criado com a potencialidade do Deus mas esta potencialidade só pode ser alcançada quando trabalhada disciplinadamente. Caso esta disciplina, esta ordenação das coisas, este respeito ao tempo certo de tudo, não sejam levados em conta o que se tem é apenas o mero fracasso em uma empreitada. Outra característica desta disciplina é o seu aspecto analítico. Deus não apenas cria o Universo, ele o analiza e pondera se o que foi feito era ou não bom. Com isto temos que um processo de criação não deve ser deixado por si, mas acompanhado criteriosamente, passo a passo.</p>



<p>Um detalhe interessante é que a consideração &#8220;diária&#8221; de que aquilo era &#8220;bom&#8221; não ocorre no segundo dia. Este é o dia das separações, quando céu e terra, o seco e as águas, a luz e as trevas são separados. Poder-se-ia questionar qual o porquê de Deus não considerar esta separação &#8220;boa&#8221;. Em primeira instância pode-se vir a pensar que a separação seria considerada &#8220;ruim&#8221;. Esta interpretação porém é fruto de uma falta de análise mais acurada. Ocorre que a divisão não é algo bom ou ruim. Ela simplesmente &#8220;é&#8221;. A dualidade causada pela divisão é um componente fundamental de tudo pois o uno é, por definição, estático enquanto o dois é dinâmico; e sem este dinamismo da divisão o processo de criação não pode prosseguir. Deus então simplesmente aceita esta condição necessária e abstêm-se de comentar sua qualidade. Da mesma forma quando, individualmente, estamos em um processo criativo devemos estabelecer sempre um equilíbrio dual de forma a gerarmos esta mesma dualidade dinâmica.</p>



<p>A questão seguinte a ser considerada é a questão dos nomes. Como dito anteriormente, todo o conteúdo da Criação recebeu seus nomes de Adam Kadmon. Foi dito também que dentro da filosofia cabalística algo só pode existir se puder ser nomeado. Nomear torna-se portanto um processo criativo. Cria-se ao nomear. Entretanto não foi Deus, supostamente o Criador, que efetuou esta nomeação. Disto podemos concluir que a Criação não foi, afinal, um ato de Deus, mas do nomeador de todas as coisas: Adam Kadmon. Desta forma passa-se a ver o Ser Humano não apenas como uma criatura passiva no processo do Gênese e sim como o efetivo criador do Cosmo. O prêmio recebido foi o Livre Arbítrio, o qual merece ser estudado. Pois este Livre Arbítrio é um tema apaixonante para debates. Normalmente considera-se como sendo o Livre Arbítrio a capacidade de se manipular o próprio destino. Ocorre que aqui pode (e deve) ser colocado uma proposição do Liber AL vel Legis: &#8220;tu não tens o direito de fazer senão a tua vontade&#8221; (AL I:42). Este Livre Arbítrio então, em uma visão telêmica seria justamente esta Vontade. Ao assumir a Criação o Ser Humano recebe também a sua Grande Obra a ser cumprida. Desta maneira, o Livre Arbítrio é a capacidade humana de seguir em direção à Verdadeira Vontade.</p>



<p>Finalmente vemos no passo final da Criação que de uma costela de Adam Kadmon é criada Chava. Isto é uma óbvia alegoria que, mais uma vez, remete à necessidade da divisão e à natureza divina do Ser Humano. Pois o Adman Kadmon traz em si os atributos masculinos e os femininos. É nesta divisão que o homem e a mulher recebem suas características individualizadas, passam a ser castrados em metade de suas essências. Pois neste momento não apenas Chava é criada mas também Adam. Isto é feito em prol da necessidade de se experimentar a dualidade, visando o auto-conhecimento pela análize das partes. Entretanto, uma vez alcançado este auto-conhecimento o ser humano passa a ver também sua natureza mutilada e inicia a ascenção à divindade tendo como um dos primeiros passos a recuperação de sua metade perdida, o alcançar da androgenia.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Conclusão</h1>



<p>Vê-se por este estudo que a Cabala enxerga no Ser Humano uma divindade ainda em potência mas capaz de alcançar, através do auto-conhecimento sua plenitude divina. Este auto-conhecimento, entretanto, é um caminho a ser trilhado através de um método disciplinado e analítico. É posta de lado também a noção da vida como uma espécie de punição imposta por uma divindade tirânica à humanidade; muito pelo contrário, vê-se a vida como uma dádiva a ser utilizada em prol de nosso Livre Arbítrio, que em um sentido telêmico não é nada menos que a almejada Verdadeira Vontade. Uma vez alcançado este estado tem-se o libertar da condição de divisão dual e alcança-se o estado de unidade bi-polar e, por fim, o retorno à condição de Adam Kadmon.</p>



<p>O estudo da Cabala é um trabalho apaixonante e tremendamente vasto mesmo em sua simplicidade. Recomenda-se a todo o estudante de Thelema este estudo por estar a Cabala na base de nossa filosofia e também para poder compreender melhor a origem de uma filosofia de vida e magia que foi tremendamente deturpada pela civilização cristã.</p>



<h1 class="wp-block-heading">Referências</h1>



<ul class="wp-block-list">
<li>La Qabala Desvelada; Mathers, MacGregor</li>



<li>A Cabala Mística; Fortune, Dion</li>



<li>Liber 777 and Other Qabalistic Writings of Aleister Crowley; Crowley, Aleister</li>



<li>A árvore da Vida — Um Estudo Sobre Magia; Regardie, Israel</li>



<li>Artigo The Basics of the Kabbalistic System; Gault, R. T.</li>



<li>Artigo An Introduction to The Study of The Kabalah; Westcott, William Wynn</li>



<li>Palestras &#8220;A Cabalá no Dia-a-Dia&#8221;, &#8220;Meditação Cabalística&#8221; e &#8220;Rituais Cabalísticos&#8221;; Rav Mário Meir (Sinagoga Aron Habrit / Academia de Cabalá)</li>
</ul>
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