Primórdios do Gnosticismo: O conhecimento libertador

O gnosticismo é uma filosofia oriental de cultura ampla e complexa. O seu conhecimento prático leva à salvação do Ser Interno. Através da morte, vislumbra-se a Consciência Cósmica Absoluta, o Pleroma, preparando-se para uma Nova Era, um Novo Céu e uma Nova Terra. Com as práticas gnósticas, adquire-se o elixir da Vida Eterna através do encontro com o Eu Superior. Esse conhecimento é interno e externo ao mesmo tempo, fazendo da letra morta uma letra viva com caracteres de fogo, assim como diz Hermes Trismegisto: “O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima; o que está dentro está fora e o que está fora está dentro” — esse é o princípio da correspondência. Os textos gnósticos são conhecidos como textos apócrifos, evangelhos secretos e ocultos; são eles: o Livro de Enoque, o Apocalipse de Pedro, o Evangelho de Barnabé, o Apocalipse de Adão, o Evangelho de Judas, o Apócrifo de João, o Evangelho de Maria Madalena e Pistis Sophia. Os Evangelhos Apócrifos foram banidos pelos primeiros teólogos do cristianismo primitivo nos concílios de Niceia (325 e.v.), Roma (382 e.v.), Hipona (393 e.v.) e Cartago (397 e.v.), sendo considerados textos heréticos. O objetivo dos concílios era combater as heresias e formalizar a doutrina cristã.

A expressão “os gnósticos” era conhecida para designar cristãos gnósticos ou heréticos gnósticos, pois o termo “gnosticismo” surge no período da Era Moderna, em 1669, com o filósofo neoplatonista de Cambridge Henry More, que utilizou o sufixo “-ismo”, não usado na Antiguidade. Na Antiguidade, os gnósticos não deixaram nenhum credo ou cânone a ser seguido, e suas vertentes são diferentes entre si e, ao mesmo tempo, semelhantes; isso remete à cultura de cada povo e suas épocas, com suas filosofias e particularidades. Existem textos em copta, grego e babilônico atribuídos à gnose e ao mestre Jesus de Nazaré. Vale lembrar que os povos samaritanos eram conhecidos como israelitas do reino do norte; eles habitavam em Samaria e mantinham grande rivalidade com os israelitas do sul (onde Jesus nasceu, na tribo de Judá). Os israelitas do norte miscigenaram-se com os assírios, babilônicos e persas na época de seu exílio, em aproximadamente 722 a.C.. Os samaritanos mesclaram os ensinamentos da Torá, que engloba os cinco livros do Pentateuco, com os ensinamentos filosóficos dos povos da Mesopotâmia e da Antiguidade, contexto no qual surge o conhecimento gnóstico de forma escrita e estruturada. Ele segue posteriormente para a cidade de Alexandria, na Grécia, e para Roma, no período helenístico do século I pe.v. ao século III e.v. A cultura gnóstica é a fusão de várias culturas, filosofias e religiões da Antiguidade: da região da Mesopotâmia, da cosmologia do Egito Tardio, do neoplatonismo, do judaísmo helênico e do cristianismo ortodoxo primitivo.

Os cristãos primitivos do primeiro século acusaram os cristãos gnósticos de heresia e afirmaram que o samaritano Simão Mago — sábio e antagonista do apóstolo Pedro — foi o arqui-herege, apóstata e fundador dos cultos gnósticos de sua época. O livro de Atos dos Apóstolos (capítulo 8, versículos 9 a 24) relata que Simão foi batizado pelo apóstolo Filipe e tornou-se seguidor dos apóstolos; tentou comprar os poderes dos apóstolos, os quais eram um dom de Deus, para benefício próprio (simonia), e foi repreendido pelo apóstolo Pedro. O filósofo, místico, curador neopitagórico e asceta Apolônio de Tiana, conhecido como Tianeu — que viajou à Babilônia, Índia, Etiópia, Egito e Roma em busca de conhecimento —, foi tido como rival da Igreja Cristã após sua morte, pelos pais da igreja primitiva, devido a comparações feitas entre ele e Jesus. Entre o século I e.v. e o século III e.v., a igreja gnóstica foi integrada ao cristianismo primitivo por teólogos cristãos que dialogavam com a filosofia grega e helênica, pois havia teólogos que valorizavam mais o conhecimento do que o combate aos próprios irmãos de fé. Nesse período, tanto cristãos quanto gnósticos eram perseguidos pelo Império Romano, mas o combate teológico e eclesiástico do primeiro ao terceiro século existia de forma interna na comunidade cristã.

Após a morte de Jesus de Nazaré no primeiro século, ocorreu em Jerusalém o evento conhecido como “Pentecostes”. Nesse período, surge o movimento cristão que se espalha pelo mundo, e a cidade de Antioquia torna-se a capital dos cristãos primitivos. Assim como os cristãos se espalharam, os cristãos gnósticos também se disseminaram por regiões como Jerusalém, Antioquia, Damasco, Alexandria, Cartago, Síria, Bizâncio (posteriormente Constantinopla, atual Turquia), Chipre, Corinto, Tarso e Macedônia. Tanto o cristianismo primitivo quanto os cristãos gnósticos tiveram profundo contato com a cultura helênica e grega por meio dos ensinos e da influência dos escritos de Platão, Aristóteles e Plotino, mesclando-os a elementos judaicos. Já os essênios (judeus que viviam no deserto), após a morte do profeta João Batista, receberam influência da cultura gnóstica vinda da Mesopotâmia; eles registravam e guardavam esses conhecimentos em cavernas, a exemplo do Livro de Damasco, do Livro de Enoque, do 1º Gênesis, de Metatron e de Melquisedeque. O gnosticismo é um arcabouço complexo de cultura social, religiosa, filosófica e espiritual, com vertentes bastante variadas entre si.

As comunidades cristãs do primeiro século surgem na Palestina, e sua liberdade religiosa ocorre no século IV, em 313 e.v., através do imperador Constantino, que assinou o documento chamado Édito de Milão. Em 380 d.C., o cristianismo tornou-se a religião oficial do Império Romano por meio do imperador Teodósio, com a assinatura do Édito de Tessalônica. Já os cristãos gnósticos não obtiveram reconhecimento teológico, eclesiástico ou político, sendo considerados uma seita herética. Os patriarcas do cristianismo gnóstico não deixaram cânone, sucessão eclesiástica ou apostólica, nem mesmo linhagem material para a posteridade, desaparecendo no tempo. Na cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, foram encontradas 13 cópias de códices em papiros encadernados em couro, com escritos nas línguas copta e grega, que falam sobre os cristãos primitivos e os cristãos gnósticos. Esses manuscritos foram ocultados por monges do deserto (do Mosteiro de São Pacômio) por volta de 367 e.v. O motivo foi a carta festiva do patriarca Atanásio de Alexandria, cujo objetivo era combater os arianos, os gnósticos e as doutrinas teológicas falsas e perigosas, a fim de manter a união e a fé cristã.

Os quatro pilares da Gnose são: ciência, arte, filosofia e religião. Eles encontram-se no interior do próprio homem, e seu religare é a conexão com o divino.

Linhagem Gnóstica Antiga:

  • Samaritanos – Exilio da Assíria
  • João Batistas – Essênios
  • Mestre Jesus – Jerusalém
  • Apolonio de Tiana – Grécia e Éfeso
  • Pedro e Paulo – Comunidades Cristãs em Antióquia
  • Simão Mago – Samaria e Roma
  • Tiago – Ebedonitas Cristãos
  • Maria Madalena – Gnósticos Egípcio
  • João e Teólogo Cerinto – Igreja Joanina
  • Tomé e Bardesanes – Maniqueismo
  • Felipe – Comunidade Cristã de Bizâncio
  • Carpócrates – Comunidade Gnóstico Hebraico
  • Valentim Teólogo Gnóstico – Gnósticos Egípcio (100 – 160 e.v.)
  • Saturnino de Antióquia – Gnose Siríaca (100 – 120 e.v.)
  • Basílides de Alexandria – Comunidade gnóstica de Alexandria (117 – 138 e.v.)
  • Marcião de Sinope – Marcionismo (século III e.v.)

“A gnose, como gnosticismo, surge ao longo da história, desaparece e ressurge.” (Autor desconhecido).

Neognosticismo

  • O conhecimento atravessa a Idade Média sob o domínio da Igreja Católica Romana. Em 1118-1312, surge a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão (Ordem dos Cavaleiros Templários) no período das Cruzadas.
  • Nos séculos XII e XIII, surge a maçonaria operativa.
  • Na transição do século XVII para o XVIII, surge a maçonaria especulativa.
  • Início do movimento Rosa-Cruz – 1614 (século XVII).
  • Martinismo Tradicional – 1740 (século XVIII), com Martinez de Pasqually e Louis-Claude de Saint-Martin.
  • Alphonse Louis Constant (Eliphas Lévi) – 1836. Ex-padre, escritor, ocultista e mago cerimonialista.
  • Sociedade Teosófica – 1875. Helena Petrovna Blavatsky.
  • Martinismo Moderno ou Ordem Martinista – 1886. Seu precursor foi Gérard Encausse (Papus). Estudou as obras de Eliphas Lévi, Madame Blavatsky, Martinez de Pasqually e Louis-Claude de Saint-Martin. Foi membro da Irmandade Hermética da Luz, da Aurora Dourada e da Maçonaria de Memphis-Misraim. Fundou o martinismo moderno e tornou-se Grão-Mestre da ordem. Fora do martinismo e dos círculos esotéricos, foi discípulo do taumaturgo Mestre Philippe de Lyon (seu mestre espiritual).

Início do Neognosticismo

  • Marie Sinclair, a Condessa de Caithness (França), foi membro da Sociedade Teosófica junto com Helena Blavatsky e Jules Doinel, maçom e bibliotecário; juntos, fundaram a Igreja Gnóstica Universal. Jules Doinel manteve contato com Gérard Encausse (Papus).
  • 1888: Jules Doinel teve uma visão do Aeon Jesus (Espírito Cátaro), que o consagrou como Bispo de Montségur e Primaz dos Albigenses.
  • 1890: Jules Doinel teve uma visão de Sophia orientando-o a resgatar a gnose da Antiguidade e construir a igreja gnóstica.
  • 1891: Igreja Gnóstica Universal – A Igreja do Paráclito. Jules Doinel é o Patriarca, sob o nome mágico de Valentim II: uma referência ao teólogo e patriarca Valentim da gnose da Antiguidade–. Foi a primeira igreja assumidamente gnóstica da história da humanidade, contando com um Santo Sínodo, cânone e hierarquia eclesiástica.
  • 1893: Homens são ordenados a bispos e mulheres ordenadas a sofias; instituem-se diáconos e diaconisas. A igreja é constituída por “perfeitos”, que são os membros leigos. A doutrina da igreja é formada pelas doutrinas do Patriarca Valentim e dos cátaros. Nesse período, o ocultista Fabre des Essarts (Tau Synésius) funda a Igreja Gnóstica da França, tornando-se seu patriarca.
  • 1895: Jules Doinel abandona o patriarcado e se une ao ocultista Fabre des Essarts (Tau Synésius), enquanto Jean Bricaud (Tau Jean II) assume o patriarcado da Igreja Gnóstica Universal – A Igreja do Paráclito.
  • 1908: Papus une-se a Jean Bricaud (Tau Jean II), dando início à Igreja Católica Gnóstica, que adota uma maior aproximação com as práticas da Igreja Católica Romana. A Igreja Gnóstica Universal passa a ter Ordens Maiores (bispos, presbíteros, diáconos e subdiáconos) e Ordens Menores (leitores, cantores e acólitos).

Jean Bricaud (Tau Jean II) buscou unir-se aos bispos errantes (bispos consagrados por igrejas não canônicas; as igrejas canônicas são a Católica Romana, a Cristã Ortodoxa e a Anglicana). Os bispos errantes em questão são Mar Timotheus, da Igreja Episcopal Americana, Mar François, da Igreja Siríaca Jacobita Ortodoxa, e lideranças da Igreja Católica Independente de Ceilão. A união teve o objetivo de obter a sucessão apostólica da igreja gnóstica da Antiguidade por meio da busca de manuscritos, estudos e pesquisas. Isso refere-se aos manuscritos das igrejas do Egito, da Grécia e da cidade de Nag Hammadi. A Sucessão Apostólica é composta por: Antiguidade oriental e clássica, Mestre Jesus de Nazaré, Patriarca Valentim, Valentim II (Jules Doinel), e Tau Jean II (Jean Bricaud), Patriarca Rosa-Cruz. Theodor Reuss recebe a consagração episcopal da linhagem de Jules Doinel (Valentim II) por meio da Igreja Gnóstica da França, e, em seguida, da Igreja Gnóstica Universal de Jean Bricaud (Tau Jean II), podendo incorporar a Igreja Católica Gnóstica como o braço direito da O.T.O.

Sequência

  • 1890-1892 (ou 1881): Jules Doinel (Patriarca – Bispo Valentim II)
  • 1901: Jean Bricaud (Tau Jean II)
  • 1908: Theodor Reuss (Merlin Peregrinus)
  • 1912: Aleister Crowley (Tau Baphomet)
  • 1966: Michael Bertiaux (Tau Ogdoade Orfeu IV). Seu mestre espiritual foi o doutor e sacerdote haitiano Jean Maine, que o introduziu no Vodu Gnóstico. Bertiaux recebeu sua consagração episcopal pela Igreja Gnóstica da França, que deriva de Papus. Trabalhou como bispo na Ecclesia Gnostica Spiritualis.
  • 1979: Grady McMurtry (Hymenaeus Alpha X°)
  • 1986: Hymenaeus Beta

Observações

1927: Arnold Krumm-Heller (Huiracocha) filiou-se à O.T.O., à Ordem de Memphis-Misraim e à Ordem Martinista. Recebeu carta-patente de Papus e de Theodor Reuss para atuar na América Central, cooperou com as igrejas gnósticas da Europa na abertura de filiais e fundou sua própria escola iniciática: a Fraternidade Rosacruz Antiqua (FRA), tornando-se mestre espiritual de Víctor Manuel Gómez Rodríguez (Samael Aun Weor).

1949: Víctor Manuel Gómez Rodríguez (Samael Aun Weor). Sua trajetória começou no espiritismo e no esoterismo, ingressando posteriormente nas fileiras teosóficas e na Fraternidade Rosacruz Antiqua (FRA). Foi o fundador da Igreja Gnóstica Cristã Universal e do movimento gnóstico. Na contramão da linhagem episcopal das igrejas gnósticas antigas e do neognosticismo, Víctor Manuel Gómez Rodríguez não recebeu outorga de instituições gnósticas nem de seu mestre Huiracocha. Tentou realizar reformas internas na FRA, mas fracassou, rompendo com a instituição e estruturando sua própria ordem iniciática sob o pseudônimo de Samael Aun Weor. Sua suposta consagração espiritual teria sido interna, sob o direcionamento dos mestres de sabedoria, e ele construiu o movimento gnóstico de forma independente. A partir dos 12 anos de idade, abandonou os estudos da escola básica de padres jesuítas e pautou sua vida em se tornar um Avatar para conquistar o mundo com suas ideias-. Seu primeiro livro chama-se O Matrimônio Perfeito, e os demais são compêndios de ensinamentos esotéricos das escolas iniciáticas ou sínteses dos conhecimentos de mestres anteriores, abrangendo budismo, hinduísmo, maçonaria, taoísmo, rosacrucianismo, astrologia, numerologia, cabala hermética, egiptologia, filosofia, metafísica, psicologia, magia sexual e medicina natural. Sua ordem gnóstica encontra-se espalhada e atuante na América Latina, México, Angola, Espanha e nos Alpes Suíços.

Conceitos Gnósticos

  • Consciência Cósmica Absoluta – Pleroma, eternidade, infinito, o Todo.
  • Sophia – Sabedoria, sagrado feminino, a Grande Mãe.
  • Demiurgo – O criador que aprisiona as almas.
  • Cristo Cósmico – Força Crestos.
  • Centelha Divina – É a natureza de Deus em nós, o Todo dentro do homem.
  • Nous – Mente divina, compreensão.
  • Logos – Início, consciência primordial, a razão.
  • Aeons – Manifestações do mundo celestial: de Ain até Malkuth.
  • Dualidade – Macrocosmo e microcosmo, virtude e ego, feminino e masculino.
  • Religare – A religação do homem com o divino.
  • Jesus – Mestre de sabedoria que encarnou o Cristo. Hierofante de mistérios.
  • Arcontes – Hierarquia cósmica que governa o mundo material.
  • Salvação – Autoconhecimento através da Gnose.
  • Fé – Adquire-se por meio da prática.
  • Ponto Matemático – Equilíbrio.
  • Lograr – Alcançar.
  • Cristalizar – Transformar.
  • Bodhisattva – Pessoa que alcançou a iluminação, mas adia sua entrada no Nirvana para ajudar a humanidade. O corpo de um Mestre Ascensionado.
  • Bodhisattva Decaído – Pessoa que caiu durante sua trajetória de iluminação. O corpo de um mestre caído.

Nota: nem todos estes confeitos são compartilhados por todos os grupos gnósticos.